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Fotografia tirada em Gevgeliza, na Macedónia Joana Bom
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Joana Bom, 29 anos, tem uma licenciatura e um mestrado em Economia Nuno

Joana, a economista “salva” pela fotografia quer fotografar para “salvar” o mundo

O desemprego fê-la cair na tristeza, mas a fotografia salvou-a. Portuguesa de 29 anos esteve quase dois meses entre a Grécia e a Macedónia a retratar o drama dos refugiados. Quer promover a reflexão e a mudança. E a viagem não deve ficar por aqui

Entre o “isolamento político” e a tristeza a tombar em depressão, agarrou-se à fotografia. Tinha nas prateleiras de casa dois diplomas em economia, mas no país dela de pouco valiam. Joana Bom vestia a pele de desempregada desde 2013, quando regressou a Portugal depois de completar um mestrado no Brasil. Tinha perdido a esperança, estava isolada. E na cabeça, em modo “loop”, a lisboeta de 29 anos tinha o drama dos refugiados: a forma errada como o continente dela recebia aquelas pessoas e uma onda de xenofobia a crescer.

Foi na junção das duas realidades díspares — a dela mesma e a dos refugiados — que a aventura começou. Joana Bom partiu para Atenas para mostrar que os refugiados “são pessoas iguais a nós” e “alertar para a necessidade de uma solução imediata e positiva, ao abrigo do estatuto de refugiados, assinado pela União Europeia”. Se as fotografias que tirou servirem para “promover a reflexão” sobre os “interesses económicos e a participação externa das grandes potências mundiais” em países como a Síria, Afeganistão e Iraque e, de alguma forma, ajudarem a mudar a percepção do mundo ocidental em relação ao oriente, Joana terá a batalha ganha. O que já está garantido é a quebra com a depressão: “A máquina salvou-me.”

Setembro de 2015, porto do Pireu, Atenas. Joana congela perante o cenário. Crianças, muitas crianças. Pais sozinhos com bebés de colo (teriam as mães morrido?). Tristeza e ao mesmo tempo sorrisos por estarem ali, longe da guerra. “Não consegui fotografar.” Foi um mergulho em “humanidade”, recorda. Depois da desconfiança inicial, do “receio da máquina”, Joana Bom encontrou gente disposta a conversar. Com vontade de conversar. A maioria, diz, eram pessoas “formadas, com um bom nível de inglês”. “Isso fez-me pensar que talvez aquelas não sejam as pessoas mais pobres, talvez as mais pobres tenham ficado presas no país delas.”

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Joana Bom

No porto do Pireu, viu chegar vários navios das ilhas gregas. Algumas pessoas tinham pago 700 euros para viajar da Turquia até à ilha de Lesbos, muitas estavam em trânsito há mais de um ano e meio. A recebê-los, apenas a polícia. E os vendedores da Vodafone, “jovens gregos precários a trabalhar à comissão” que de tudo faziam para conseguir novos contratos. “Aquelas pessoas estão desesperadas por notícias de casa. E a Vodafone viu nisso um novo nicho de negócio. Quando se espera ver ali outras instâncias, aquilo é chocante.” A Grécia, diziam-lhe os refugiados, era apenas uma porta de entrada: “A grande maioria quer chegar à Alemanha.”

A esperança e os sonhos

Enquanto esteve em Atenas, Joana foi à Praça Vitória quase todas as noites. Muitos refugiados pernoitavam por ali e o ambiente era “familiar”. “Vi muita gente com esperança, com sonhos. Mas em constante preocupação, com os que deixaram nos países deles”, recorda numa conversa telefónica com o P3. Do povo grego, a portuguesa viu muita solidariedade. Todos os dias, ao cair da noite, havia panelas com comida a chegar, voluntários. Mas uma coisa não sai da cabeça de Joana: “No último dia em que fui lá, encontrei a praça vazia. O crescimento da direita, da Aurora Dourada, foi reflexo de um aumento da xenofobia. Houve ataques aos refugiados na praça e eles começaram a procurar outros lugares”, lamenta.

A jornada (ainda inacabada, já lá vamos) de Joana não parou por ali. No comboio onde viajou até Thessaloniki, cidade a apenas uma hora da Macedónia, ela e outra senhora eram as únicas não refugiadas presentes. Foram seis horas de caminho. Gente com fome e com frio, crianças cansadas, algumas a dormir de pés. No campo de refugiados em Gevgeliza, já na Macedónia, novo choque. “São milhares de pessoas na fila do lado de fora. Quando entram a fila desaparece e passado cinco minutos são novamente milhares”, relata.

Foram quase dois meses. Cumpridos com apenas 400 euros, alimentação à base de “kebabs”, pernoitas em casa de amigos, ou amigos de amigos. Improviso. Da viagem, trouxe a certeza de querer fazer da fotografia profissão — sem fazer disso um desdém pela economia (“se não fosse a economia se calhar não via a fotografia desta forma”). Com as várias formações feitas no Cenjor como base, Joana quer continuar a trabalhar no tema dos refugiados e anda em busca de financiamento para isso: “Gostava de ir às fronteiras da Sérvia e mais para cima.” Se a máquina a salvou, pode Joana “salvar” o mundo com ela?