No Vale de San Joaquin, o interior da Califórnia que não aparece no cinema e foge às rotas turísticas, a população vive sobretudo da agricultura
No Vale de San Joaquin, o interior da Califórnia que não aparece no cinema e foge às rotas turísticas, a população vive sobretudo da agricultura Edgard Garrido/Reuters

Os portugueses levaram a festa para a Califórnia

Dispersa por um estado cinco vezes maior do que Portugal, a comunidade portuguesa da Califórnia é a única com congressistas federais. Integrada, fluente em inglês, reinventa-se na relação com as raízes e aprende português ao lado de americanos.

Depois de quilómetros a serpentear a terra, a água ganha terreno até que lá em baixo tudo é de um cinzento azulado. Chove quando o avião sobrevoa a baía de San Francisco e o céu se cola à linha do horizonte, no que parece ser um contorno montanhoso. “Nunca se sabe se são as montanhas, nuvens de tempestade ou o famoso fog de San Francisco”, diz uma passageira que dormiu durante as quase seis horas de voo a partir de Nova Iorque. Ela refere-se ao fenómeno atmosférico causado pelo mar, as montanhas, a humidade e a poluição que o torna único naquele lugar e que tem alimentado a imaginação de poetas, realizadores de cinema, fotógrafos. Olha pela janela do avião e dali, agora, já junto à costa, há o mar e o mar de nuvens. Pede desculpa pela chuva, logo depois sorri: “É uma pena, mas esta chuva é abençoada.” E lá em baixo o cinzento azulado é agora uma enorme massa de água cortada pelo tabuleiro de uma ponte que, dali, não tem fim nem princípio.

Estamos entre o oceano Pacífico e as montanhas, no centro de um estado com 37 milhões de habitantes, a nona economia mundial, que os Estados Unidos anexaram em 1848 depois de uma guerra com o México. As marcas da herança mexicana continuam por todo o lado. Na toponímia, na arquitectura, na gastronomia, na língua que se ouve falar nas ruas quase tanto como o inglês. E, claro, na presença de mexicanos. É dali para sul, a partir de Sacramento, não muito longe de Silicon Valley, e descendo pelo interior, que está o vale de San Joaquin.

As grandes cidades — San Francisco, Los Angeles, San Diego — estão junto à costa, cosmopolitas. Ali, a paisagem é tipicamente rural. Ao longo dos sete condados desse território, vive a maior comunidade de luso-descendentes na Califórnia. Não estão confinados a um sítio, mas dispersos, integrados, falantes de inglês. Mas entre muitas características que os identificam, distinguem-se, por exemplo, pelo modo como dizem e aplicam na sua vida a palavra “festa”.

Pronuncie-se essa palavra com o “s” bem carregado, quase como um xis. Assim dita, ela parece ganhar outro significado. Não o contrário do original, mas mais lato. Festa, com o “s” carregado e um ligeiro sotaque, é sinónimo de grande celebração. Popular, religiosa, familiar, gastronómica. Pode ser uma matança de porco, um baile, uma procissão, um jantar, um sítio onde se vai bem vestido beber uns copos. Ou pode ser tudo isso junto. Mas “festa” dita dessa maneira também podem ser só umas gargalhadas ou uma brincadeira, uma folga à rotina.

A festa, dita pelos portugueses da Califórnia, ultrapassou o seu significado original, sofreu alguma aculturação e foi integrada no vocabulário de quem, não sendo português, convive com eles e não arranja em inglês uma tradução ajustada. “I like the Portuguese classes. It’s always festa”, diz Tysson Williams, 16 anos, pai e mãe americanos, aluno da escola secundária de Tulare, cidade de 63 mil habitantes, dos quais nove mil são de origem portuguesa (Census de 2010), a maior concentração na Califórnia. Tylsson desculpa-se por estar a falar inglês. “Não sei muitas coisas em português. Tenho de pensar”, continua, arrastando o “r” enquanto coça a carapinha espessa. O que é festa?, pergunta-se-lhe. “É cantar e dançar. O professor ensina cantigas portuguesas.” Por exemplo? Tysson tosse, afina as cordas vocais e sai-lhe melodia e letra de O meu chapéu tem três bicos.

