Torne-se perito

O fotógrafo que tentou domar a luz

A arte era a sua obsessão. Não o sexo, nem as drogas. A maior retrospectiva de sempre da obra do fotógrafo Robert Mapplethorpe está em Los Angeles, 27 anos após a sua morte, e quer provar que o trabalho do artista é capaz de sobreviver à polémica que o tornou famoso.

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Robert Mapplethorpe num auto-retrato de 1974: era jovem e bonito, e por dinheiro começou a prostituir-se em bares e ruas de Manhattan ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION

No primeiro volume das suas memórias, Apenas Miúdos (Quetzal, 2011), Patti Smith escreve talvez uma das frases que melhor definem o percurso pessoal e artístico daquele que foi seu namorado, e depois seu amigo incondicional, Robert Mapplethorpe. "Com ele aprendi que a contradição é muitas vezes o caminho mais nítido para a verdade." Parágrafos antes, sintetizara um método de trabalho com ligação directa a uma experiência de vida: "O Robert pegava em áreas de obscuro consenso humano e transformava-as em arte. Trabalhava sem pedir desculpa, investindo o homossexual com grandeza, masculinidade e invejável nobreza. Sem afectações, ele criara uma presença que era inteiramente masculina sem sacrificar a graça feminina. Não procurava fazer uma declaração política nem um anúncio da sua crescente persuasão sexual. Estava a apresentar algo novo, algo jamais visto ou explorado do modo como ele o via ou explorava (…). Tal como dissera Cocteau a respeito de um poema de Genet, ‘A obscenidade dele nunca é obscena’." Era o princípio de Robert Mapplethorpe fotógrafo, o homem que num dia do início da década de 70 pediu emprestada uma Polaroid Land 360 e foi fotografar o que não conseguia encontrar em revista alguma.

O que se seguiu foi uma relação marcada pela sua tentativa de dominar a luz. E a permanente dualidade do rapaz com cara de anjo que se fotografava com pequenos chifres diabólicos, um rapaz marcado por uma educação católica que o fez explorar até ao limite físico as fronteiras entre o bem e o mal numa corrida urgente atrás da sua essência. Queria andar com uma mão dada a Deus no caminho da arte enquanto ideal de perfeição, e atrás do Diabo, nos conteúdos que explorava para atingir esse fim. Robert Mapplethorpe era o bom rapaz com fantasias negras; o homem vestido de cabedal ou maquilhado como uma mulher. O artista que fotograva a modernidade seguindo os pressupostos clássicos e que iluminava cada uma dessas facetas dúplices, revelando-se nesse processo numa verdade complexa, sem espaço para falsear. Mesmo quando punha uma máscara, mesmo encenando. Era a tal verdade que, no caso de Mapplethorpe, Patti Smith diz estar colada à contradição, nem por isso deixando de ser verdadeira. 

A biografia é aqui essencial. Ela foi sempre o meio para a mensagem seguir. Robert e Patti conheceram-se com 19 anos, em Nova Iorque, e fizeram então uma espécie de pacto para a vida e para a arte: nunca se separariam e seriam artista e musa um do outro. Guiado pelo impulso e pela ambição de fundar uma linguagem inovadora na arte – pintura, desenho, escultura – que o projectasse como único, Mapplethorpe descobriu-se fotógrafo enquanto também se descobria sexualmente. E enquanto descobria aquele que viria a ser o seu amante até ao fim da vida, e também o seu mecenas, Samuel Wagstaf. Coleccionador, ex-curador do Instituto de Artes de Detroit, herdeiro de uma pequena fortuna, ligou-lhe uma vez, em 1971; perguntou se estava a falar com “o pornógrafo tímido”. Apresentou-o a galeristas, a coleccionadores, ao meio a que Mapplethorpe sempre aspirara. Um ano depois ofereceu-lhe uma Hasselblad, pagou-lhe um estúdio na Bond Street. Robert já não precisava de contar moedas para comer, só tinha de fotografar, e aí nunca cedeu. Sempre fez o que quis, e o resultado foi uma obra que inclui o mais íntimo da biografia do seu autor até ao fim, ao momento em que se fotografou com marcas visíveis da doença, olhar de frente para a câmara, rosto branco em fundo negro, a mão direita apoiada numa bengala com castão em forma de caveira. Um retrato de morte esculpido com luz, a mesma luz com que esculpiu corpos, rostos e flores. Depois faltou-lhe viver mais. Morreu a 9 de Março de 1989, três anos após ter sido diagnosticado com sida e dois anos depois de perder Sam. Tinha 42 anos.

