Crítica Livros

O romance em estilo hiper

A escrita romanesca de J. Rentes de Carvalho é um exercício de saturação e exacerbação a que podemos chamar hiperliteratura, como se fosse um pastiche ou uma caricatura.

Tudo na escrita de J. Rentes de Carvalho concorre para que deixemos de prestar atenção à história, para ouvirmos em contínuo o tom do enfatuamento
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Tudo na escrita de J. Rentes de Carvalho concorre para que deixemos de prestar atenção à história, para ouvirmos em contínuo o tom do enfatuamento Nuno Ferreira Santos

Experimentemos ler a primeira frase deste romance, o incipit, porque aí começa a encadear-se um sotaque narrativo e literário que não esmorece até à última linha: “Alguém terá de lhe emprestar as palavras, porque as desconhece, mas se lhas tivessem ensinado seria incapaz de dizê-las, estonteado pelo remoinho, a vida a desfilar em ondas de desespero, ocasiões falhadas, sempre ele o que perde, a sofrer envergonhado, o que baixa os olhos e até de si próprio tem de fugir”. E digo “sotaque”, como se estivesse a escutar uma fala ou uma dicção, porque tudo na escrita de J. Rentes de Carvalho concorre para que deixemos de prestar atenção ao agenciamento narrativo e à história, à qual não faltam apelos de um bruto realismo, para ouvirmos em contínuo o tom da afectação, do enfatuamento, da ênfase. Poucas páginas mais à frente, há uma passagem onde se insiste, com inadequada verbosidade, às insuficiências e aos desvios fraudulentos das palavras: “As palavras deturpam, escondem, diminuem, fracturam. Traduzem mal a réstia de luar que toca a vidraça, o modo como ela se despiu e o espera na cama, retesada, medrosa, no chão os sapatos de cetim branco, o vestido de noiva pendurado na cadeira”. Há neste romance uma crítica da linguagem, como se poderia deduzir desta passagem? Nem pensar nisso. Tudo nele transborda eloquência, ou melhor, loquacidade. Literária loquacidade, como esta que se segue: “Visões do inverosímil, semelhanças de realidade, desassossego, ameaças, chamamentos de tentação, resíduos da memória entrelaçados numa fábula em que se observa, desconhecido de si mesmo”.

Como já se percebeu, O Meças é um romance que acumula em grandes doses os mais indiscretos signos que anunciam o literário. Devemos mesmo dizer que é uma manifestação exuberante de hiperliteratura. É plausível que aí resida a razão do sucesso que Rentes de Carvalho alcançou nos últimos anos. Não apenas por isso, ele satisfaz plenamente e de maneira eficaz a tendência conservadora, regressiva e inócua de grande parte da actual ficção narrativa de escritores portugueses. Rentes de Carvalho não foi descoberto tardiamente, como se costuma dizer; foi descoberto quando chegaram os seus contemporâneos, aqueles com os quais, embora muito mais novos no registo civil e nos depósitos da Biblioteca Nacional, não havia discordância de tempos nem de modos. Os seus contemporâneos jamais poderiam ser aqueles que em tempos chegaram a coincidir com ele no tempo de publicação: um Carlos de Oliveira, uma Maria Velho da Costa, uma Agustina, uma Maria Gabriela Llansol.

Mas concentremo-nos nesta última produção da sua já vasta hiperliteratura, um romance que tem o nome de uma personagem transmontana, a quem todos chamam Meças, um homem duro, inflexível e de impulsos violentos. A sua história é feita de ódio familiar, violência sexual, assassínio por vingança e por sentimentos de pundonor (como nos códigos das sociedades antigas). Diríamos estar aqui perante um universo muito camiliano, mas tudo redunda em grotesca caricatura, pelo que não vale a pena invocar Camilo ou Agustina em vão. Resulta em involuntária caricatura uma escrita que reúne todos os atributos daquilo a que chamei hiperliteratura. A saber:

