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Economia pós-autista: só o Excel não resolve

A economia trata de pessoas e não de atómos. A matemática deve ser usada como ferramenta de ajuda à economia e não como fim de si mesma

Em Paris, no ínicio do século, um grupo de estudantes universitários exigia o fim “do autismo no ensino da economia”. Rapidamente, a ideia correu o mundo e juntou alunos e professores. A crítica era clara: o uso descontrolado da matemática, a falta de pluralismo das abordagens económicas e a fraca ligação à realidade.

Para começar, todo o ensino é feito em ambiente laboratorial, com pressupostos muitas vezes irrealistas, tratando a economia como uma ciência exacta e não social, humana e plural. A diferença é que a economia trata de pessoas e não de atómos. É necessário reconher as limitações deste ensino baseado em simplificações, abstrações e formalizações matemáticas. A matemática deve ser usada como ferramenta de ajuda à economia e não como fim de si mesma.

Para além disso, o currículo de ensino de um curso de economia abrange um único pensamento — teoria neoclássica — excluindo qualquer sistema económico alternativo. A crise financeira de 2008 comprovou que a receita da ideologia do mercado livre falha. Contudo, permanecemos mergulhados no (i)realismo capitalista, sem espaço para debate e pensamento crítico. Todos os programas de pesquisa que fujam ao "mainstream" do modelo de equilíbrio geral walrasiano, da hipótese das expetativas racionais e da eficiência dos mercados são postas de lado.

A faculdade não deveria ser um espaço fechado, em que só o pensamento (neo)liberal tem direito a estar presente. Assim, é essencial reconsiderar os programas das faculdades de economia, estimular o estudo da história do pensamento económico e os debates da atualidade. Após termos assistido ao completo descalabro do sistema esta necessidade impõem-se mais do que nunca. O que tem acontecido é exatamente o inverso.

Hoje, uma dúvida invade o pensamento de muitos de nós: como é possível, numa Europa cada vez mais dominada por um discurso aparentemente técnico, proclamado pelos mais preparados teóricos da economia, que explicam todos os males com números e cálculo infalíveis, não termos ainda resolvido o problema da crise que assola os grande impérios económicos mundiais? A resposta é simples: não se trata da matemática, mas sim das escolhas políticas. Tal como intitulou Zizek um dos capítulos em "Da Tragédia à Farsa" — "É a Ideologia, Estúpido!".

Quando o debate político se estreita em prol da defesa de uma solução como única e milagrosa, temos destas coisas. O fanatismo ideológico que apoia a política de austeridade tem uma raiz muito profunda nas premissas de um pensamento único que o neoliberalismo, desde a década de ’80, foi construindo na sociedade. O ensino da economia não fugiu a isso, pelo contrário, foi um dos instrumentos para esse triunfo.

Foi desta academia que saíram os defensores destas soluções. É curioso reparar que, tal como na extinta União Soviética, numa altura já de declínio, alguns dos seus teóricos defendiam que era possível reformar o sistema ditatorial vigente sem por em causa a própria ditadura, ou seja, admitir que o problema não estava diretamente ligado ao modelo político construído durante décadas mas sim em falhas causadas por quem não o compreendeu. Agora, desde a crise de 2008, os campeões do neoliberalismo invadiram programas de televisão dizendo que o problema não está na génese do modelo neoliberal e capitalista, mas sim em quem o usou para corromper, quem o desvirtuou.

Quando Marx (filósofo pouco querido nas faculdades de economia) escreveu, em 1844, os "Manuscritos Económico-Filosóficos", já nos falava dos problemas de uma economia que olhava a matemática como fim em si mesmo:

"A Economia Política parte da existência da propriedade privada, não a explica. Ela concebe o processo material da propriedade privada, como ocorre na realidade, por meio de fórmulas abstractas e gerais, que, então, servem como leis. (…) não compreende as interconexões dentro desse movimento, pode, por exemplo, opor a teoria da concorrência à do monopólio, a da livre iniciativa à da corporação, a doutrina da divisão da terra à dos latifúndios."

Numa análise realista, afirmamos que a crise não se resolve apenas com uma alteração profunda dos programas curriculares nos cursos de economia. Mais: a forma como o ensino da economia está hoje estruturado é fruto da hegemonia do pensamento neoliberal, que invadiu também a academia; não se mudam currículos sem se alterar a relação de forças para essa conquista. No entanto, temos a certeza que uma saída da crise nunca se fará na base de um pensamento único. Esse pensamento único e a saída da crise só poderá acontecer com uma política outra, que utilize a matemática como instrumento e não como solucionador-meta, ou seja, que a economia responda a uma política para as pessoas e não o seu contrário — a política a uma economia dos números. E a academia não pode fugir a esta responsabilidade.