Crítica Livros

A sociedade de August Strindberg é a nossa

Romance de estreia de August Strindberg, é um tratado sobre o baile de máscaras que era a sociedade do tempo do autor. Como sucede com as obras que venceram o combate com o tempo, a sua sociedade é a nossa.

Toda a realização do imenso explorador da psique humana está já, embrionariamente, neste romance de importância capital
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Toda a realização do imenso explorador da psique humana está já, embrionariamente, neste romance de importância capital

A E-Primatur publica pela primeira vez entre nós O Salão Vermelho, romance e estreia de August Strindberg, nome essencial no dealbar das modernidades. Mestre do naturalismo, superou-o, aproximando-se de propostas mais ousadas como as simbolistas e preparando mesmo caminho para o expressionismo. Nos planos da editora está ainda publicar o romance Gente de Hemsö e as novelas Sozinho e Tschandala, mas todas dependentes dos resultados futuros da editora. Acerca de Gente de Hemsö, disse Strindberg numa carta: “No passado mês de Agosto – cansado e aborrecido, atormentado e perseguido como um animal selvagem –, sentei-me à secretária para me divertir. Escrevi uma história de agricultores, memórias dos meus dias no arquipélago de Estocolmo. (Pois também houve bons tempos na minha vida!)”

O Salão Vermelho começa por captar um flagrante da cidade de “Estocolmo vista da perspectiva de um pássaro”, nome, aliás, do primeiro capítulo do romance de estreia de August Strindberg. Afadigados com as suas actividades, os pardais “viam tudo” (p.9), conclui o narrador, que se serve desse estratagema de transferência para afinar a mira. Vista ao longe, a cidade mostra a sua pequenez, mas também deixa adivinhar a magnitude real da sua escala. Transposta a distância, perceber-se-á do que se trata – “Quando se apoiou sobre a barreira e olhou para a cidade a seus pés, pareceu-lhe observar um inimigo” (p.11). Movimentos de travelling semelhantes são razoavelmente comuns ao longo do romance. Comprovam o carácter amiúde peripatético do protagonista e representam, metaforicamente, o modo aguerrido e disperso como ele se esforça para assumir os papéis que a sua situação lhe vai exigindo – “A tarde de Setembro caía cinzenta, calma e quente sobre a capital quando Falk subiu as colinas a sul. (…) O relógio da torre deu uma qualquer hora e ele levantou-se e caminhou ao longo da Trädgårdsgatan, virou para a Nya Gatan, que parecia ser nova há cem anos, atravessou a Nytorget e chegou a Vita Bergen.” (p.239)

Cedo no romance, o protagonista Arvid Falk começa a enfrentar não um inimigo, mas uma horda de oponentes, como se cada um deles saísse da Medusa do seu combate pessoal. O movimento de aproximação à cidade é essencial para perceber (e até antecipar) os passos e as realizações que se vão seguir nesta narrativa de iniciação. Entrada num mundo codificado e repleto de interditos e normas, mas sobretudo agitado pelo engodo que se estende aos ingénuos. Imbuído do idealismo que o caracteriza, Falk começa por virar costas ao seu percurso, já devidamente encarreirado, dentro do funcionalismo, para se entregar à vida de “homem das letras” (p.14). Esta inflexão na biografia do protagonista permite a Strindberg acabar de desmantelar o edifício já periclitante da burocracia, estrutura demencial e bacoca, descrita de forma particularmente genial. Numa exposição cruel e profundamente irónica da estultícia e vacuidade do reino dos mangas-de-alpaca, avulta, acima de tudo, o desperdício de fundos e vidas humanas entregues às mais irrisórias tarefas, desde a escolha aturada de material de escritório – que suscita momentosas deliberações – ao mobiliário destinado aos quadros do funcionalismo público. Situação similar se viverá quando o caminho de Falk se cruzar com o poder político. Na sua qualidade de repórter assistente, ele será o meio através do qual Strindberg dará a conhecer o estado de coisas vivido nos órgãos de soberania. A mesma minudência parva, perdulária de meios e tempo, na discussão dos mais inúteis temas e de todos os que menos interessam à maior porção possível dos cidadãos. O desconchavo, aliás, estende-se, como por osmose, ao profissional titular encarregado de registar os trabalhos. Como quem transmite ensinamentos preciosos a Falk, explicar-lhe-á: “– Tu anotas as frases – disse o Gorro Vermelho –, e eu anoto os factos.” (p.119)

