Marcelo em Coimbra para “agradecer a palavra” aos estudantes da crise académica

O Presidente da República prestou homenagem aos estudantes envolvidos na Crise Académica de 1969 e realçou gesto que contribuiu para o fim da ditadura.

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Alberto Martins, em 1969

Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu aos estudantes envolvidos na Crise Académica de 1969 o contributo para a democracia. “Em 1969, o Presidente da República não deu a palavra aos estudantes. Em 2016, o Presidente da República veio agradecer a palavra aos estudantes”, disse Marcelo neste domingo, na mesma sala onde, a 17 de Abril de 1969, o então presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC), Alberto Martins, pediu a palavra - nunca concedida - a Américo Thomaz, num episódio que abriu uma longa crise política que abalou o regime.

O Presidente da República fez questão de “prestar homenagem a um gesto que fez história”, “uma interpelação a um regime, a uma ditadura”, um gesto que “antecipava o que viria a ser a reacção da sociedade”.

“Temos memória e agradecemos”, disse Marcelo à plateia - composta maioritariamente por estudantes universitários, mas onde também se viam protagonistas da Crise Académica de 1969 -, acrescentando que se recordava dos dias da crise de Coimbra enquanto estudante da Faculdade de Direito de Lisboa.

Faltavam ainda cinco anos para o 25 de Abril quando, na inauguração do edifício do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, na presença de três ministros e do Presidente da República, Américo Thomaz, Alberto Martins pediu a palavra em nome dos estudantes. A resposta foi que falaria o ministro das Obras Públicas.

Alberto Martins, que entretanto ocupou cargos como deputado e ministro socialista, recordou o “momento sempre dificil”, mas que diz recordar agora com serenidade. Nessa noite seria preso pela PIDE, para apenas ser libertado ao meio-dia do dia seguinte. O ex-dirigente académico lembrou o filme dos acontecimentos, desde o momento em que “voou” (a seguir aos aplausos dos colegas que ocupavam o auditório do Departamento de Matemática) até à Assembleia Magna de estudantes do dia seguinte. Seguiram-se meses de protestos, com os alunos a decretarem o luto académico e uma greve aos exames. Durante esses dias, que encheram Coimbra de polícia, a cavalo e em jipes, os estudantes, com reivindicações de democratização e modernização do ensino, procuraram conquistar a opinião pública com iniciativas como a distribuição de flores ou a largada de balões. Mas a longa insubordinação dos estudantes de Coimbra, que motivou uma comunicação ao país do então ministro da Educação José Hermano Saraiva, implicou também a incorporporação militar e mobilização para a guerra colonial de muitos dirigentes da revolta.

Em Coimbra, para assinalar os 47 anos do 17 de Abril, a convite da AAC, Marcelo visitou o edifício-sede da associação onde descerrou uma placa de homenagem aos estudantes envolvidos na crise de 69. Depois, já com uma capa de estudante às costas, o Presidente visitou uma das repúblicas, cumprindo um dos objectivos dos alunos: sensibilizar o chefe de Estado para as condições de habitação dos estudantes. O Presidente da República jantou numa das residências dos Serviços Sociais da Universidade de Coimbra.

O actual presidente da direcção-geral da AAC, José Dias, lembrou que algumas das dificuldades que os estudantes enfrentavam em 1969 continuam actuais. Passando pela questão da habitação, quer nas residências como nas repúblicas, José Dias lembrou a necessidade de reforço da acção social escolar. Marcelo respondeu que os “desafios de hoje têm que ver com o gesto de 69” e que aquilo que se espera da academia é que esta seja “ousada, reivindicativa e exigente” porque estará a “seguir a linhagem”.

No fim, Marcelo lembrou: “a liberdade, como a democracia e a justiça social, não são dados adquiridos, constroem-se todos os dias”. A oito dias de mais um aniversário do 25 de Abril e da celebração de quatro décadas de Constituição, o Presidente apontou para a necessidade de uma democracia com “mais qualidade e participação”.

Interpelado pelos jornalistas, Marcelo ainda se referiu à questão do não-acordo no caso BPI, para dizer que "o Presidente da República, dentro do que estava ao seu alcance, tudo fez para que se criassem condições para um acordo firme e rápido". E acrescentou: "Da mesma maneira, está atento a prosseguir o interesse nacional. O que importa é que seja realizado o interesse nacional, o que significa que a estabilidade do sistema financeiro, o prestígio do sistema financeiro e o seu relacionamento com as instituições europeias sejam permanentemente garantidos".