Paulo Ferrão é o novo presidente da FCT

Os investigadores Miguel Castanho, Isabel Ribeiro e Ana Sanchez são os restantes membros do conselho directivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

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Paulo Ferrão dirigiu até agora o programa MIT-Portugal Ricardo Campos

A nomeação de Paulo Ferrão como o novo presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) foi aprovada esta quinta-feira em conselho de ministros. A tomada de posse do novo conselho directivo da principal entidade de financiamento público da investigação científica do país, tutelada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, será na próxima quarta-feira, 10 de Fevereiro.

Professor catedrático do Instituto Superior Técnico (IST), de 53 anos, Paulo Ferrão era desde 2006 o director nacional do programa MIT-Portugal, uma parceria internacional de diversas universidades e instituições portuguesas com o famoso Instituto de Tecnologia do Massachusetts (nos Estados Unidos) na área de sistemas de engenharia, promovido pela FCT.

Doutorado em engenharia mecânica, especializou-se em sistemas sustentáveis de energia e ecologia industrial. A sua carreira científica centra-se na energia e na ecologia industrial, tendo trabalhado em áreas como a gestão de resíduos e sistemas urbanos. Neste contexto, refere um comunicado de imprensa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Paulo Ferrão foi coordenador dos grupos de trabalho que elaboraram o Plano Nacional de Gestão de Resíduos e o Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos (PERSU 2020).

Esteve também entre os fundadores, em 1998, do Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento (IN+) do IST, que era dirigido por Manuel Heitor até à sua ida para o actual Governo como ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Paulo Ferrão era agora o director do IN+, bem como da Iniciativa em Energia do IST e do programa de doutoramento em Sistemas Sustentáveis de Energia.

“O grande desafio vai ser pôr a FCT ao serviço da comunidade científica toda”, começou por dizer Paulo Ferrão esta quinta-feira ao PÚBLICO após a notícia da sua nomeação. “Unir, de facto, os centros de investigação, as universidades e os investigadores. Temos de tentar todos juntos ligar mais as diferentes partes, para servir melhor a comunidade científica e aumentar a dignidade da FCT e dos investigadores. Há desconfiança entre as partes e temos de criar confiança”, acrescentou o novo presidente da FCT.

Para esse envolvimento entre a comunidade científica, Paulo Ferrão defendeu ainda a ideia de co-responsabilização. Por exemplo, no passado, programas de contratação de investigadores doutorados eram pagos apenas pela FCT. “Era só a FCT a avançar com financiamento”, disse Paulo Ferrão, acrescentando que se calhar as universidades poderiam ter uma participação no co-financiamento.

Outros desafios? “Trabalhar muito para que o conhecimento gerado possa ser aproveitado em termos económicos – ou seja, fazer a ligação às empresas. E tentar eliminar o mais possível a burocracia”, considerou ainda.

O novo conselho directivo da FCT é ainda composto pelo vice-presidente Miguel Castanho e pelas vogais Isabel Ribeiro e Ana Sanchez. Desde 2007, Miguel Castanho era professor catedrático de bioquímica da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e, em 2011, assumiu aí as funções de subdirector. Coordenava um grupo de investigação que integra o Instituto de Medicina Molecular.

Licenciada e doutorada em engenharia electrotécnica no IST, onde também é professora catedrática desde 2005, Isabel Ribeiro é ali investigadora do Instituto de Sistemas e Robótica. Por fim, Ana Sanchez – que se licenciou em biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e se doutorou em 2001, também em biologia, na Universidade Católica de Nijmegen (Holanda), através do Pograma Gulbenkian de Doutoramento em Biologia e Medicina – começou por se dedicar à investigação no Instituto de Tecnologia Química e Biológica, em Oeiras, onde agora coordenava o Gabinete de Comunicação e Divulgação de Ciência. Da sua actividade docente, destaca-se a criação e coordenação do mestrado em Comunicação de Ciência da Universidade Nova de Lisboa.

Esta nova equipa vai agora substituir a equipa de Miguel Seabra/Maria Arménia Carrondo à frente da FCT e que tinha sido escolhida pelo anterior governo de Pedro Passos Coelho. A investigadora Maria Arménia Carrondo tinha substituído na presidência da FCT o médico e investigador Miguel Seabra, que se demitiu em Abril de 2015. Foi mandatada para completar o mandato dele, que terminava no final de Dezembro.

Miguel Seabra foi um dos principais rostos das políticas científicas do governo de Passos Coelho, iniciado em meados de 2011, e do seu ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, pelo que o então presidente da FCT foi um dos grandes alvos dos protestos da comunidade científica.

Primeiro, os bolseiros de investigação foram para a rua em manifestações contra cortes significativos no número de bolsas. Pouco depois, os centros de investigação científica começaram a criticar a última avaliação a que foram submetidos – para a atribuição de financiamento até 2020 –, devido à sua falta de qualidade, à mudança de regras durante o processo e à definição, à partida, de que cerca de metade dos centros “chumbaria”, o que significaria que nestes casos não receberiam dinheiro ou receberiam muito pouco. Problemas que o novo ministro da Ciência e a nova equipa da FCT vão agora ter de enfrentar.

A escolha da nova equipa dirigente da FCT foi anunciada após a conclusão da audição da comunidade científica sobre o futuro desta fundação. Para tal, o ministério criou em Dezembro um Grupo de Reflexão, composto por mais de 30 cientistas para discutir os princípios que devem orientar a FCT e a nomeação da nova direcção, e ouviu ainda diversas pessoas e instituições.

No relatório, do final de Janeiro, o Grupo de Reflexão identificou algumas “prioridades especiais”, que são problemas bem conhecidos na comunidade científica, como acabar com a precariedade do trabalho científico e promover o rejuvenescimento do corpo de investigadores, para atrair e fixar talentos e estancar a “fuga de cérebros”. Também se considerou importante reforçar a formação avançada através de doutoramentos. As avaliações, refere ainda o relatório, devem ser uma “função nuclear da FCT” e basear-se na “qualidade”. E em relação ao financiamento da ciência, o documento considera que a FCT deve apoiar o seu aumento e regularizar as transferências de fundos, para “ultrapassar o excessivo subfinanciamento actual por investigador em comparação com outros países da União Europeia e da OCDE”. 

Notícia corrigida a 8 de Fevereiro de 2016: o co-financiamento seria apenas para contratação de investigadores doutorados e não para projectos científicos.

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