Tysson Williams não é o típico aluno de Português na região do Vale de San Joaquin, o interior da Califórnia que não aparece no cinema e foge às rotas turísticas. Aqui, a população é quase toda hispânica, vive sobretudo da agricultura, pecuária e dos serviços ligados a esse tipo de produções. Como os pais de Derrick Nunes. Derrick também tem 16 anos e estuda Português. Fala de um texto de José Saramago que o professor lhes pediu para ler. Não se recorda do título, “tinha umas coisas de Jesus…” [Evangelho Segundo Jesus Cristo] Nas aulas, lêem, conversam, escrevem a partir de temas propostos pelo professor. “E cantamos cantigas e modas dos Açores”, conta antes de confessar: “Gostava também que se ensinasse mais sobre a vida normal das pessoas lá em Portugal.” É a curiosidade de quem não conhece a terra dos pais e dos avós que emigraram em massa para a Califórnia nas décadas de 1960 e 70, evitando o recrutamento militar e a pobreza.

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Tysson Williams tem 16 anos, pai e mãe americanos. Está a aprender Português na escola secundária de Tulare dr

Derrick quer ser veterinário e ir viver para os Açores. “Gostava mesmo”, diz, como se o seu interlocutor pudesse ter dúvidas acerca de uma decisão que é contrária à dos seus avós. Derrick é colega de Tysson. O que levou um a escolher Português como segunda língua no ensino secundário não foi o mesmo que motivou o outro. “Toda a gente escolhe Espanhol. Eu gosto do som do português e quis ser diferente”, justifica Tysson. “Quero aprender melhor a língua dos meus pais e dos meus avós. Quando estou com os meus avós, não consigo falar com eles e isso é muito esquisito.” Derrick faz uma pausa. Diz que tem de se lembrar das palavras que quer dizer, sempre em português. “Quando vou lá, à Terceira, uns falam diferente dos outros. O meu professor fala diferente dos meus avós. Eles falam mais depressa e mais alto e não é muito alegre.”

Diniz Borges é o professor. É da ilha Terceira, como os pais de Derrick. Foi para a Califórnia com dez anos e há 21 que ensina Português para Estrangeiros nas escolas secundárias da zona de Tulare. “Lembro-me de que no meu primeiro ano tinha 174 alunos e cerca de 80 por cento eram de origem portuguesa, filhos ou netos da primeira geração de emigrantes. Com o passar dos anos, tenho tentado globalizar a língua e não limitá-la a ser para filhos de emigrantes. A intenção é ‘vender o produto’ para que seja uma língua global, que possa ser falada nos vários continentes”, uma estratégia que “há 14 ou 15 anos” levou o também cônsul honorário de Portugal na Califórnia a “publicitar” o português “junto dos alunos de ascendência hispânica, México e outros países da América Latina”. São a maioria por ali.

Connie Prado é uma dessas alunas. “Já falava espanhol além do inglês e quis aprender uma terceira língua”, refere. Os pais são da Cidade do México, emigraram nos anos 80 e ela nasceu em Tulare. “Os meus irmãos também estudaram Português, gostaram, às vezes falavam em casa e era divertido.” Numa conversa sempre em português, diz que o seu nome em português é Conceição, que gosta quando o professor lhes fala de cinema português, das cantigas “da festa”. Diniz Borges fala dos novos números, que para ele são um sinal de que se deve apostar no ensino da língua. “Agora temos 428 alunos nos cursos de Português, com três professores”, conta. “Sessenta por cento são de origem hispânica. Os de origem portuguesa são uns 30 por cento.” Os restantes têm um perfil muito semelhante ao de Tysson.

