A vida de um justiceiro neste fantástico início de século

O Justiceiro é o muito aguardado álbum de estreia de Mike El Nite, rapper lisboeta sintonizado com o mundo, agora, e com o país de ontem e de hoje. Língua afiada, trap certeiro.

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Tudo foi nascendo num quarto transformado em estúdio na Estefânia, em Lisboa. Não era criatividade com hora marcada. A casa era o centro de operações, o espaço em que a vida e os pensamentos que a vida suscita se iam transformando em música. Com objectivo definido, mas sem forçar. Havia tempo para estar na sala a falar de coisas corriqueiras com Dwarf, o produtor, ou partilhar um jogo na consola com convidados como ProfJam, parceiro na independente Astro Records, ou o galego Kaixo. Havia tempo para ir até à marquise saborear uma cerveja com outros convidados, como L-Ali ou o comparsa de longa data NoFake. Este justiceiro não é super-herói que veste capa e sai rua fora quando recebe notificação de alguém em apuros.

Aliás, se Mike El Nite, rapper cujo álbum de estreia era aguardado com bastante expectativa, já era justiceiro, não o mostrava de forma tão óbvia como agora. Conhecíamos-lhe a sátira e a denúncia da desregulada sociedade de consumo ou a defesa do pedalar como bom-senso em favor de uma pegada ecológica sustentável. Conhecíamos-lhe o humor e a forma como aprecia misturar referências de proveniências diversas em rima. Diz ele: ”Eu não venho salvar mundo nenhum, estou ‘beyond that’ há muito tempo, mas embora já nos outros trabalhos tivesse alguns apontamentos [de crítica social], sempre num tom bastante irónico, aqui quis assumi-lo de uma forma mais séria, sem deixar de lado os trocadilhos e a ironia. É assumidamente de intervenção." À sua maneira.

Vimo-lo como uma das vozes de uma nova vaga do hip-hop português – “a segunda explosão depois da época de Sam The Kid, Valete ou Mind da Gap”  que vive tão sintonizado com o presente criado lá fora como com a realidade tão próxima, palpável, vivida aqui mesmo. Um passo entre Kendrick Lamar e o Kanimambo de João Maria Tudela. Um mesmo passo entre o trap, o hip-hop de travo sintético, esquelético, que é a base do álbum, e o eurodance dos Santamaria. Um par de rimas entre uma rave drum’n’bass numa floresta portuguesa (o tão óptimo como sinistro, subterrâneo, T.U.G.A.), e referências a heróis do cinema fantástico globalizado. Tudo se reúne neste álbum que, por ser álbum, Mike El Nite pensou de forma diferente das edições anteriores. “Como há actualmente tantas edições, tantos EP, tantas músicas soltas, os álbuns afirmam-se como uma exposição com uma ideia e uma mensagem próprias. Tornam-se uma marca na carreira de um artista”, defende. “O processo é parecido em relação a outras edições, mas com um sentido de ‘bigger picture’."

O Justiceiro é, portanto, a primeira grande marca. Vemo-lo: homem de escritório a céu aberto, que prefere bicicleta a grandes bólides, habitante de um mundo que distorce o suficiente para que, no exagero, possamos ver mais claramente – estamos a falar da capa do álbum e podíamos estar a falar do resto, podíamos estar a falar da cadência pachorrenta do seu flow e dos jogos de palavras inesperados (a espaços ainda a precisarem de afinação, mas isto é só o início), um flow que num ápice ganha velocidade sónica de versos encadeados sem espaço para respirar. Mike El Nite é alguém que brinca de forma descomplexada, mas carinhosa, com o passado e o kitsch da cultura popular. Ao mesmo tempo, adapta a si e a este tempo a Cena do Ódio que Almada Negreiros escreveu em 1915 e que Mário Viegas recitou nos anos 1980, rapper e poeta futurista unidos furiosamente num só. Mike El Nite, rapper fazendo o seu caminho “neste fantástico início de século”, como nos dirá o próprio ao sol de um dia de Maio numa mesa do seu bairro, Telheiras.

PÚBLICO -
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A meio caminho entre Kendrick Lamar e o Kanimambo de João Maria Tudela, Mike El Nite brinca de forma carinhosa com o passado e com o kitsch da música popular

Citamos frases soltas que lhe ouvimos ao longo da entrevista. “O Instagram é quase um catálogo de ricos a mostrar-nos as suas vidas incríveis”; “O Umberto Eco tem uma frase célebre bastante actual, ‘a Internet criou uma geração de imbecis’”; “Enquanto houver pessoal que tenha mais dinheiro do que aquele que consegue contar, não faz sentido que haja pessoas a lutar por comida”. Transcrevemos versos soltos de Monkey, uma das canções de O Justiceiro, sucessor dos EP Rusga Para um Concerto Em G Menor, onde encontrávamos Mambo nº1, o tema com sample de Kanimambo que lhe deu inesperado protagonismo online e, logo de seguida, também fora da rede, e Vaporetto Titano. “O Holocausto começa com saudações e aplausos/ It’s all about the money/ Nah, it’s all about the monkey/ É tudo dele// Fumar prejudica/ trabalhar domestica/ trabalha p’ra fumar/ e sonhar com gente rica”.

