Depois dos golfinhos, parque aquático quer mostra o "lado bom” dos tubarões

Quando um tubarão mostra os dentes "pode estar apenas a sorrir”, diz o director do departamento de educação do Zoomarine, João Neves, destacando o lado “bom” deste animal selvagem.

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Que os golfinhos são simpáticos toda a gente sabe. E os tubarões? VIRGÍLIO RODRIGUES

Os tubarões vão ser a nova atracção do Zoomarine – o parque aquático do Algarve conhecido pelas brincadeiras com golfinhos. Quem faz da arte de ensinar a “gostar de tubarões” a sua profissão, acha que estes bichos não são o “papão” que faz temer crianças e adultos. Assim, no próximo Verão, a curiosidade dos visitantes vai estar virada para seis exemplares juvenis, observados do lado de cá do vidro dos aquários. Na vida selvagem, as emoções e o  gosto pelo mergulho despertam paixões de olhares cruzados.     

Quando um tubarão mostra os dentes "pode estar apenas a sorrir”, diz o director do departamento de educação do Zoomarine, João Neves, destacando o lado  “bom” deste animal selvagem. “Não é mais agressivo do que o golfinho”, sublinha. A diferença, diz, está na forma como é visto pelas pessoas. Sobre as duas espécies, ambas “ciosas dos seus territórios” temos, de um lado, o animal que ganhou fama de “fofinho, bonito e brincalhão”. Do outro, a imagem do “terror” dos oceanos, muito por influência da indústria cinematográfica.  

João Neves, biólogo, anda há quase nove anos a estudar, neste parque aquático, a melhorar forma de ensinar as pessoas a “gostar de tubarões”. Por causa disso fez  um mestrado na área da pedagogia e didáctica. Mas não vai ficar por aqui. No próximo mês, na Universidade do Algarve, apresenta um projecto de doutoramento em psicologia, com o objectivo de vir a “derrubar alguns estereótipos relacionados com os trubarões”.

Para quem trata por “tu” golfinhos e tubarões, a comparação é inevitável. “Só por terem aquele sorriso, os golfinhos provocam empatia geral”. Já no que toca aos outros, reconhece, “se mostram os dentes, mesmo que estejam a sorrir, geram medo”. 

No inverno de 2011, depois do mestrado, o educador ambiental decidiu, como voluntário de uma Organização Não Governamental, passar um mês a mergulhar com os tubarões baleia, em Moçambique. “Esforço-me por ir para áreas que desconheço, é isso que me permite crescer”, justifica. Quando nasceu, em 1976, o filme Tubarão enchia as salas dos cinemas, deixando nos espectadores um rasto de medo e a ideia de que estes peixes gigantes são o “papão” que tanto assusta crianças e adultos.

Quando começou a estudá-los no mar, integrado num grupo de oito mergulhadores, transportava consigo os conhecimentos que lhe permitiam dizer: "Vou encontrar tubarões com uma boca enorme, mas dóceis”.  A realidade confirmou as expectativas. “Vi animais imponentes, que metem respeito, mas não fazem mal a ninguém, comem plâncton” . Um exemplar desta espécie pode chegar aos 15 a 20 metros. Então tem medo de tubarões? “Medo racional não tenho, tenho medo emocional que me foi incutido desde criança”.

Em Benidorme (costa mediterrânica de Espanha), há duas semanas, João Neves aproveitou a realização de uma conferência internacional sobre parques aquáticos para dar a conhecer o projecto preliminar da sua tese de doutoramento. A proposta de investigação teve por base um inquérito, com as mesmas perguntas sobre golfinhos e tubarões, dirigido a 150 crianças, até aos 16 anos, e ao mesmo número de  educadores de Portugal, Espanha e Estados Unidos da América.

As respostas foram coincidentes, em relação ao tubarão. “Medo, morte e sangue”, disseram. Já no que diz respeito aos  golfinhos, os pequenos ilustraram a resposta com adjectivos: “brincalhões, fofinhos e  bonitos”. Os profissionais preferiram relacioná-los com questões de ordem biológica, identificando-os como, por exemplo,  “mamíferos que vivem dentro de água, inteligentes”.

A verdade, porém,  comenta o investigador, é que “temos a tendência para tornar tudo muito humano, quando os golfinhos e os tubarões não pensam, nem evoluíram como nós”. O tubarão tigre, refere, é capaz de se apresentar de tal forma como “dono e senhor do oceano que não hesitará a abrir a boca, em jeito de quem pergunta - afinal quem és tu?”

Quanto aos perigos, na fase em que andam a arrastar a barbatana à fêmea, não toleram voyeurismo. “Vai ser agressivo para quem surja no seu espaço”. Uma vez ganha a batalha pela defesa e conservação dos golfinhos, João Neves, investigador com dois mestrados ( biologia e conservação 2006 e Pedagogia e Didáctica, 2011) acha que está na altura de lançar a campanha para proteger os tubarões . “Não vai ser fácil”, admite, justificando: “as pessoas não querem proteger os tubarões”. Da parte que lhe respeito, promete  continuar em busca  “palavras certas” dizer que os golfinhos são simpáticos, mas os tubarões não são maus.  

                 

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