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Derrick Nunes é colega de Tysson, mas filho de emigrantes açorianos. “Gostava que se ensinasse mais sobre a vida normal das pessoas lá em Portugal” dr

João é mais novo, mas aparenta ser ainda mais. Tem 15 anos. Está sentado no refeitório a ouvir a conversa. Chegou a Tulare há menos de dois anos e tudo no seu sotaque é açoriano, da ilha Terceira. Pergunta se tem de ler muitos livros para conseguir ser veterinário. Aborrece-se com tudo o que não seja estar no campo, a ajudar o pai a tratar das vacas. Dz que quando chegou foi complicado. “Não percebia nada.” Começou a levar um dicionário para as aulas e pouco tempo depois já era melhor aluno em Tulare do que alguma vez fora na sua terra. Mariana ouve-o e dá uma gargalhada. Tem 18 anos, chegou há sete meses, também da Terceira, com os pais, e já é a melhor aluna do seu ano, o último antes de ir para a universidade. “Não quero ir para muito longe daqui. Quero estar perto da minha família e ajudá-los.” Conta que o “noivo” ficou nos Açores, “é militar” e um dia destes vem ter com ela. João e Mariana são os alunos portugueses mais recentes e tornaram-se amigos. Vão juntos para a escola, almoçam juntos, falam português um com o outro. “Ela é a única que percebe as saudades que tenho de lá”, isto, e esconde os olhos, apanha uma migalha de pão. Não acredita que alguma vez essa falta lhe passe.

Na Califórnia para a vida

Mais de 150 anos depois da primeira leva, os emigrantes portugueses continuam a chegar à Califórnia. E continuam a ser sobretudo açorianos. Mais de 90% dos luso-americanos a viver naquele estado vêm desse arquipélago, estima o cônsul-geral de Portugal em San Francisco, Nuno Mathias. E a história do movimento dessa população é representativa de vários períodos da História de Portugal. A começar pelo primeiro de todos os portugueses que ali estiveram. Chamava-se João Rodrigues Cabrilho e ao serviço do rei de Espanha foi o primeiro europeu a desembarcar na que é agora a Costa Oeste dos Estados Unidos, mais precisamente em San Diego, onde tem uma estátua e um festival com o seu nome. Uma “festa”.

Uns séculos mais tarde, no final de 1800, chegam mais portugueses em frotas de baleeiros. E, ainda décadas depois, os que fugiram da destruição provocada pelo vulcão dos Capelinhos, em 1958, da ameaça da guerra colonial ou da pobreza extrema que marcou a vida nas ilhas nos anos de ditadura. Vêm atrás de familiares, alguns têm formação superior e procuram uma oportunidade em Silicon Valley ou fazem o que sempre fizeram os emigrantes: querem uma vida melhor. No caso, numa terra onde se sintam o menos estranhos possível. “Os açorianos, quando vinham para a Califórnia, não chegavam com a ideia de regressar às ilhas”, afirma Elmano Costa, professor de Português na Universidade de Stanislaus. “Era muito longe e muito caro para se pensar num regresso. Fica-se para a vida.” Como os pais dele. Elmano chegou aos 13 anos e como muita gente da sua geração esteve anos sem voltar. Um fuso horário de oito ou nove horas significava então dias de viagem. Ser açoriano na Califórnia era estar longe e sem regresso

“A grande distância em relação ao lugar de origem marca a diferença da comunidade portuguesa da Califórnia, quando comparada, por exemplo, com a que vive na Costa Leste dos Estados Unidos”, explica Nuno Mathias. Isso e a dispersão. “É uma comunidade muito antiga e instalou-se um pouco por todo o estado”, conta o diplomata. San Diego, Los Angeles, Sacramento, Vale de San Joaquin, San José, Silicon Valley, San Francisco estão entre os lugares que registam maior densidade de portugueses e luso-americanos. “Encontraram na costa californiana terras muito semelhantes às suas, no caso os Açores e a Madeira. Vinham em frotas de baleeiros e outros em busca de ouro. Os primeiros fixaram-se em San Diego, os segundos um pouco por todo o vale. Viviam da pesca ou da agricultura. É uma comunidade que se soube integrar, muito por causa dessa distância e da dispersão. Não tiveram alternativa que não a plena integração.”

