A campanha foi na televisão, o after foi nas redes

Sem o ambiente polarizado que marcou as legislativas de Outubro, a campanha presidencial passou até ao último momento ao lado das redes sociais, onde a notoriedade virtual de alguns candidatos não encontrou qualquer tradução nas urnas.

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Miguel Manso

As redes sociais tiveram um reduzido impacto no desenrolar das presidenciais. Um dos sinais mais evidentes, para além do desinvestimento da candidatura vencedora de Marcelo Rebelo de Sousa nestas plataformas, foi o contraste entre a popularidade de Paulo Morais no Facebook, onde era o candidato com o maior número de seguidores (53 mil), e o parco resultado alcançado nas urnas. O ruidoso discurso anticorrupção de Morais, com uma grande aceitação nas redes, não se traduziu num voto de protesto (2% nas urnas).

Regressemos a Marcelo: 31 mil fãs no Facebook, ficando marginalmente atrás de António Sampaio da Nóvoa (32 mil) e muito longe de Morais, e uma gestão minimalista da presença na principal rede social. No entanto, foi sempre o nome mais discutido ao longo da campanha. A notoriedade não vem daqui, mas da exposição televisiva. Nóvoa, por seu turno, investiu numa campanha online com presenças cuidadas nas principais plataformas e o lançamento de uma aplicação para a smartphone, mas sem conseguir contestar a popularidade do adversário.

A quarta candidata nas redes foi Marisa Matias, com 27 mil fãs no Facebook e dois picos de notoriedade: a tempestade causada pela piada sobre o Sporting, que motivou uma nota da eurodeputada bloquista, e o desempenho favorável no debate televisivo a nove, na última semana de campanha. Mas se a gaffe futebolística de Marisa terá sido perdoada, a reacção muito hostil nas redes à tomada de posição de Maria de Belém Roseira no caso das subvenções vitalícias foi talvez o mais forte indício de um naufrágio nas urnas que as sondagens não chegaram a antever. Na noite de domingo, e pela segunda vez na mesma semana, a antiga presidente do Partido Socialista, com 18 mil fãs no Facebook, era um dos nomes mais comentados nas redes. Também agora pelos piores motivos, com a surpresa e sátira dos utilizadores perante o resultado eleitoral da candidata (4% dos votos).

Nota para os números da segunda metade do pelotão. Vitorino Silva, o Tino de Rans, era no Facebook o maior dos pequenos, com 15 mil fãs. Seguia-se Henrique Neto, com oito mil seguidores; Edgar Silva, com quatro mil fãs, e Jorge Sequeira, com três mil. Em último, Cândido Ferreira, com apenas 1040 seguidores. O médico leiriense protagonizou também nas redes a campanha com menor impacto, que apenas ganhou notoriedade quando o antigo líder distrital do PS deu voz às suspeitas relativas ao percurso académico de Sampaio da Nóvoa que, desde meados do mês, circulavam nas redes sob anonimato.

Contenção socialista, fúria comunista e Slimani em Belém
A campanha não se fez online, mas o rescaldo passou por ali. No campo socialista, as reacções aos resultados eleitorais foram contidas. João Soares, ministro da Cultura e apoiante de Maria de Belém, partilhava no Facebook uma fotografia do palanque vazio na sede de candidatura da antiga presidente socialista. Francisco Seixas da Costa também saudou a campanha “impossível” de Belém. Miguel Tiago, deputado comunista, tinha no Facebook a reacção mais violenta aos resultados de domingo: “Muitos dos eleitores que gritam querer Ricardo Salgado na cadeia votaram no amigalhaço que ia passar férias de luxo à pala com o banqueiro que roubou milhares de pessoas.”

À direita, baterias apontadas aos socialistas. No Facebook, Duarte Marques, deputado social-democrata, declarava o PS como “o grande derrotado da noite” e atribuía a António Costa “a terceira derrota consecutiva” nas urnas. Carlos Carreiras, autarca social-democrata de Cascais, satirizava sobre uma “reunião de emergência” no Largo do Rato com “grandes matemáticos e grandes politólogos”, sugerindo a presença de “bruxos, curandeiros, cartomantes e feiticeiros”. Michael Seufert, antigo deputado centrista, celebrava no Twitter o naufrágio de uma das candidaturas minoritárias: “A bem da democracia, Paulo Morais desaparece.”

Fora da espera política, e ao longo da jornada eleitoral, a tendência nas redes foi a partilha de fotografias de boletins de voto. Em muitos casos, com inscrições que anulariam o escrutínio, como o voto em candidaturas inexistentes, como a do avançado argelino do Sporting Islam Slimani ou o do protagonista do thriller político norte-americano House of Cards, Frank Underwood. 

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