Bibliotecas escolares “fazem leitores de literatura”

Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia da Fundação “O Século” termina este sábado em Lisboa. Professores bibliotecários desmultiplicam-se em actividades de promoção da leitura. Fazem-no junto dos alunos, mas também dos outros professores, que lêem pouco.

A Rede de Bibliotecas Escolares já tem 20 anos
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A Rede de Bibliotecas Escolares já tem 20 anos Daniel Rocha / Arquivo

Definem um tema para o ano lectivo que se enquadre no projecto educativo da escola, seleccionam um conjunto de livros segundo critérios literários e estéticos de qualidade, planificam leitura orientada, articulam as actividades com a família e no final tentam que um escritor visite a escola.

Um breve resumo da experiência de dez anos da professora bibliotecária Lúcia Barros, do agrupamento de escolas António Feijó, em Ponte de Lima, partilhada no 2.º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia da Fundação “O Século”, que terminou neste sábado e levou escritores, ilustradores e narradores a 20 escolas da Grande Lisboa, abrangendo cerca de 2200 alunos.

“A promoção não vive do improviso”, disse a também investigadora na Escola Superior de Educação de Viana do Castelo (em promoção da leitura em família), lembrando que a Rede de Bibliotecas Escolares já tem 20 anos e afirmando que o trabalho junto dos professores continua fundamental, para que também eles leiam mais.

“Quando dou formação aos meus colegas, a primeira reacção que obtenho é a surpresa que mostram por haver tantos livros e de boa qualidade para crianças”, conta ao PÚBLICO, depois de apresentar a sua comunicação no painel “Os escritores, a promoção da leitura e as bibliotecas escolares”, que partilhou com os autores António Mota, Clovis Levi e José António Gomes.

Durante o encontro houve vários escritores que manifestaram o seu descontentamento por se aperceberem de que nalgumas escolas os professores estão impreparados para os receber, não conhecendo os livros nem os autores. Uma situação caricata contada por António Mota. “Numa escola, estava eu a autografar os livros aos miúdos e a professora, que não tinha livro, pediu-me para pôr o autógrafo numa folha de papel…”

Cinco minutos por dia
Lúcia Barros sabe que os professores são solicitados para inúmeras tarefas burocráticas que os esgotam e por isso compreende que, quando o professor bibliotecário se lhes dirige com um projecto de leitura, a reacção seja: “Mais trabalho?” Mas não é disso que se trata, “a ideia é optimizar o trabalho do professor, é isso que nós fazemos”, diz.

No caso do agrupamento em que trabalha (com 2200 alunos, oito estabelecimentos de ensino, sete bibliotecas escolares e duas professoras bibliotecárias), essa recusa inicial está praticamente ultrapassada, “os meus colegas quando estão a preparar o ano lectivo seguinte já vêm perguntar qual o tema escolhido para as actividades de leitura”.

Sublinha que veio ao encontro da lusofonia partilhar a sua experiência e não “dar uma receita”. Uma das práticas que deu a conhecer foi a da “leitura gratuita”, para o pré-escolar e 1.º ciclo. A saber: na sala de professores há uma caixa com livros, cada professor escolhe um e leva para a sala de aula. Nos cinco minutos iniciais, lêem um texto, um poema ou um capítulo. Não perguntam nada.

“No fim de um ano lectivo, os meninos ouviram 150 textos ‘à borla’, ninguém lhes pediu uma ficha de trabalho no fim. Ao fim dos quatro anos do 1.º ciclo, foram 600 textos que entraram na enciclopédia literária dos alunos”, conclui satisfeita. “Ao criarmos leitores de literatura, estamos a contribuir para a formação completa do indivíduo e do cidadão. Não é essa a missão da escola?"

Lúcia Barros alerta as escolas para o “bombardeamento editorial e autoral”. Conta que no início “rara era a semana em que não fosse à biblioteca um autor que precisava de divulgação ou uma editora que queria levar alguém à força”. Ao PÚBLICO disse que por vezes aparecem editoras com “três livros a dez euros e já com os papelinhos prontos para os alunos mostrarem aos pais”.

Pagar ao escritor
A professora de Português e de Francês recebe os escritores na escola depois de os alunos já estarem familiarizados com a sua obra e, usando as palavras de José António Gomes, diz que “os encontros com escritores devem culminar projectos de leitura”, mas admite que haja outras formas de trabalhar. O que não admite é “as escolas acharem que os escritores têm a obrigação de lá ir de borla”, no pressuposto de que “é uma oportunidade de divulgarem os livros”, diz. E acrescenta: “Ele nesse dia não produz e a escrita é a vida dele. É quase uma falta de respeito considerar-se que o escritor não deve ser pago.”

O escritor António Torrado, também convidado pela Fundação “O Século”, diz ao PÚBLICO: “Não recebo cachet. As escolas não têm meios e as câmaras reservam as verbas para os músicos, para as cantorias...”

Considera as idas a escolas “uma extensão do trabalho do escritor, sabemos que os nossos livros são lidos”. E gosta. “Mas fazer sessões com meninos e não encontrar um livro nosso é um desconsolo. Os escritores precisam de ser estimulados, é essa calda de ternura que nos mobiliza, dá força de vida e capacidade de trabalho para continuarmos.”

António Torrado admite que alguns autores não gostem: “Um escritor é um bicho do mato e pode ter receio de ser confrontado com as perguntas das crianças.” Como esta, que conta divertido: “Quantas vezes recebeu o Prémio Nobel?” Depois de responder “nenhuma”, o autor diz ter-se sentido “imediatamente descredibilizado”.

Para o escritor, só no convívio com as crianças é que lhe poderiam ter surgido brincadeiras com as palavras como a que uma menina motivou: “A almofada tem ‘fada’ dentro”, disse-lhe numa sessão. A seguir descobriram que “camaleão” tem um “leão” e uma “cama”. E foram surgindo mais palavras dentro de outras.