Will Smith não vai aos Óscares: “Seria estranho"

O actor vai juntar-se ao protesto iniciado pela sua mulher, Jada Pinkett Smith. Para Will Smith, que já foi nomeado aos Óscares duas vezes, a indústria está a caminhar na direcção errada.

Will Smith e Jada Pinkett Smith não vão estar nos Óscares deste ano em protesto pela ausência de actores negros nomeados
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Will Smith e Jada Pinkett Smith não vão estar nos Óscares deste ano em protesto pela ausência de actores negros nomeados Reuters

Will Smith juntou-se ao protesto iniciado pela sua mulher, a actriz Jada Pinkett Smith, e revelou nesta quinta-feira que também ele vai boicotar os Óscares. O actor norte-americano não vai à cerimónia dos prémios de Hollywood, marcada para 28 de Fevereiro. “A minha mulher não vai. Seria estranho aparecer com a Charlize [Theron]”, brincou Smith no programa Good Morning America.

No centro da polémica está a ausência de actores negros nomeados aos Óscares, pelo segundo ano consecutivo. A controvérsia já tinha sido grande no ano passado mas este ano multiplicam-se as reacções e a hashtag #OscarsSoWhite nunca teve tanto impacto. A discussão subiu de tom esta semana, depois de a actriz Jada Pinkett Smith e o realizador Spike Lee terem defendido um boicote aos prémios mais importantes do cinema. Boicote, esse, que não passa apenas por faltar à cerimónia mas também por não fazer parte da audiência em casa. Eles não vão aos prémios, nem vão acompanhá-los na televisão.

“Não nos sentimos confortáveis em estar lá e dizer que aquilo está bem”, disse o actor nesta quinta-feira, na sua primeira entrevista depois do apelo da sua mulher no Facebook, revelando ter discutido a questão com Pinkett Smith, que nesta segunda-feira publicou um vídeo a mostrar a sua indignação. A actriz admite que que a Academia tem o direito de convidar e reconhecer quem quiser, mas sugere que este é o momento para a comunidade negra se afastar dos Óscares.

Para Will Smith, que este ano era apontado como um candidato à nomeação de Melhor Actor pelo seu papel em A Força da Verdade, de Peter Landesman, o aclamado sonho americano passa pela igualdade de acessos a todas as pessoas. “A diversidade é o superpoder dos Estados Unidos, é por isso que somos grandes. Tantas pessoas diferentes de tantos lugares diferentes a contribuir com as suas ideias e influências”, começou por dizer o actor, defendendo que Hollywood, “no seu melhor, representa e cria o imaginário para essa beleza”.

“Mas, no que me diz respeito, sinto que tenho de proteger e lutar pelos ideais que sinto que fazem do nosso país e de Hollywood grandes”, continuou Smith, para quem as nomeações deste ano “não reflectem essa beleza”.

Will Smith, de 47 anos, lembrou na entrevista que já foi nomeado duas vezes para os Óscares. “E nunca perdi para uma pessoa branca.” Em 2002, o actor foi nomeado com Ali e perdeu para Denzel Washington e em 2007 voltou a ser escolhido com Em Busca da Felicidade – venceu Forest Whitaker.

“Para mim, aquilo foi enorme”, lembrou Smith, assumindo que este tema da discriminação é muito complexo porque todos os actores “são fantásticos”. Mas olhando para trás, “parece que estamos a ir na direcção errada”. “As nomeações reflectem a Academia, a Academia reflecte a indústria e a indústria reflecte a América, reflecte uma série de desafios que estamos a enfrentar neste momento no nosso país”, explicou o actor, que nota um desvio para o “separatismo”, numa “desarmonia racial e religiosa”. “Não é esta Hollywood que quero deixar para trás.”

Quando questionado sobre a iniciativa da sua mulher, Smith revelou que não sabia que Jada Pinkett Smith tinha a intenção de gravar o vídeo que entretanto se tornou viral, somando já mais de 11 milhões de visualizações. O actor estava fora do país e chegou no meio do furacão.

“Quando ela decide que tem de fazer alguma coisa, tem de fazer. Eu ouvi as suas palavras e fiquei estarrecido, feliz por estar casado com esta mulher”, disse o actor, louvando a atitude da mulher em defesa da comunidade negra. Will Smith não nega que não ter sido nomeado possa ter influenciado a acção de Pinkett Smith, mas não duvida que a actriz teria feito o mesmo se Smith nem um eventual candidato fosse. “Isto não é mesmo sobre mim. É sobre as crianças que se vão sentar e vão ver a cerimónia e não se vão ver representadas”, garantiu.

A pressão cai agora em cima de Chris Rock. O actor e humorista é o apresentador dos Óscares deste ano mas desde que a polémica estalou que tem sofrido pressões para desistir da cerimónia. Chris Rock ainda não fez qualquer comentário ao caso. Publicou apenas um vídeo na semana passada a promover a entrega das estatuetas com a legenda “The #‎Oscars. The White BET Awards.”, referindo-se ao Black Entertainment Television, o canal americano que tem como público-alvo a comunidade negra.

O rapper 50 Cent publicou no Instagram uma fotografia de Chris Rock, pedindo-lhe que não apresente os Óscares. “Significas muito, não o faças. Por favor.”

Desde que Spike Lee e Jada Pinkett Smith apelaram ao boicote que cada vez mais nomes do meio se têm manifestado: Idris Elba, George Clooney, Will Packer, Snoop Doog. A última das críticas vem de Dustin Hoffman, que nesta quarta-feira reagiu aos jornalistas em Londres classificando de “racismo subliminal” a inexistência de actores negros nomeados.

Também Lupita Nyong’o, que em 2014 recebeu o Óscar de Melhor Actriz Secundária pelo seu papel no filme 12 Anos Escravo, não deixou passar em claro a discussão e no Instagram mostrou-se “desiludida pela falta de inclusão”. A actriz queniana diz estar ao lado daqueles que pedem uma mudança, defendendo que os prémios deviam “ser um reflexo diverso do melhor que a nossa arte tem para oferecer hoje”.

Mark Ruffalo, um dos 20 actores brancos nomeados (na categoria de Melhor Actor Secundário, com O Caso Spotlight), disse na ante-estreia do seu filme em Londres apoiar “na essência” o boicote aos Óscares, apesar de não faltar aos prémios. “Percebo completamente porque é que as pessoas estão a protestar. Têm de protestar”, disse aos jornalistas, citado pela BBC. “Só que estou num filme que representa todo um outro grupo de pessoas marginalizadas que não têm voz no mundo e este filme significa tanto para eles”, explicou, para justificar a presença nos Óscares.

O Caso Spotlight, realizado por Tom McCarthy, conta a história real da equipa de jornalistas do Boston Globe que investigou e desencadeou o escândalo de pedofilia na Igreja Católica, acabando por descobrir décadas de encobrimento nas mais altas instituições de Boston, não só da igreja como até do governo. O filme estreia esta quinta-feira em Portugal.