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Estátua de João Rodrigues Cabrilho, o primeiro português a chegar à agora Costa Oeste dos Esatdos Unidos

Todos falam inglês, mesmo quem chegava iletrado era obrigado a aprender a língua para “sobreviver” e “muitos incentivavam os filhos para que até em casa não falassem português, para que não se notasse que não eram americanos”, diz Diniz Borges, que agora nota o movimento inverso. “Muitos educadores de segunda e terceira geração querem que os seus filhos aprendam a falar português”, sublinha, acrescentando que essa atitude não passa necessariamente por uma ideia de regresso, mas de ir atrás de uma raiz e de acrescentar conhecimento. “É uma mais-valia aprender Português na América.”

Portugal já não é apenas o país da saudade

Na escola secundária de Turlock, também no Vale de San Joaquin, a campainha toca a avisar o fim das aulas da manhã e o pátio enche-se de repente. A hora de almoço é comum a toda a escola. Da uma às duas. Há sol e alguns alunos com fardas. Explicam que são os que escolheram seguir a carreira militar em vez da universidade. “Estamos numa região onde há muita gente com dificuldades económicas e o exército garante uma profissão sem terem de passar pelo investimento na universidade”, refere um dos professores.

Tão depressa quanto encheu, o átrio fica vazio. Na sala onde vai começar a aula de Português, uma rapariga faz malabarismo com uma bola junto do quadro onde há verbos conjugados a tinta azul e preta por baixo de duas bandeiras, uma de Portugal e outra do Brasil. Estamos numa das sete escolas públicas onde se ensina Português como língua estrangeira. É uma opção do aluno escolher uma segunda língua. Apesar de a Califórnia ser um estado multicultural, pode-se concluir o secundário sem ter uma cadeira de qualquer outra língua que não o Inglês. Depois são as universidades que fazem as regras de admissão. As que pertencem à California State University pedem que os seus alunos tenham dois anos de uma língua estrangeira e o sistema da University of California (onde estão Berkeley, a UCCLA ou San Diego) requerem que os alunos tenham três anos de uma língua estrangeira.

“Mas no secundário muitos dos alunos não vão além de um ano ou dois, uns porque tiram o mínimo necessário, outros porque decidem que não vão para a universidade”, refere Diniz Borges, colocando no seu discurso um “infelizmente” que contrasta com o entusiasmo anterior e lhe faz pensar que há ainda muito para fazer, apesar do aumento dos alunos de Português. Isso tem sido conseguido em boa parte graças a um protocolo assinado entre o Instituto Camões e a Luso-American Education Foundation. Criada em 1963 por um grupo de portugueses, a fundação quer promover o ensino da língua e da cultura portuguesas nos Estados Unidos através da atribuição de bolsas em várias áreas de estudo ou da organização de conferências.

“Estamos na fase final da criação de dois cursos de Português e promovemos também os cursos das chamadas ‘escolas comunitárias’, escolas privadas do nosso movimento associativo que ensinam Português normalmente à noite ou aos sábados de manhã para filhos ou netos de emigrantes. Nessas escolas temos cerca de 800 alunos por todo o estado da California e fazemos pelo menos duas a três acções de formação por ano”, esclarece. “O Instituto Camões fornece os compêndios das escolas do movimento associativo e a FLAD [Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento] dá apoio particularmente para a formação de professores. Todas as acções de formação que fizemos, quer na Costa Leste quer na Costa Oeste, tiveram o apoio da FLAD.”

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Escola secundária de Turlock, no Vale de San Joaquin. O Português é ensinado como língua estrangeira
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Pátio no liceu de Turlock
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Encontro de alunos de português em San Diego
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Aula de Português em Turlock. O número de jovens a aprenderem a língua tem vindo a aumentar
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Aula de Português em Turlock
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Alunos de português em San Diego
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Escola secundária de Tulare. Nesta cidade de 63 mil habitantes, nove mil são de origem portuguesa
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Este ano, a conferência anual da Luso-American Education Foundation, que reúne alunos e professores de Português, realizou-se em San Diego entre 10 e 13 de Março. Além das questões da língua e do ensino da cultura, houve um tema que atravessou as conversas: a necessidade de um discurso concertado onde Portugal surja não como um país de saudade, mas de investimento e de modernidade.

