Tokyo, Jamaica e Europa vão encerrar para dar lugar a hotel

Proprietários dos estabelecimentos defendem que é possível fazer obras sem despejar os inquilinos.

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Discoteca Jamaica Pedro Cunha
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Discoteca Tokyo Nuno Ferreira Santos
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Bar Europa Rita Baleia

Algumas das mais famosas discotecas de Lisboa, situadas no Cais do Sodré, receberam ordem de despejo para que o prédio de que são inquilinas sofra obras de recuperação e remodelação para se transformar num hotel. Trata-se do Tokyo e do Jamaica e do bar Europa, referências da noite lisboeta há mais de 40 anos. Os proprietários sublinham a enorme degradação do edifício e garantem que o assunto foi tratado "com muita antecedência e lisura", estando garantida a permanência de uma das discotecas.

Segundo comunicado do dono das discotecas Jamaica e Tokyo, Fernando Pereira, a denúncia dos contratos de arrendamento tem efeitos a partir de 14 de Abril. Na carta do advogado representante dos senhorios, evoca-se a nova lei das rendas que autoriza os senhorios, em casos em que é necessário fazer obras de remodelação ou restauro profundos, a fazer despejos.

Na passada quinta-feira, os donos das discotecas e bar escreveram à Câmara Municipal de Lisboa para que esta “não considere a requalificação do edifício como uma obra de remodelação profunda que obrigue à desocupação do locado, conforme previsto na nova lei do arredamento e nas alterações ao Código Civil, impedindo desta forma que as discotecas sejam obrigadas a sair, considerando as mesmas que tudo não é mais do que uma forma hábil de o senhorio se livrar destes espaços que desvalorizam o imóvel, já que em 2009 os mesmos senhorios fizeram aprovar junto da autarquia um projecto que procedia à reabilitação do edifício sem tocar nos espaços comerciais”. E sugerem métodos de recuperação do edifício que permitem manter as portas abertas.

Fernando Pereira adianta que a intenção é a de ali fazer um hotel, mas o projecto contempla a manutenção do Jamaica no mesmo espaço, já com uma renda actualizada — actualmente, estes estabelecimentos estão a pagar rendas entre os 200 e os 400 euros — e contrato de cinco anos. Mas, para que tal aconteça, os senhorios querem “que o Jamaica desista de um processo que tem contra eles (pedido de indemnização de 200 mil euros por causa do encerramento quando se deu a derrocada)” e entreguem a loja em bruto, “tendo o Jamaica que fazer todas as adaptações necessárias para voltar a funcionar”. Pedem ainda que “que o Tokyo saia sem fazer barulho e desista também de um processo com um pedido de indemnização de quase 60 mil euros, também por causa do encerramento forçado devido à derrocada no edifício”, em 2011.

Em Maio de 2011, uma parte da estrutura interior do prédio em que estão instalados estes três espaços cedeu e estes tiveram de ser encerrados. Só reabriram em Setembro e exigiram ser ressarcidos pelos custos de terem tido as portas fechadas durante quase todo o Verão.

Aliás, na carta enviada à câmara, os proprietários dos estabelecimentos tecem duras críticas ao “desleixo” com que o senhorio sempre terá tratado este prédio de seis andares entre a Rua Nova do Carvalho — a chamada rua cor-de-rosa —, a Rua de S. Paulo e a Rua do Alecrim.

O edifício está, com excepção dos bares, devoluto há mais de uma década, conta Fernando Pereira. Os últimos a saírem foram o restaurante A Palhota e uma casa de material eléctrico, ambos com acesso a partir da Rua de S. Paulo. Na altura da derrocada, em 2011, ainda existia uma casa alugada mas o inquilino já não moraria ali.

Quanto ao valor das rendas, Fernando Pereira diz que foram várias as vezes que tentaram negociar com os proprietários — que são 28 — para que fizessem obras e aumentassem os valores. "Tentámos resolver os problemas inúmeras vezes, sempre dissemos que pagaríamos mais mas nada foi feito", relata, acrescentando que chove no Jamaica, um estabelecimento que se encontra no R/C de um prédio de seis andares.

Segundo o projecto que consultaram na câmara, ali nascerá um hotel, pela mão de um grupo francês que está a fazer uma outra unidade hoteleira no Largo do Corpo Santo, ali mesmo ao lado, adianta Fernando Pereira. Uma informação não confirmada pelos proprietários. O projecto mantém a volumetria, pois encontra-se na zona histórica, embora cresça dois pisos, os mesmos que foram demolidos coercivamente pela câmara na altura da derrocada. Não haverá estacionamento. A autarquia já aprovou a proposta arquitectónica, faltando agora a aprovação por parte das especialidades.

Obras urgentes
Diogo Tavares de Carvalho, advogado dos proprietários e também ele dono de uma pequena fracção do prédio, explica que as obras no edifício são urgentes e que não há forma de serem feitas sem que os inquilinos saiam. O edifício é propriedade de 28 pessoas e, desde que o herdaram, em 1974, tem sido muito difícil o consenso, adianta.

Até que, em 2000, perante a enorme degradação daquele quarteirão, decidiram avançar com a reabilitação. Como não tinham capacidade financeira, estabeleceram um acordo com um construtor, que ali iria fazer apartamentos para posteriormente se vender o prédio por fracções para que a divisão entre os herdeiros fosse mais fácil.

Mas veio a crise e o construtor deixou de ter acesso a crédito. Encontraram mais recentemente novos parceiros que optaram por uma unidade hoteleira. "Neste projecto, deixamos um espaço para instalação de uma das discotecas, em condições a acordar e com renda progressiva até atingir os preços de mercado", diz o advogado, defendendo que seja feito um rateio entre os três espaços.

"Ainda tentámos fazer um projecto só da Rua do Alecrim para cima, deixando as discotecas, mas este é um prédio pombalino, em gaiola e assente em estacas, seria uma obra impossível", acrescenta, lembrando que a integridade do prédio está há muito posta em causa, uma situação que se tem vindo a deteriorar com as obras recentes na zona. "As estacas em que assenta, que estavam dentro de água — o que as inchava e as mantinha —, estão agora secas devido às muitas obras ali feitas que cortaram o fluxo da água, como o metro ou a estação fluvial, tendo já começado a estalar", afirma.

O advogado não confirma se o promotor do projecto é um grupo francês, adiantando apenas que o promotor do projecto que deu entrada na câmara é também co-proprietário.

A câmara agendou, entretanto, um encontro entre os inquilinos e os promotores imobiliários para o próximo dia 18 de Março. Foi também, durante esta tarde, criada a petição "Jamaica, Tokyo e Europa: Reabilitação Urbana sim, à custa de Espaços Históricos NÃO" que pede à câmara que não emita o "documento que ateste que a operação urbanística constitui, nos termos da lei, uma obra de demolição ou uma obra de remodelação ou restauro profundos para efeitos de aplicação do disposto na alínea b) do artigo 1101º do Código Civil, por não se encontrar verificado o pressuposto da necessidade de desocupação dos locados em análise." 

O Jamaica e o Tokyo são dos espaços mais icónicos da noite lisboeta. Nasceram como bares de alterne na altura em que o Cais do Sodré se enchia de marinheiros mas, no final dos anos 70, começam a dinamizar a movida da cidade, captando novos públicos e novos músicos. Atingiram o seu boom na década de 1980 e é ainda esta geração que ali acorre fielmente aos fins-de-semana.