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Derrick Cross (1983), um dos muitos corpos negros que Mapplethorpe fotografou ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION
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Philip Prioleau (1982) ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION

"Morreu antes de evoluir plenamente", referiu Patti Smith ao Ípsilon, a dias de se apresentar em Los Angeles numa noite de canções, poemas e conversa integrada na maior retrospectiva até agora dedicada à obra de Robert Mapplethorpe. Robert Mapplethorpe: The Perfect Medium, nome comum a duas exposições complementares que decorrem até 31 de Julho em dois museus daquela cidade da Califórnia – o J. Paul Getty Museum e o Los Angeles County Museum of Art (LACMA) – pretende ser um acontecimento. Ali, vemos o testemunho de um artista sobre o tempo e o território em que viveu – era isso que ele achava que valia a pena, ser testemunha do seu tempo –, a Nova Iorque pós-revolução sexual; a da crise financeira que lançou os artistas numa busca alternativa de subsistência, ocupando a Baixa da cidade, então deserta de fábricas; a do submundo da droga e do sexo; a das manifestações contra a Guerra do Vietname; a que chorou a morte de Martin Luther King, mas também as de Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Jim Morrison; a da romaria a Woodstock e a da Factory de Andy Warhol, a grande referência artística de Mapplethorpe. Não queria ser como Warhol; mas queria ter uma importância pelo menos semelhante no poder de sintetizar o seu olhar sobre o que o rodeava, na invenção de um vocabulário visual para processar a sua experiência de vida na arte. Como observou Patti Smith: “Onde o Andy se vira a si mesmo como um observador passivo, o Robert acabaria por se integrar a ele mesmo na acção."    

E mesmo quando escolhia ficar atrás da lente, director exigente e sofisticado, era como se a sua presença pudesse ser notada em cada objecto, rosto ou corpo que fotografava. O olhar é sempre o de Robert Mapplethorpe e ele não queria que esse papel de testemunha privilegiada se esbatesse ou ficasse sequer em segundo plano. “Quando um retratado olha para a câmara, é para ele que está a olhar: há uma cumplicidade e uma força, uma delicadeza que não tem nada a ver com a imagem do pornógrafo”, refere o fotógrafo português João Francisco Vilhena, enquanto folheia Some Women, um livro com 86 retratos de mulheres que foi um dos últimos projectos de Mapplethorpe, publicado em 1990, já depois da sua morte. Lá estão, entre muitas, Susan Sarandon, Yoko Ono, Isabela Rossellini e Patti Smith, o seu primeiro modelo. “Há no trabalho dele uma enorme sensibilidade e uma busca do belo”, diz Luísa Ferreira, fotógrafa, apontando The Black Book (1986), um estudo sobre o corpo masculino, negro, como o livro que lhe revelou “um olhar novo”, marcado pela “sedução”, e “tecnicamente perfeito”, que “sabia usar a luz para acentuar formas, texturas”. E sublinha: “O trabalho que fez com as flores e com o corpo humano é belíssimo." Vilhena volta aos retratos, a uma composição que muitos seguiram. Entre os contágios, aponta Annie Leibowitz como exemplo. “Ele tinha uma grande delicadeza formal; as suas imagens assemelham-se aos clássicos, são profundamente estilizadas, o modo como usa o preto e o branco… Não sinto ali nenhuma tentativa de agressão.”

Entre o clássico e o pornográfico

É um trabalho que vem da pintura, o de Robert Mapplethorpe: a perseguição do clássico já estava nas primeiras experiências. The Perfect Medium quer mostrar essa evolução e apresenta-se como a mais profunda análise até agora feita da carreira do fotógrafo. Desde o início, quando instigado por Patti Smith passou a fotografar para ter as imagens que queria para as colagens, pinturas e instalações que criava obsessivamente, ainda aluno do Pratt Institute, em Brooklyn; ou logo depois, quando ainda procurava o modo de se afirmar enquanto artista na competitiva Nova Iorque. Começou por resistir. Não lhe interessava o trabalho de impressão de fotos. Gostava apenas do momento do clique e de nele conseguir de imediato a perfeição. Mais uma vez seguiu a intuição. Nunca imprimiu fotos, mas passava horas a ver provas de cor até tudo ficar como queria. 

No LACMA estão 182 trabalhos. Há pinturas, esculturas, peças de bijuteria, instalações, mas maioritariamente fotografias sobre a relação do artista com as comunidades gay e sadomasoquista nova-iorquinas, além de capas de revistas, ilustrações, retratos... No Getty está o Mapplethorpe final, 113 fotografias com destaque para o trabalho de estúdio e a perseguição da luz perfeita. E ainda a história, documentada com imagens, da polémica que ficou até hoje colada ao seu nome.  