É uma ideia partilhada por professores, decisores políticos, empresários locais e será tanto mais valorizada quanto se souber passar uma mensagem: “É preciso que saibam que Portugal não é o mesmo país de há 40 ou 50 anos”, refere Nuno Mathias, como também a comunidade “não vive a relação com Portugal da mesma maneira”.

Diniz Borges acompanhou essa mudança. “O meu envolvimento na comunidade portuguesa começou quando tinha 18 anos, numa rádio, enquanto estudava Ciências Sociais, com uma especialização em Estudos Literários e depois um mestrado em Literatura Étnica dos Estados Unidos. Nessa altura, fundei uma estação de rádio. Chamava-se Rádio Clube Comunidade, servia o centro da Califórnia e funcionava em circuito fechado. Vinte e quatro horas por dia a emitir. Estamos a falar dos anos 80 e a comunidade estava mais ligada a Portugal do que está hoje. Havia muitos emigrantes recém-chegados e a maioria dos que cá estavam ainda tinha uma memória muito fresca da sua vida anterior. As pessoas tinham uma grande necessidade de se manter em contacto [com Portugal]. A rádio servia não apenas para dar informações do país, como também da América, porque as pessoas que tinham acabado de emigrar ou não tinham conhecimento nenhum da língua inglesa ou tinham um conhecimento bastante rudimentar que não dava para seguir o noticiário na televisão ou rádios americanas. Dava ainda informação sobre quem morria e anúncios de emprego… Tínhamos muitos milhares de ouvintes.”

Lembra, sobretudo, a enorme audiência dos relatos de futebol. “Era preciso fazer uma ligação telefónica para a Costa Leste, que, por sua vez, os recebia via satélite de Lisboa. Agora, nesta zona da Califórnia, já não existe uma rádio em língua portuguesa. A comunidade integrou-se e a Internet veio facilitar contactos e mudar quase tudo.” Não só na Califórnia, mas com a Califórnia a aparecer como protagonista dessa mudança, enquanto sede de muitas das empresas que estão à frente dessa revolução, quase todas em Silicon Valley.

O voto português

A Califórnia não é só o maior produtor agrícola dos Estados Unidos, como é um dos maiores pólos industriais e tecnológicos. Até há pouco tempo era também o estado com a maior comunidade portuguesa nos EUA. Os números de 2000 registavam 331 mil os que assinalaram ter origem portuguesa nos Census americanos nesse território, que é quase cinco vezes maior do que Portugal. Registar essa origem — ou “raça” — é uma decisão pessoal, já que os boletins trazem a origem portuguesa integrada na opção “outros” depois da opção “branca”, “afro-americana”, “asiática”, “indo-americana e nativos do Alasca”, “nativos do Havai e das ilhas do Pacífico”. É preciso que cada um, individualmente, decida acrescentar informação a esse “outros”, por isso, como sublinha Nuno Mathias, “podem ser mais”. No consulado, estão registados 60 mil.

Nos Census de 2010, o Massachusetts ultrapassou a Califórnia, com cerca de 380 mil. Em terceiro, surge Rhode Island, com 99.500, e New Jersey, com 78 mil. À excepção da Califórnia, todos se situam na Costa Leste, onde se regista a maior densidade de uma população que representa 0,5% do total de habitantes dos Estados Unidos, com quase um milhão e meio de pessoas. Para se ter uma ideia da distribuição e da densidade, analise-se a percentagem de habitantes luso-descendentes por cidades. Em nenhuma cidade californiana se regista uma densidade semelhante à de Fall River, North Darmouth ou New Bedford, no Massachusetts, ou mesmo Providence, em Rhode Island, onde os portugueses rondam os 40% e por vezes mais.

A dispersão explica a integração e a integração explicará o facto de até agora a Califórnia ser o único estado americano a ter luso-descendentes como congressistas federais. Seis no total, e três dos quais em exercício de funções: Jim Costa, do partido Democrata, e Devin Nunes e David Valadão, do partido Republicano. Todos de origem açoriana e todos eleitos por distritos do Vale de San Joaquin.