1) O Kitsch. É o triunfo do decorativo, as frases que, digam elas o que disserem, dizem sempre e apenas isto: vejam como é belo, apreciem o que é escrever bem. Escrever bem, neste sentido, é produzir um discurso muito ornamentado e inócuo; ou então é apontar para a sublimidade de maneira tão frouxa, que o leitor, em vez de sentir exaltação, só vislumbra a insuficiência dos meios, a declinação dos lugares-comuns: “Montes escalavrados, encostas de luz, encostas de sombra, outeiros, um rio a marulhar apertado na estreiteza de fraguedos, mais arbustos do que árvores, casario em longes que a vista mal enxerga. Imutável desde a Criação, daquela paisagem sempre fiz cenário de teatro, dizendo-me que por detrás dos penedos e dos baldios começava o mundo, maneira que tinha de, criança ainda, lhe suportar a ameaça e a formidável imponência”. É a paisagem transmontana que assim é descrita.

2) A exacerbação do estilo. A noção de estilo é muito vaga, tão vaga como nesta definição de Flaubert: “O estilo é por si só uma maneira absoluta de ver as coisas”. Quando se entende o estilo de maneira menos vaga é quando se diz, por exemplo, que o pastiche consiste em imitar o estilo de um autor, de um género, ou de uma “escola”. É muito difícil identificar e caracterizar o estilo de Kafka, mas na escrita de Rentes de Carvalho vemos o estilo em todo o lado. Vêmo-lo como pastiche ou como tiques de linguagem. Um exemplo: o autor nunca diz “com as duas mãos”, nem “com ambas as mãos”, nem sequer “com as mãos ambas”. Diz sempre “às mãos ambas”. Não sei de onde vem esta forma, não sei se é um arcaísmo, não sei se é um idiomatismo do escritor. Mas sei que à terceira vez que a li, pensei: “aqui está uma prova bem visível do estilo, isto é, o estilo como tique de linguagem”. Este tique não é mais espasmódico do que muitos outros que este romance nos proporciona, mas tem a vantagem de ser facilmente citável porque é breve.

3) A frivolidade. Tal como o estilo pretende ser uma maneira absoluta de ver as coisas, mas acaba por ser, na escrita de Rentes de Carvalho, uma maneira de ser cego perante elas, assim a afectação patética (isto é, a manifestação de um pathos) e a expressão enfática revelam uma falsa profundidade e uma parca capacidade de penetração. Nada é tão superficial e tão frívolo como isto: “Porque o destino o quis, há muito deixei de lutar, procurando não a impossível mudança daquele que sou, mas fugindo na invenção de mim mesmo, um pouco à maneira do bicho que para se defender escolhe a aparência que mais seguramente o disfarça. E é por certo para melhor me ocultar que torno mais vivos e detalhados os outros, que levanto o biombo atrás do qual desapareço e os deixa a eles no palco.”

4) A redundância. É a qualidade mais abundante neste romance. Da maneira mais evidente, encontramo-la com frequência nas longas ou breves descrições em que quanto mais são as palavras menos é aquilo que se diz e mais vago é o dizer. Neste item, uma frase merece ser citada. É aquela em que se fala de “um sentimento de excitação e nostálgica melancolia”. Note-se: não é apenas nostalgia, nem apenas melancolia, é uma cruzamento das duas, que nenhuma psicologia das profundezas conseguirá explicar, mas que num romance é a literatura em estado de apoteose.

5) A deflação erótica. Há algumas cenas de crueza sexual neste romance, às vezes recuperando uma linguagem obscena já pouco usada. Onde é que hoje ainda se diz que uma mulher “estava na fressura com a amiga”? Mas isso é pouco relevante, quando temos, algumas páginas mais à frente, esta descrição erótica de baixo preço e alto teor deflacionário: “Erecta, a um passo de mim, tudo no seu jeito manda que espere, me deixe hipnotizar pela beleza, sofra a vertigem do almíscar que a pele exala, descubra o arrebatamento da obediência, aceite que ela me guie (...). Vem para mim, sustentando os seios com um gesto natural, como a ajeitá-los, e enlaça-me, beija-me nos lábios.”