Rui Gaudêncio
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Rui Gaudêncio

Megafone

Francamente, Joana Vasconcelos!

Joana Vasconcelos falou de megafone como se estivesse à mesa do café com os amigos. E os erros de avaliação nestes casos, muitas vezes, pagam-se caros

"Promover um exercício de empatia com quem foge da guerra na Síria e procura protecção humanitária, percebendo o que quer dizer deixar tudo para trás, ter de seleccionar o que é mais importante e viver só com uma mochila numa jornada de perigos e de incertezas." Percebeu o que estas palavras significam, Joana Vasconcelos? Deixar tudo para trás. Levar apenas o essencial. Es-sen-ci-al.

Passo a explicar como se fosse fazer uma instalação com tampões. Felizmente, nunca tive de passar pelas agruras de um refugiado, nunca tive de agarrar nos meus filhos e sair de casa a correr com medo que uma bomba caísse aos nossos pés, ou pior do que isso. Felizmente, a pátria onde nasci, com os mil defeitos que teimamos todos em lhe atribuir, ainda permite que saiamos à rua apenas com medo que um político nos dê uma bofetada ou que nos aumente os impostos. Felizmente, Joana Vasconcelos, a tolice é livre. Infelizmente, Joana Vasconcelos, algumas tolices deviam ficar fechadas no bule de chá no Portugal dos Pequenitos. Porque é de pequenez que aqui se trata.

Houve quem acusasse a artista de "falta de noção". Assim, sem mais. Acrescento, acentuo: do ridículo. As figuras públicas devem ter cuidados redobrados quando falam, já que as suas palavras ganham um eco muito maior do que as de um cidadão comum, mesmo quando este utiliza as redes sociais para dizer o que lhe vai na alma. Joana Vasconcelos falou de megafone como se estivesse à mesa do café com os amigos. E os erros de avaliação nestes casos, muitas vezes, pagam-se caros.

Para quem só chegou agora, a campanha "E se fosse eu" é promovida por diversas entidades para sensibilizar a sociedade portuguesa para as condições em que os refugiados da Síria, do Iraque e de outros países assolados pela guerra se encontram. Falamos de um assunto muito sério, que exige uma atitude responsável e não uma resposta à laia de quem está entretido a fazer cruzinhas num questionário de Verão.

Joana Vasconcelos

O que levava?#esefosseeu

Publicado por RTP em Quinta-feira, 7 de Abril de 2016

Desconheço se Joana Vasconcelos teve uma conversa prévia com alguém da sua confiança. Se foi, portanto, aconselhada nas escolhas que arriscou fazer como testemunho público do que levaria na sua mochila, caso estivesse na pele de uma refugiada. Não estávamos à espera que Joana Vasconcelos escolhesse um fato "kevlar" ou um detector de minas. Mas... um caderno para fazer desenhos, os lápis, o iPad para poder recolher informação e fotografias, os auscultadores, os óculos de sol (???) e "todas as minhas [dela] jóias portuguesas"? Francamente, Joana Vasconcelos. Em que sapato de salto alto ou em que candelabro tinha a cabeça? Lamentavelmente, tão valorosa campanha, de desafio aos portugueses para que pensem fora da sua zona de conforto, está a ser falada por fracas razões. Porque se há momento em que uma figura com visibilidade pública devia medir cada sílaba que diz, é este.