Aqui dança-se debaixo do peso da existência

Num exclusivo nacional, o grego Dimitris Papaioannou apresenta esta quinta e sexta-feira no Theatro Circo, em Braga, a peça Still Life, um conto existencialista ou uma elegia da classe trabalhadora.

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Dimitris Theodoropoulos
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Miltos Athanasiou

Durante um período razoável, o coreógrafo grego – ou melhor, o autor de peças para o palco, designação proposta pelo próprio – Dimitris Papaioannou , “embora viesse do avant-garde, tinha o privilégio de ser uma estrela pop”. Tudo porque lhe coube coreografar as cerimónias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas.

Se essa popular e muito elogiada celebração da cultura grega (que diz ter de carregar enquanto criador) lhe colou uma aura pouco condizente de figura de leveza pop, fez dele um dos poucos artistas gregos afortunados – “talvez mesmo o mais afortunado”, arrisca ao PÚBLICO – quando a crise financeira se abateu com estrépito sobre a Grécia.

Ao invés de se ver numa situação de precária sobrevivência artística, a internacionalização das suas obras já estava assegurada e o acesso a excepcionais meios e oportunidades para apresentar as suas criações mantiveram-no à tona. “Foi muito estranho para mim que tivesse na altura muitos meios para desenvolver a minha arte”, confessa.

Talvez em reacção a essa estranheza e a essa pele desconfortável, não enveredando por peças abertamente políticas, Papaioannou partiu para Primal Matter, em 2012, pensando que “a atitude mais útil para um artista seria aceitar que era tempo de criar novamente a partir de nada”.

Voltou aos palcos após uma ausência de dez anos, investiu num elenco reduzido (além dele, apenas mais um intérprete), reciclou objectos de cenários de obras anteriores e apresentou o resultado num armazém. “Pensei que devia tentar criar o máximo de poesia possível com os menores meios possíveis”, explica.

Essa preocupação continuava activa quando recebeu a encomenda para a peça que havia de vir a chamar-se Still Life, e que é apresentada esta quinta e sexta-feira no Theatro Circo, em Braga, num exclusivo nacional que põe termo ao ciclo A Dança Dança-se com os Pés.

Depois da estreia no ateniense Centro Cultural Onassis, em 2014, Still Life foi acumulando um notável sucesso internacional – em Outubro passado, esgotou quatro noites no Théâtre de la Ville, em Paris – e foi-se acentuando a inevitável leitura política de uma peça que coloca em palco o mito de Sísifo, iniciando-se com um homem que no seu melhor traje de escritório arrasta penosamente às costas um bloco de pedra.

Se Sísifo foi condenado pelos deuses a repetir diariamente um mesmo trabalho, facilmente se veria nesta reflexão sobre o mundo laboral um castigo de instâncias europeias e mercados, essas entidades distantes e omnipotentes capazes de esmagar um cidadão.

Papaioannou não desvaloriza tais interpretações, se bem que o seu ponto de partida foi, antes de mais, O Mito de Sísifo, obra do escritor francês Albert Camus. “Tinha algumas ideias para a peça e na altura estava a ler o livro do Camus pela terceira vez”, relata. “Estava também obcecado com o cientista Nikola Tesla e interessado na interacção de alguns materiais com o corpo humano. Foi com estes elementos que comecei a trabalhar.” Mais do que uma transposição do mito para palco, Papaioannou debruça-se sobretudo a meditar sobre “como vivemos aqui em baixo e queremos estar lá em cima”, como o peso físico da existência é constantemente seduzido por “uma leveza espiritual”.

A beleza como valor

Muito mais do que escravo do trabalho, Papaioannou vê o homem de hoje como “escravo da existência”. Ainda assim, fala de Still Life como passível de ser lida em simultâneo como um conto existencialista e uma elegia da classe trabalhadora. O certo é que o próprio criador não se sente inteiramente habilitado a discutir o conteúdo desta ou de qualquer outra obra da sua autoria. Still Life continua a ter “zonas misteriosas e abertas” – “e se pudesse realmente falar sobre isso”, acrescenta, “não teria razão alguma para fazer esta peça; a experiência do teatro acontece através de muitos canais diferentes de comunicação e a compreensão é apenas um deles”. Só já numa fase final, diz conseguir “voar mais alto e ver o todo”.

Aos 51 anos, acredita que nunca tanto como agora sente que se encontra “em lugar nenhum”. “Quando era mais novo achava que sabia mais. Agora não, estou a começar a trabalhar numa nova peça e é novamente uma viagem para lugar nenhum.” O certo é que nesse lugar nenhum há uma série de coordenadas que se infiltram sempre – as imagens de Magritte, as atmosferas de Samuel Beckett, os filmes mudos, o seu background na comédia, “o fardo de um passado glorioso e o fardo de uma modernidade destruída”, ou simplesmente a beleza. Essa beleza enquanto “valor para a vida”, longe da mundanidade observável em revistas de moda ou na cirurgia estética. “A beleza como base da antiga civilização grega”, concretiza. Acredite-se: isto anda tudo à solta, em doses preciosas e comedidas, em Still Life.