A Auto-Estrada 99, a via que atravessa o vale, parece eterna. É preciso ir por vias secundárias, por vezes por terra batida para encontrar as casas das quintas. Grandes extensões de terreno com árvores de fruto — laranjeiras e amendoeiras —, plantações de cereais e pasto atravessadas por vias rápidas junto das quais se situam centros comerciais ao ar livre, todos exibindo as mesmas marcas: Applebees, Starbucks, Dunkin’ Donuts, McDonalds, Wallgreens, CVS. Fora das populações, apenas uma ou outra casa de habitação isolada, carro ou tractor à porta, um bar dos anos 1930 ou 40 parado no tempo. Tudo está verde e em muitos locais a terra não consegue escoar a água que cai há dias. A felicidade da passageira que chegava no avião é a mesma dos que andam pelo vale. Ninguém se queixa destas tréguas a uma seca que dura há anos, com restrições contínuas no consumo de água e apelos públicos à poupança. É neste território, o grande centro de produção alimentar da América, que está a exploração de Manuel Eduardo Vieira, natural do Pico e o maior produtor e distribuidor de batata-doce biológica do mundo. Dele, diz-se, meio a brincar, que não se sabe se é republicano ou democrata. 

Politicamente activos

“Não temos dados concretos que nos permitam dizer qual a tendência partidária dos luso-americanos”, refere Nuno Mathias, numa altura em que o assunto presidenciais americanas é inevitável em cada conversa, confesse-se ou não a intenção de voto. “A Califórnia é tradicionalmente democrata, um estado liberal no sentido liberal americano. Genericamente, as grandes cidades são maioritariamente de voto democrata e as zonas interiores são mais conservadoras. Os dois congressistas luso-americanos eleitos pelo partido Republicano são exactamente de zonas rurais do Vale de San Joaquin. Mas mesmo aí há outros eleitos democratas.”

Steven Nascimento, 30 anos, nasceu e vive em Turlock. O pai é de São Jorge e a mãe é da Terceira. “Os meus avós paternos deixaram os Açores quando o meu pai tinha uns 15 anos. Foram para Angola, mas tiveram de sair por causa da Guerra Colonial. Passaram uns meses num campo de refugiados na África do Sul à espera de aprovação para entrar nos Estados Unidos. De lá foram para o Rio de Janeiro, onde estiveram uns meses até chegar a Los Banos [cidade também no Vale de San Joaquin]”, conta. O avô trabalhava numa fábrica de queijo e um dia comprou 20 vacas e começou a sua leitaria. Toda a família se envolveu no negócio e o pai de Steven criou a sua própria leitaria em Turlock. Steven estudou Ciência Política na Universidade de Stanislaus, com especialização em Direito Constitucional, trabalhou em planeamento urbanístico e em 2012 foi eleito pelo partido Republicano para o City Council daquela cidade de cerca de 70 mil habitantes. É um dos mais respeitados e activos jovens políticos da Califórnia, com uma ideia de Portugal que é diferente da dos pais ou avós. “Os interesses dos jovens em Portugal são mais próximos dos dos americanos do que em qualquer outra época. Falamos dos mesmos assuntos, temos interesses comuns, mas é bom que haja uma noção da raiz.”

Há cerca de dois anos, Steven tentou juntar os luso-americanos da Califórnia num grupo que serve de ponto de encontro e troca de experiências entre uma geração filha de emigrantes, nascida na América. Para se pertencer ao Youth Portuguese-American basta ter raízes portuguesas. Os encontros acontecem de forma mais ou menos esporádica, sem qualquer tipo de formalismo, tentado criar uma “plataforma activa de partilha”. Além disso, Steven faz parte de uma organização chamada American Portuguese Citizen Project, que desde há 15 anos tem estimulado o o registo dos membros da comunidade portuguesa, tentando que o nível de participação política esteja ao mesmo nível do resto da comunidade americana.