Todos os movimentos de Falk irão servir o propósito último de Strindberg: construir um libelo implacável contra a fatuidade tacanha da sociedade sua contemporânea. Assim, quando Falk se dirige ao irmão, armado apenas com o seu brio algo fútil, todo eriçado de escrúpulos, o contraste que se estabelece com o mais velho Carl é de molde a expor outros dois alvos do romance: o mundo dos negócios e da finança, nos seus podres e na sua surda ambição, mas também as armadilhas da vida conjugal. A guerra dos sexos foi, como é sabido, um dos cavalos de batalha de toda a produção strindberguiana: tanto na dramaturgia – peças como O Pai, ou Menina Júlia (Quimera Editores, 2009) – como na ficção que assinou – o romance autobiográfico Defesa de Um Louco, ou os contos de Casar. Carl situa-se nos antípodas de Arvid. Se este é idealista e disponível, o irmão é cínico, sabedor, mas daquela astúcia toda prática manhosa. Se o mais novo é literato e ainda receptivo aos golpes do mundo, o outro é burguesmente adaptado e conformista, conhecedor de meandros e manipulador de subterfúgios. A Igreja é outro dos alvos da crítica de Strindberg. Nos seus elementos mais ínfimos, anónimos, mesmo – “um padre que procurara a cura natural para a loucura provocada pelo celibato: a hipocrisia que tinha de demonstrar para conseguir alcançar o seu objectivo causara grande diversão” (p.196) –, mas também nos mais destacados. Como esse clérigo raçado de polvo que, com os seus tentáculos atarefados, abarca imprensa, evangelização, redacção e publicação de livros. O quadro que apresenta a sua bancada de trabalho é um prodígio, na criação de um dos vários momentos do romance em que a pulsão crítica se mescla com a verosimilhança da descrição e com a rédea solta da fantasia – “No meio da sala estava uma secretária do tamanho de um altar, bastante semelhante a um órgão com inúmeras teclas – as teclas consistindo, neste caso, num teclado completo de botões ligados a um sistema telegráfico e tubos que comunicavam com todas as divisões do edifício.” (p.105) Quando Strindberg se detém no mundo das artes, a ironia e a censura não são menores. Desde o sujeito cuja “classificação mais extraordinária como crítico de teatro talvez fosse (…) o facto de ser surdo” (p.136) até aos praticantes propriamente ditos, não há quem se exima à lente implavável de Strindberg. A penúria não é indício de intransigência moral, nem acarreta nenhuma espécie de rendenção. Pelo contrário – “Lundell, que abandonou a religião desde que terminou o trabalho no altar, vive da pintura de retratos, uma ocupação que necessita de uma interminável sucessão de jantares privados e ceias íntimas que ele afirma serem essenciais para ‘o estudo do carácter’; tornou-se um epicurista maduro que nunca vai ao Salão Vermelho, a menos que queira comida e bebida de graça.” (p.335)

O romance colhe o seu título de uma circunstância verdadeira. O Salão Vermelho era uma área privativa do Salão de Berns, que Strindberg costumava frequentar (e que, curiosamente, subsiste ainda nos dias de hoje, com aquele recinto preservado). Na sua obra, o autor havia de voltar ao espaço do Salão de Berns. A terceira parte da sua autbiografia romanesca (após O Filho da Criada e Tempo de Fermentação) chamou-se No Salão Vermelho. As pistas (e despistes) autobiográficos são subtis, mas encontram o seu caminho no romance. Tanto o pai de Arvid, como o de Strindberg, se chamavam Carl. Por outro lado, à semelhança do que sucedeu com August Strindberg, Arvid Falk frequentou a Universidade de Upsala; e a muito fugaz posição de professor que Strindberg ocupou na juventude encontra um espelho na tímida incursão de Falk no ensino. Ambos são homens de letras, com passagem pelo jornalismo e com uma vivência da boémia de inspiração parisiense praticada, sobretudo, no Salão Vermelho.

Naquele ano de 1879, Strindberg gizou um plano de promoção brilhante, mesmo cotejado com os temíveis padrões da actualidade. Embora o autor tivesse escavado nas suas vivências e colhido inspiração em personagens e factos reais, exagerou essa proximidade do real, elevando o livro a uma categoria de roman-à-clef, que, realmente, não era a sua. Foi mesmo ao ponto de afirmar que empresas como a Companhia de Seguros Marítimos Tritão, arrasada em O Salão Vermelho, correspondia à (verídica) Tritão, e ainda que o muito desfavorável retrato do funcionalismo público era “totalmente fiel” aos factos. Entre Novembro, quando saiu a primeira edição, rapidamente esgotada, e a Primavera do ano seguinte, escoaram-se quatro edições do romance. Strindberg viria a ser conhecido, graças ao realismo feroz da sua narrativa, como o “Zola sueco”. Ironicamente, ainda não tinha lido o autor de Germinal. Quando o fez, ter-se-á sentido supérfluo nas suas realizações literárias.

No seu primeiro romance, Strindberg emitia já alguns dos sinais que viriam a tornar-se marcantes na sua obra. A misoginia de anotar a “presença embaraçosa de mulheres” (p.56), mas também a desconfiança em relação aos poderosos e às instituições (entre as quais a Igreja) de quem descreveu a religião como uma “necessidade criada pela classe alta, com características de grande atraso, para exercer o seu domínio nda classe baixa.” (Breve Catequese para a Classe Oprimida, Ulmeiro, 2003) O que não o impediu de inflexões em sentido bem distinto, como a que encontrou expressão nas crises religiosas (e psíquicas) descritas em Inferno (Sistema Solar, 2015). O Salão Vermelho põe em prática todos os dispositivos do estilista capaz de descrever uma “escura nuvem de pessoas” (p.121), ou registar “A orla da floresta era tão negra quanto o pano escuro de um teatro de sombras” (p.245); mas igualmente do escritor apto a produzir anotações de particular atenção a pormenores nada nobres mas sobremaneira flagrantes – “Como piões, os seus cérebros dormentes abrandaram, rodopiaram e inexoravelmente tombaram” (p.70). Disperso nas suas múltiplas frentes, luta travada contra inimigos do artista e do pensador que Strindberg se ia formando, O Salão Vermelho é um painel de encaixe nem sempre perfeito, com elementos profundamente desiquilibrados, na sua importância, escala e desenvolvimento. No entanto, toda a força do artista maior, toda a realização do imenso explorador da psique humana, estão já, embrionariamente, neste romance de importância capital.