O nervo dos Parquet Courts

Desde que apareceram há cinco anos não mais os perdemos de vista. Human Performance, o último álbum, mantém-nos na rota certa. Contra a nostalgia, limpar o pó ao rock’n’roll.

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Ouve-se o som de buzinas. Uma, duas, três buzinas, naquele roncar nervoso e irritante que conhecem todos os habitantes de centros urbanos dados a bulício e buzinadelas nervosas. Ouve-se isso mesmo no fim de Dust, a primeira canção de Human Performance, o quarto álbum dos Parquet  Courts, texanos tornados nova-iorquinos que nos apareceram há meia década para não mais os largarmos de vista. O segredo deles está naquelas buzinas. E no pó. Na cidade e no rock’n’roll.

It comes trough the window / It comes through the floor / It comes through the roof and it comes through the door / dust is everywhere / Sweep!”. Assim reza a canção que acabará com o zumbido de mais uma dia na grande cidade. O ruído está por todo o lado. O pó não nos larga. Acumula-se dia após dia e nós, bichos mecânicos, tornamo-nos Chaplins em tempos mais modernos. Vassoura esfrega a chão, pó percorre a estante: esfrega – e tudo se repete, hora a hora, minuto a minuto. “Como não ser afectado pelo ambiente que te rodeia, especialmente se é tão envolvente como Nova Iorque?”, pergunta retoricamente Andrew Savage, vocalista, guitarrista e compositor dos Parquet Courts, desde a sua casa em Brooklyn. “Nova Iorque obriga-te a seres engolido por ela. Tens que te submeter, faz parte da natureza de viveres aqui. O teu ritmo de vida é diferente, nunca nada está verdadeiramente silencioso. Isso afecta a tua psique”. Não só enquanto músico. “Influencia tudo. Influencia a forma como vemos filmes. Por vezes é difícil concentrares-te no que seja durante uma hora e meia”.

Os Parquet Courts podem vir de Denton, no Texas, mas por esta altura são já indiscutivelmente nova-iorquinos. A música nervosa, com guitarras sobressaltadas, secção rítmica precisa e vozes que cantam tanto quanto falam speedadas, aponta para uma tradição na cidade que recua aos Velvet Underground, aos suburbanos Feelies e a Jonathan Richman, forasteiro apaixonado pela Big Apple. Mas os Parquet Courts são, também, filhos do seu tempo. Ou seja, o espaço a que lançam o olhar é vasto: na sua música identificam-se partículas de Pavement e dos Guided By Voices, pedaços dos cristalinos Byrds, mal escondidas sugestões a country-rock e explosões punk controladas. “Sempre que estás a fazer rock, seja punk, metal ou puro rock’n’roll, és confrontado com o passado e tens que o reconhecer de alguma forma. Isso é parte do paradoxo de fazer música rock. Tens que reconhecer o seu passado, e tens que ser totalmente do teu momento. É difícil, mas acho que os Parquet Courts o conseguem”.

Mudar para melhor

Não é arrogância. Andrew Savage é um realista e sabe o que anda a fazer com Austin Brown, também guitarrista, seu companheiro de composição, Sean Yeaton (baixo) e Max Savage (bateria). “Estes são artistas autodidactas americanos”, elogiava à Spin, no final de 2014, Travis Coster, dos Naomi Punk, de uma nova vaga punk de Olympia, Georgia. “É esse o marketing por trás de toda e qualquer banda indie, e é isso que todas querem ser, mas há tão poucas bandas que ‘sejam’ realmente”, analisava. “Sempre que querem, [os Parquet Courts] escolhem ser uma pintura em vez de um parágrafo. É lindo”, exultava.

Não se duvide do entusiasmo.  A música dos Parquet Courts tem um nervo a que é impossível ficar indiferente, como testemunhou quem já tiver assistido a um dos seus concertos  – quem não o tiver feito, terá nova oportunidade em Junho, no NOS Primavera Sound, no Porto. Tensão e libertação, esse é o segredo. Assim era em Light Up Gold, o segundo álbum, aquele que os revelou em 2012, em Sunbathing Animal, o da confirmação em 2014, ou em Content Nausea, o disco que Andrew Savage e Austin Brown gravaram, sem a sua secção rítmica, enquanto Parqay Quarts. Tal acentua-se em Human Performance, o último álbum, em que Dust, pérola irresistível que é ponte directa com o passado da banda, convive com o estremecimento pós-punk de Outside, com o garage catártico, surpreendente, de I was just here, com a canção como curta-metragem de Captive on the sun, com a visão de uns Clash com chapéu de cowboy texano na óptima Berlin got blurry ou com a delícia minimal transformada em inspirado planar eléctrico que é One man no city. E, juntamente com a música e com o que a música sugere, há ainda aquilo que cantam Andrew Savage e Austin Brown.

“O tédio é um tema muito pouco interessante para uma canção. A palavra [a aplicar ao conteúdo lírico de Human Performance] talvez seja ‘malaise’, ou mal-estar, em português” – e Savage prefere mesmo isso, ‘mau-eshtarre’, antes de confessar que não tem nada a desvendar sobre os caminhos no mundo: “o meu olhar está todo na música”, defende. Mas depois fala. E não há forma de o parar. “Há medida que somos encaminhados para este mundo híper capitalista em que tudo é mercadoria, sobressai uma certa tristeza, principalmente sendo um artista. Aquilo que em tempos não era mercadoria, é-o hoje. Até os nossos pensamentos se tornaram mercadoria, através da forma, abrir aspas, de nos publicitamos enquanto marca, fechar aspas, no Twitter ou no Instagram”. Este estado de coisas é, para Savage, “deprimente”. Para além do óbvio – quem é que gosta de se sentir como mera mercadoria? -, por ter aberto caminho para que uma geração inteira, a dele, se tenha “deixado hipnotizar por nostalgia”: “é uma das mercadorias mais lucrativas e agora temos demasiadas pessoas obcecadas com tempos que não viveram, o que é tão triste como pateta”. Ainda assim, não nos deixemos enganar, Andrew Savage é tudo menos pessimista.

“O rock’n’roll vai mudar, como sempre mudou, e provavelmente mudará para melhor. Consegue manter-se relevante durante muito tempo e continuará a evoluir. Não se vai embora certamente”. Quanto a isso, estamos com Andrew Savage. Será cedo para lhe passar o enésimo atestado de óbito. Principalmente quando Human Performance acabou de chegar. “Dust is everywhere. Sweep”. Varrer. Repetir. Varrer. Repetir. Não nos cansaremos.