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Steven Nascimento foi eleito pelo Partido Republicano para City Council de Turlock: "É preciso dar o passo seguinte: fazer com que os portugueses participem mais activamente no processo político" dr

“O objectivo tem sido o de chamar a atenção para a necessidade da comunidade portuguesa estar politicamente mais envolvida. Isso tem sido conseguido, há um envolvimento grande”, garante, e diz logo depois: “Agora é preciso dar o passo seguinte: fazer com que os portugueses participem mais activamente no processo político.” Para isso foi criada a CPAC (California Portuguese American Coalition), uma organização criada formalmente no passado dia 4 de Março e que pelo menos nos seus primeiros três anos de vida será financiada — 50 mil euros — pela FLAD. Steven Nascimento dirige essa organização, que, afirma, “tanto apoia republicanos como democratas. Desde que sejam portugueses”.
 
Vasco Rato, presidente da FLAD, explica: “Entendeu-se que devido à dimensão da Califórnia e ao número significativo de associações, clubes, grupos de cidadãos de luso-descendentes neste estado, era necessário criar uma organização-chapéu para que se conseguisse alguma unidade. Numa primeira abordagem é isso que se pretende: criar uma organização em que o objectivo não é substituir-se a outras, mas potenciar parcerias entre elas. A segunda ideia é que esta organização possa reunir os políticos luso-descendentes, ou seja, pessoas que são eleitas a nível local, estadual — neste caso não há nenhum ainda — e federal. Ou seja, que os eleitos luso-americanos possam ter uma organização onde se encontrem e possam definir objectivos comuns, criando uma rede de contactos. Atendendo às distâncias, à dimensão do Estado, muitas vezes não se conhecem. Numa fase posterior, o CPAC tenciona promover candidaturas e aumentar a representação política de luso-americanos na Califórnia.”

Desde que assumiu funções, há cerca de dois anos, Vasco Rato pôs a Califórnia em lugar de destaque da sua agenda de prioridades. “A distância desta comunidade em relação a Portugal é enorme e isso tem feito com que muitas vezes fique para segundo plano. Durante praticamente 30 anos, a FLAD apoiou a língua e alguns festivais nesta costa. Isso foi muito importante, criou um ponto de partida, mas já não chega. O que se tem de fazer é apresentar o país sob uma nova luz, um país moderno, com uma grande capacidade de inovação. Estamos a falar de uma região onde esse tipo de actividade é muito privilegiada. Por outro lado, há uma nova vaga de emigração, empresários, gente que vem fazer doutoramentos e consegue dinamizar a relação com Portugal porque tem uma identificação mais sólida com o país e uma outra ideia desse mesmo país. Ainda há a noção de que Portugal é subdesenvolvido, sobretudo junto da população mais idosa aqui. Interessa-nos alterar isso. Seja através da promoção de visitas, como de programas como aquele que iniciamos em Fresno.”

Vasco Rato refere-se a um programa de intercâmbio na área do desenvolvimento agrícola entre as universidades dos Açores e de Fresno, também no Vale de San Joaquin. Um investimento de quase 50 mil euros integrado num projecto maior, de intercâmbio de estudantes universitários. Este intercâmbio é feito ao abrigo do SiPN, um programa da FLAD, complementar ao Erasmus, que quer incentivar a internacionalização das universidades, empresas e das instituições portuguesas, apresentado Portugal como um país competitivo. Os professores do secundário gostariam de ver algo de semelhante alargado aos alunos mais novos. 

E entre os argumentos para isso está a experiência dos que já visitaram o país de onde vieram os pais ou os avós. “A língua passa a ter para eles outro significado quando vão a Portugal”, refere Elmano Costa. Passa a corresponder a coisas, paisagens, emoções; por perceber, por exemplo que a palavra “festa” que todos sabem dizer e à qual atribuíram um significado quase novo, vem das Festas do Divino Espírito Santo que os emigrantes açorianos levaram para a Califórnia como motivo de celebração e de encontro. Fundaram também ali as fraternidades, criadas à semelhança das que existem nas ilhas e são responsáveis por toda a organização religiosa e pagã destes festejos originais do século XVI, que além de homenagearem a Santíssima Trindade, alimentam os pobres. Nelas há missa, procissão, matança de porco, música e dança. A “festa” na Califórnia começou assim."

O PÚBLICO viajou a convite da FLAD

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A San Diego chegou João Rodrigues Cabrilho, ao serviço do rei de Espanha e o primeiro europeu a desembarcar na que é agora a Costa Oeste dos Estados Unidos dr