Funcionários públicos venezuelanos passam a trabalhar só dois dias por semana

Governo de Maduro espera que medida extraordinária possa poupar electricidade, numa altura em que o país atravessa uma crise profunda.

Um homem tenta ler à luz das velas em San Cristóbal, a 600 quilómetros de Caracas
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Um homem tenta ler à luz das velas em San Cristóbal, a 600 quilómetros de Caracas George Castellanos / AFP

A crise energética ameaça deixar a Venezuela paralisada. Para já, pode falar-se num país a meio gás. O Governo decidiu reduzir a semana de trabalho dos funcionários públicos a apenas dois dias, para poupar electricidade.

A notícia foi dada pelo vice-presidente venezuelano, Aristobulo Isturiz, que esclareceu que vão ficar excluídos da medida extraordinária os serviços “fundamentais e necessários”. Os restantes funcionários públicos passam a trabalhar às segundas e terças-feiras. De acordo com o jornal El Nacional, é a terceira vez este ano que o Governo faz reduções à semana de trabalho do sector público.

O Presidente, Nicolás Maduro, já tinha declarado a sexta-feira como dia livre para os cerca de 2,8 milhões de funcionários públicos do país. Também as escolas vão passar a encerrar à sexta-feira. E nos dias em que se trabalha, os serviços públicos só vão funcionar da parte da manhã, até às 13 horas. Apesar da redução de horários, os salários vão continuar a ser pagos na totalidade, segundo a Reuters.

“Agradeço o apoio de todo o povo, pela consciência superior que têm tido face a esta verdadeira emergência ambiental que estamos a enfrentar”, afirmou Maduro, durante o seu programa televisivo.

Esta é apenas mais uma medida encontrada pelo Governo para lidar com a profunda crise energética que a Venezuela atravessa. Desde a semana passada que a maior parte das cidades tem sofrido apagões diários de quatro horas, que se irão manter durante 40 dias.

Uma seca provocada pela passagem do El Niño deixou a barragem de Guri – cuja central hidroeléctrica fornece 70% da electricidade consumida no país – a um nível muito baixo. O ministro da Energia admitiu que a central está apenas a 1,60 metros acima do nível do colapso, escreve o El País.

Apesar de ter uma das maiores reservas petrolíferas do mundo, a Venezuela depende quase por inteiro da energia hidroeléctrica e as crises energéticas têm sido recorrentes. Em 2010, o então Presidente Hugo Chávez tomou medidas semelhantes às que agora estão em curso.

A oposição ao regime bolivariano refere o desinvestimento feito nas instalações energéticas como a grande causa para a crise actual.

Referendo avança

Igualmente grave é a crise económica que se abate sobre a Venezuela. A Câmara da Indústria e dos Alimentos revelou esta quarta-feira que conta com um inventário de matérias-primas suficiente para cerca de duas semanas. “O ciclo de reposição do inventário de matérias-primas foi interrompido em mais de 15 categorias, entre elas o molho de tomate, maionese, arroz, cerveja, bolachas, pão, carnes, salsichas, compotas, leites de prazo alargado, sumos, atum e gelatina”, informou a organização, citada no El Nacional.

Entretanto, a oposição ao Governo continua a fazer uso da sua nova influência para acelerar a saída de Maduro do poder. Esta segunda-feira, a Comissão Nacional de Eleições forneceu, ao fim de dois meses, os formulários para que o referendo exigido pela Mesa de Unidade Democrática (MUD) possa avançar.

“Hoje começa formalmente o processo para revogar o mandato de Maduro”, declarou o líder oposicionista Henrique Capriles. A MUD terá agora de recolher mais de 195 mil assinaturas (correspondentes a 1% do eleitorado) em 30 dias para que o processo de convocatória do referendo à continuidade do Presidente seja iniciado.

“Iremos fazê-lo em horas”, garantiu Capriles. O objectivo é conseguir marcar o referendo até ao final do ano. Caso contrário, mesmo que o mandato de Maduro seja revogado, não serão marcadas novas eleições e o resto do mandato será desempenhado pelo vice-presidente.

Capriles apelou ainda a uma manifestação contra o Governo para o Dia do Trabalhador, embora tenha esclarecido que a acção terá ainda de ser aprovada pela MUD. “Maduro não gosta de trabalhar, é frouxo e preguiçoso, quer que os venezuelanos sigam esse exemplo. Pois eu apelo ao chamado sector produtivo para que encontre mecanismos alternativos para evitar a inacção.”