O álbum maior de Old Jerusalem

Em A Rose is a Rose is a Rose a essência é a mesma, o tom igualmente. Mas é um álbum maior, literalmente. O álbum de alguém que vemos atravessar o tempo, cantando pequenas e pungentes vinhetas da vida que passa.

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Já nos conhecemos há muito. 15 anos bem contados. Foi em 2001 que um CDr preenchido de canções com a América dos “singer-songwriters” no pensamento, com as palavras bem medidas nos versos e com uma delicadeza poética que chamava a atenção, nos apresentou Francisco Silva, o músico que, porque nunca esteve aqui para nos enganar, escolheu como baptismo o título de uma canção dos Palace Music de Will Oldham.

Década e meia depois, muito se passou. Aquele tímido CDr deu lugar a álbuns oficiais e títulos como April (2003) ou Twice the Humbling Sun (2005), os dois primeiros, mostraram a muitos mais aquela terna capacidade de pôr em canção curtas vinhetas da vida que passa, guitarra acústica tocada como em alpendre com vista para planície ao fim de tarde. De certa forma, fomos crescendo com ele, representados naquilo que as canções diziam e serenados pela voz firme e reconfortante que nunca se exalta. A discografia aumentou: The Temple Bell, em 2007, Two Birds Blessing, em 2009, Old Jerusalem, em 2011. Neste último manifestou-se um firme desejo de despojamento. Foi álbum despido de arranjos e instrumentação e, nesse sentido, mais íntimo. Depois, o silêncio. Quatro anos passaram, o dobro da espera habitual.

Chega agora A Rose is a Rose is a Rose, editado precisamente hoje, 11 de Março, e julgamos ler naquilo que é novo na música de Old Jerusalem o porquê da espera. É um disco maior, literalmente: Filipe Melo tocou piano e assinou orquestrações, Nélson Cascais agarrou o contrabaixo e “velhos” parceiros de crime, como o produtor Paulo Miranda e o baterista Pedro Oliveira, e amigos de longa data, como a cantora Petra Pais e o guitarrista Luís Ferreira, dos Nobody’s Bizness, contribuem em algumas canções. Engano nosso. Old Jerusalem continua, em essência, o mesmo e A Rose is a Rose is a Rose é, indiscutivelmente, um álbum do seu autor. “As canções são evidentemente minhas. Nos primeiros discos seriam um pouco mais ingénuas que nas mais recentes, mas há um fio condutor. Old Jerusalem tem um carácter bem definido, por mais colaborações que surjam”.

A Rose is a Rose is a Rose será apresentado em palco em Lisboa (2 de Abril, Galeria Zé dos Bois), no Porto (8 de Abril, Maus Hábitos), em Barcelos (16 de Abril, Teatro Gil Vicente) e na Régua (14 de Maio, Portugal Rebelde ao Vivo).

15 anos passaram e aqui o temos. O portuense Francisco Silva, economista de ofício e artesão de canções. Sentado à mesa de uma tasca no bairro da Bica, em Lisboa, cabelo curto e grisalho no lugar das compridas melenas que primeiro lhe vimos – os óculos mantêm-se -, explica as razões do parto demorado de A Rose is A Rose is a Rose. A história nada tem de extraordinário. Não lhe faltavam canções ou o que cantar. “Acho que ainda posso ter uma crise de ‘writer’s block’ porque tenho acumuladas umas 30 ou 40 canções com que nunca fiz nada”. Faltou aquele bem tão escasso nos dias que correm, tempo. Não o dele.

Muda o que ele mudou connosco
Estava decidido que, ao contrário do que acontecera no álbum anterior, “haveria colaboradores e seriam mais interventivos”. Filipe Melo, que conheceu em Lisboa num concerto de homenagem a Bernardo Sassetti, tornou-se esse colaborador. Conhecia a música de Old Jerusalem e dissera a Francisco, quando se despediram no primeiro encontro, aquele habitual “temos que fazer qualquer coisa juntos”. Quando Francisco começou a agrupar as canções que lhe sugeriam um disco – “começo a pensar fazer um álbum quando identifico seis ou sete músicas que fazem sentido em conjunto, com uma certa coerência estética e lírica” -, lembrou-se de Filipe Melo. O músico de múltiplos talentos – além de pianista, é realizador com Mundo Catita no currículo ou autor da premiada BD As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy -, revelar-se-ia fundamental para que A Rose is a Rose is a Rose” se transformasse no disco que é. Trouxe consigo o contrabaixista Nélson Cascais, que oferece às canções uma cadência jazzy, no sentido Van Morrison do termo, e o quarteto de cordas com que trabalha habitualmente. Nem um, nem o outro, surgiriam por iniciativa de Francisco. “Não pensaria em cordas porque vejo-as como mero tapete sonoro”. Filipe Melo tinha outra ideia. “Conheces David Campbell?”, perguntou. Campbell, o pai de Beck, orquestrador do magnífico Sea Change, seria o modelo. O resultado, como se ouve logo a início, em A charm”, é tudo menos um dispensável tapete sonoro. “A interacção não é nada linear, traz aos temas uma outra dimensão que nunca na vida magicaria por mim”, confessa Francisco.

Gravado em vários estúdios, centro como habitualmente nos Estúdios AMP de Paulo Miranda, em Viana do Castelo, mas desta vez com extensão a Lisboa, A Rose is a Rose is a Rose chegou quatro anos depois de Old Jerusalem pela vontade de Francisco Silva se manter fiel à ideia inicial. “Tendo decidido fazer o disco desta forma, sentindo que podia resultar bem, preferi ajustar-me à agenda de todos, o que tornou o processo mais distendido no tempo”.

No disco com título retirado ao poema de Gertrude Stein Sacred Emily, o tom contemplativo que Old Jerusalem lança sobre a paisagem (exterior e interior) e o seu canto quase sussurro continuam assentes na guitarra acústica, no pó de beira da estrada que o bandolim sugere, na ideia de um country-rock confessional, nocturno, que One for dusty light tão bem representa. As cordas e o contrabaixo, apoiados pela produção meticulosa, tornam, porém, este álbum especial na discografia de Old Jerusalem - textura orgânica imaculada e espaço aberto em todo o espectro sonoro: ouça-se Florentine course e os seus tricotados de guitarra, a secção rítmica que ecoa por toda a sala, o órgão em fundo, esperando o ataque das cordas, e a voz que se ergue com suavidade, límpida: “Given time / it’ll all be clear / and letting go / who we hold dear / will not spell / catastrophe”.

Em A Rose is a Rose is a Rose, Old Jerusalem olha o que ficou perdido na infância e que não mais pode ser recuperado – as Tribal joys que o futuro não trará. Neste disco, olha em volta e questiona o que pode trazer outra vida, um filho, à vida que avança. Olha para o que fica e para o que se perde, para o que se transforma irremediavelmente. Olha como sempre olhou, com os 38 anos que nunca teve. “Fala-se muito da passagem do tempo, mas como se fosse linear. Não é. Há momentos de corte abrupto que geram mudanças completas. Momentos de corte que geram outro patamar de existência, que deixam do passado memórias muito vívidas, mas que nunca seremos capazes de replicar”.

Conhecemo-lo há 15 anos. Há uma década e meia que nos acompanha. Em essência, a sua música não mudou. Muda o que ele mudou connosco, ano após ano, disco após disco.