Velha FIFA, novo presidente

Após um ano marcado pelos casos de corrupção e subornos, o organismo que tutela o futebol mundial vai eleger um novo presidente. São cinco os candidatos à sucessão de Joseph Blatter na liderança da FIFA, mas não se perspectiva uma mudança radical nos hábitos instalados na hierarquia da instituição.

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A plateia do último Congresso da FIFA RUBEN SPRICH/Reuters

Na última vez que a FIFA foi a eleições, em Maio de 2015, os dirigentes do futebol mundial ainda dormiam descansados. Mas, dois dias antes do congresso em que Joseph Blatter seria reeleito para um quinto mandato consecutivo, houve agentes da polícia a bater à porta dos quartos de hotel de vários responsáveis, às 6h, para detê-los. A investigação da justiça dos EUA às ligações entre dirigentes do futebol e empresas de marketing provocou um abalo sem precedentes no organismo que tutela o futebol mundial.

Essas eleições realizaram-se na mesma, Blatter foi aclamado, mas duraria apenas quatro dias: com a reputação da FIFA pelas ruas da amargura, acossada por escândalos de corrupção e subornos, o suíço de 79 anos viu-se forçado a abdicar do trono e abriu caminho à realização de novas eleições. Cinco candidatos disputam nesta sexta-feira a sucessão ao homem que liderou o futebol mundial durante praticamente 18 anos. Mas será que se está perante o início de uma verdadeira mudança?

Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa (Bahrein), Gianni Infantino (Suíça), Ali Al Hussein (Jordânia), Jérôme Champagne (França) e Tokyo Sexwale (África do Sul) vão disputar o título de nono presidente eleito em 112 anos de história da FIFA — Issa Hayatou assumiu a liderança de forma interina, após a renúncia de Blatter. Mas presidir ao organismo que tutela o futebol mundial será um desafio de dimensões colossais, em função de tudo o que se tem passado. Mais de dois terços dos adeptos não confiam na FIFA, segundo uma sondagem feita pela organização não-governamental Transparency International junto de 25 mil adeptos em 28 países, e 60% admitiram ainda que não escolheriam nenhum dos candidatos à presidência.

De facto, os cinco estão ligados, de uma forma ou outra, ao que a FIFA foi nos últimos anos. “Querido presidente, pode estar seguro que a família do futebol asiático está firmemente consigo”, dizia Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa, em Abril, dirigindo-se a Blatter. “Respeito muito todo o trabalho que ele fez”, afirmou Gianni Infantino sobre Blatter, sem excluir a hipótese de o fazer presidente honorário da FIFA. Tokyo Sexwale: “O trabalho de Sepp Blatter é um monumento. Uma montanha que não pode ser movida”. “A história julgará Sepp de forma gentil”, disse Jérôme Champagne. Ali Al Hussein, o único a ir a votos contra Blatter em Maio (recolheu 73 contra os 133 do recandidato), será o candidato cuja imagem mais se distancia do poder instalado. Mas desta vez parece correr por fora.

“O melhor que os candidatos à eleição da FIFA têm para oferecer é que podem não tornar as coisas piores do que eram com Joseph Blatter”, escreveu Marina Hyde no diário britânico The Guardian. “O nauseabundo do processo eleitoral (...) é que está a decorrer como se não fosse nada, como se o tsunami de escândalos que empapou a FIFA no último ano não tivesse ocorrido”, acrescentou John Carlin, no diário espanhol El País, enfatizando: “Os cinco candidatos que se apresentam provêm dessa mesma cloaca ‘fifeira’ e os 209 indivíduos que neles vão votar, dirigentes das várias federações mundiais, são quase todos os mesmos que tiveram o descaramento de tornar a votar por maioria esmagadora em Blatter, pela quinta vez consecutiva, um par de dias depois de o FBI ter detido sete dos seus compinchas num hotel de Zurique.”

Segunda volta provável

São vários os dossiers que aguardam pela chegada de um novo presidente. “O sucessor de Joseph Blatter na presidência vai tomar as rédeas de uma organização fragilizada por uma crise sem precedentes e vai enfrentar um imenso desafio: recuperar a confiança numa instituição descredibilizada”, escreveu a agência AFP. A lista de tarefas inclui restaurar uma imagem degradada, reformar a governação da FIFA, recuperar a confiança dos patrocinadores e gerir os procedimentos internos e os processos judiciais para expurgar as más práticas.

Uma sondagem feita pela agência AFP junto das 209 federações que fazem parte da FIFA dava vantagem a Gianni Infantino, mas ainda longe da maioria necessária para ser eleito. Apenas 100 associações assumiram à AFP o apoio a um dos candidatos — e há demasiadas incógnitas para o suíço dar a eleição por fechada. O secretário-geral da UEFA terá do seu lado os votos da maioria das federações europeias, mas Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa deverá contar com o apoio dos asiáticos e, talvez, dos africanos. Nas Américas é previsível uma divisão de votos.

Antes da eleição do novo presidente, o congresso da FIFA irá votar um conjunto de medidas para reformar o funcionamento da instituição, incluindo limitação de mandatos dos altos responsáveis (três mandatos de quatro anos), redistribuição de poderes e transparência dos rendimentos dos dirigentes. São precisos três quartos dos votos para aprovar as reformas e demonstrar que há na FIFA vontade de mudança. Mas também nisto os votos são uma autêntica incógnita.