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Lydia Cheng (1987): o trabalho de estúdio denota a obsessão com a procura da luz perfeita ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION
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Lisa Lyon (1982) ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION

“Ele teria gostado de um reconhecimento maior”, admite Patti Smith, que justifica parte da controvérsia que a obra de Mapplethorpe ainda suscita com a “estreiteza de visão de muita gente”, que “acha que ele se limitou a fazer fotografias pornográficas”. “Ele fez esse tipo de fotos, mas nunca de forma voyeurista”, diz, recusando a ideia de que fosse um voyeur, e defendendo pelo contrário que Mapplethorpe se envolvia no que fazia. “Esse trabalho com a pornografia tomou-lhe uns três anos de vida, foi uma parte importante, contudo pequena, do seu trabalho. Não é tudo”, conclui. Mas terá sido determinante para a falta de “reconhecimento total” de uma obra que terminou “antes de se ter concretizado em toda a sua potência”.

A escolha do título da exposição, de resto, não é inocente. Recua 27 anos até ao que tinha sido até agora o ponto mais alto do olhar sobre Mapplethorpe, como que para arrumar de vez o assunto. Ou seja, pôr um ponto final na ideia de que Mapplethorpe só ficou para a história da fotografia pela provocação, pelo choque. O duplo programa dos dois museus de Los Angeles recupera e elabora o título de uma anterior retrospectiva itinerante, que arrancou em Filadélfia três meses após a morte do fotógrafo, em 1989. É aí que a história parece ter parado no que lhe diz respeito: a exposição de então foi o centro de uma polémica que lançou uma longa discussão, não apenas sobre os critérios para decidir o que é e o que não é obsceno em arte, como da competência de quem aplica essa classificação. Robert Mapplethorpe: The Perfect Moment – assim se chamava – teve ainda a intervenção do artista, que decidiu incluir imagens do seu controverso X Portolio (1978), em que explorou o nu numa perspectiva homoerótica, fotografando cenas sadomasoquistas de modo hiper-realista. Obviamente, o gesto causou indignação junto da opinião pública mais conservadora dos Estados Unidos, com vários grupos religiosos a manifestarem-se pelo cancelamento da digressão. Uma das fotos, do artista com um chicote no ânus, foi considerada “pornográfica”. O Congresso decidiu anular o financiamento federal da retrospectiva. A Corcoran Gallery of Art de Washington não resistiu às pressões e anulou a exposição. Num movimento oposto, no dia designado para a inauguração manifestantes anti-censura projectaram imagens de Mapplethorpe na fachada do edifício; entre elas, um famoso auto-retrato de 1980, em que o fotógrafo aparece com um blusão de cabedal, cabelo à rockabilly, recuperando a iconografia de estrela dos anos 50, olhar desafiador.

O génio dúplice de Mapplethorpe sobrevivia à sua morte; o protesto funcionou como uma espécie de beatificação pública do artista demoníaco. Meses depois, contra todas as recomendações oficiais, o director do Centro de Arte Contemporânea de Cincinatti, Dennis Berry, inaugurou a exposição e foi preso, acusado de promover a “obscenidade”. Seria absolvido logo a seguir.

Parte desse episódio é lembrada no documentário Mapplethorpe: Look at the Pictures, uma produção da HBO que se estrou no passado dia 22 de Abril e que complementa a retrospectiva. Lá está Jess Helmes, o senador republicano da Carolina do Norte, cabeça do movimento de contestação que juntou mais de uma centena de senadores contra a doação de 30 mil dólares, dinheiros federais, ao Museu de Arte Contemporânea de Filadélfia, para montar a exposição: “Robert Mapplethorpe passou os últimos anos da sua vida a promover a homossexualidade; se há senadores que achem que ao dizer isto estou a atacar a estética, a arte, olhem para as fotografias.”

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Melody (Shoe) e Tulips: o trabalho de Mapplethorpe com as flores e com o corpo humano é belíssimo, diz a fotógrafa portuguesa Luísa Ferreira ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION
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Look at the pictures!”, disse Helmes, e esse desafio ecoa enquanto passam no ecrã imagens já célebres do sadomasoquismo pela lente de Mapplethorpe, antes de se ouvir a voz do próprio artista a dizer que sempre quis pegar na sexualidade e levá-la para a arte como ela nunca fora levada antes. Nesse documentário realizado por Fenton Bally e Randy Barbatto, a perspectiva é a de que mais provocador do que esse trabalho de Mapplethorpe foi o modo como Mapplethorpe viveu. Segue-se o mergulho numa intimidade que tenta servir de justificação às opções estéticas que o fotógrafo foi tomando.