Como é que era mesmo? Fantástico início de século? “O Drake e o Future lançaram aquela mixtape, What a Time to be Alive [Setembro de 2015], e acho que essa frase define esta geração. As pessoas ainda andam aos papéis, mas há realmente qualquer coisa de fantástico nisto”, reafirma. “Vivemos um turbilhão de acontecimentos e há muita incerteza, mas também muito mais possibilidades que as existentes há 20 anos." O fantástico é isso: o mundo, a vida em aberto. E o Justiceiro, que não quer ser pregador, está aqui para falar do que vê, para criar sons que reflictam o turbilhão.

Santamaria e Blade Runner

Carregamos no play e reconhecemos uma voz. O álbum anuncia-se: “Uma obra que depressa viria a ser reconhecida como um dos pontos mais altos atingidos pela poesia portuguesa." O lugar apresenta-se: “Eis aqui, quase cume da cabeça da Europa toda, o reino lusitano, onde a terra se acaba e o mar começa." A voz é de José Hermano Saraiva, em plena laboração no seu Horizontes da Memória, e os samples escolhidos, neste contexto, dizem-nos um par de coisas sobre Mike El Nite, ou melhor Miguel Caixeiro, o rapper a caminho dos 30 que se inspirou numa famosa série dos anos 1980 protagonizada por David Hasselhoff para criar um nome de guerra. Mike El Nite aprecia uma boa dose de humor, Mike El Nite gosta de recontextualizar as marcas da cultura que abraçou. “O José Hermano Saraiva estava a falar d’Os Lusíadas, mas fazia-o quase como nas ego trips do hip-hop. Tinha que o deixar ficar." Mike El Nite, homem do seu território, homem sintonizado no mundo.

Avançamos de Horizontes, a primeira canção, e aterramos em Santa Maria, a quinta. Vemos como Eu sei, tu és, o hit dos hits eurodance portugueses, editado pelos Santamaria em 1998, em plena euforia da Expo que era sinal de um futuro português de inabalável progresso social e financeiro, se transforma em canção negra, relato de um amor virulento, tragicamente obsessivo – triste comédia vive o triste protagonista. Há muito que Mike el Nite queria utilizar a canção dos Santamaria. “Sou miúdo dos 90s e em festas com amigos essa música aparecia constantemente. Pensei que seria brutal fazer um som com ela. Adoro essa canção, tal como adoro o kitsch tuga. Os naperons, as Nossas Senhoras coloridas e os tapetes de bolas nos bancos dos taxistas. Mas a maneira como fizemos [Santa Maria] não foi nada tuga. Isto vem basicamente do Shlohmo [figura da música electrónica americana recente], que pegou no Genie in a bottle da Christina Aguilera, pôs aquilo em slow-motion e ficou incrível. Fiz o mesmo com os Santamaria."

Não precisávamos que nos dissesse, porque o álbum deixa-o claro. Ele é o justiceiro num mundo cheio de coisas erradas a que não se cansa de apontar o dedo: a tendência para a auto-destruição por incúria com o ambiente, a cegueira acéfala perante a ideia de fama, a alienação da vida em rede social e a facilidade que ela propicia para propagar o ódio, o desdém como demasiados encaram uma cidadania activa e offline. Não precisávamos que nos dissesse porque é claro que Mike El Nite diz isso tudo, mas fá-lo sem tom de pregador e, importante, com a consciência de que esse tom também é determinado por opção estética. “A minha cena é negra, mesmo contendo elementos que aliviam essa tensão, mas vem na estética da série O Justiceiro, em particular, e da ficção científica. Os sintetizadores 80s, aquelas ideias distópicas, à Mad Max ou Blade Runner, de um mundo em caos com alguém a tentar fazer o bem no meio da confusão”.

Num apartamento da Estefânia, Mike El Nite preparava-se. Com Dwarf a seu lado, gravava rimas, tinha ideias, ouvia ideias, aprimorava produções. Vivia o seu mundo, sintonizava-se com o mundo. Bicicleta à porta, O Justiceiro estava prestes a mostrar-se nas ruas.