É outra vez a biografia a revelar-se inseparável da obra, tal como a narrou Patti Smith no livro que escreveu a pedido do seu amigo. Ele queria que ela contasse a sua história. Não a romantizada ou a maldita, mas a que viveram os dois e que começa com a imagem de um rapaz de caracóis a dormir num quarto em Brooklyn. Um rapaz que adorava Miguel Ângelo.

Inventar um lugar

Robert Mapplethorpe nasceu a 4 de Novembro de 1946 em Floral Park, Queens, Nova Iorque, terceiro filho de seis de uma família católica, conservadora, de classe média branca, com ascendência alemã. O pai queria que ele estudasse design comercial, ele inscreveu-se no Pratt Institute, primeiro para fazer a vontade do pai, mas logo depois descobrindo ali a pintura e a escultura como opções. Sem o dinheiro da família, desistiu do curso e passou a viver de biscates. Trabalhou numa livraria, carregou pianos, quadros, e conheceu Patti Smith, com quem partilhou casa, despesas e um projecto de vida em que a arte vinha antes de tudo.

Por dinheiro, começou a prostituir-se em bares e ruas da Midtown de Manhattan. Era bonito. Homens e mulheres assediavam-no e ele gostava da sedução. Confessaria muitos anos depois à sua amiga de sempre que era uma espécie de embriaguez. Foi nesse universo que encontrou inspiração para os primeiros trabalhos fotográficos. “A obra [de Robert] era boa mas perigosa”, escreve Patti Smith em Apenas Miúdos, referindo-se ao caminho arriscado, mas descomprometido, que o amigo escolhera para mostrar o seu talento. “Ele sempre dissera que tinha de estar autenticamente envolvido no trabalho que resultava das suas investigações S&M, que não fazia fotografias motivadas pelo sensacionalismo, nem assumira como sua missão ajudar a cena S&M a tornar-se mais aceitável socialmente. Ele não pensava que ela fosse aceite, nem nunca sentira que o seu submundo fosse para toda a gente.”   

A história da obra e da vida de Mapplethorpe é a história de uma perseguição. E a história de um artista que inventou o seu próprio lugar na arte. É outra ideia repetida pelos amigos, por Patti Smith, por quem o conheceu. Antes de morrer preparava a sua maior retrospectiva. Seria póstuma e daria numa dimensão muito maior o trabalho que já apresentara tantas vezes publicamente. Desde o início da década de 70 que as suas imagens andaram por galerias de Nova Iorque e daí saíram para as principais capitais. Mas seria a partir de Filadélfia que se lançaria a polémica que, 27 anos depois, Los Angeles quer retomar, para mostrar que Mapplethorpe é mais do que um provocador obsceno  e que o tempo já permite o distanciamento suficiente para que a obra seja avaliada pelo seu valor estético (e não moral), um valor que influenciou tão fortemente os seus contemporâneos. Sobretudo, para mostrar que a obra de Mapplethorpe é capaz de sobreviver à controvérsia que sempre a envolveu. Será?

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Auto-retrato ROBERT MAPPLETHORPE FOUNDATION

“Ele era mais sofisticado do que a maioria das pessoas possa pensar”, diz Paul Martineau, comissário de The Perfect Medium e um dos curadores de fotografia do museu J. Paul Getty, de onde a exposição seguirá para Montréal, no Canadá, Sidney, na Austrália, e um terceiro destino internacional ainda por anunciar. Acrescenta Martineau: “Era um artista que percebia o valor da sua própria intuição e do seu próprio olhar, que aprendeu por si mesmo a história da fotografia, e também como fazer network, gerir um estúdio e manter vivo o interesse do público”.

Reunindo parte do espólio das cerca de duas mil peças de Mapplethorpe que o Getty adquiriu em 2011, a partir de compras e doações da própria Fundação Mapplethorpe, a exposição faz agora de Los Angeles paragem obrigatória para quem quer entender o fotógrafo que foi um dos protagonistas da cena artística nova-iorquina das décadas de 70 e 80. Outra contradição. Agora, póstuma. Ele sempre evitou ir para a Costa Oeste, que então se apresentava muito mais aberta a quem queria explorar a sexualidade gay. Foram as ruas de Nova Iorque a fornecer-lhe material e inspiração para um trabalho que desenvolveu em estúdio, contrariando também aí a tendência dos seus contemporâneos, que exploravam, sobretudo a fotografia de rua sempre que perseguiam o submundo. Tantos anos depois, é Los Angeles a querer validá-lo como artista clássico.