Não ficções

Thank you, Mr. Bowie (precisávamos de toda essa gente)

I never thought Id need so many people

(Five years, David Bowie)

1. Na Amazónia, o xamã é uma espécie de ligação directa ou um feixe de ligações. Liga não apenas os ancestrais aos vivos, como os vivos aos seus duplos internos e aos espíritos que os rodeiam (animais, vegetais, minerais ou objectos). No momento em que David Bowie morreu, domingo, 10 de Janeiro de 2016, eu estava no meio de vários xamãs em forma de livro. Ao acordar na manhã seguinte, li que Bowie morrera entretanto, e horas depois, quando a Terra já rodara o bastante para a notícia dar a volta, um ritual inédito acontecia online, ligando incontáveis indivíduos. Mais ninguém no planeta podia morrer assim, juntando tanta gente, cada um com os seus mortos, os seus duplos, os seus espíritos, toda essa gente que ele acendeu. Enquanto esteve vivo ao mesmo tempo do que nós, David  Bowie comutou-nos para o futuro: tudo o que podíamos ser. No momento em que morreu, comutou-nos para o passado: tudo o que fomos com ele. De uma forma ou de outra, em carne e osso, a caminho de imortal ou orbitando entre Marte e Júpiter, Bowie é um superxamã, um feixe de fios eléctricos, comutando todas as possibilidades, homem, mulher, animal, planta, espírito, duplo, terrestre, celeste, ancestral, futuro.

2. E a gente chora porque quer agradecer, claro, dançar o que ele dançou, cantar o que ele cantou, contar como foi para nós, como fomos felizes por um instante, heróis por um dia, aquela noite em que um disco salvou a nossa vida, as noites em que afinal não morremos, as manhãs em que já éramos outros. Fazemos aquilo que os vivos fazem aos mortos: para os tornarem imortais, e para continuarem vivos.

3. Como Bowie é Bowie, o ritual deste luto foi irradiante. Não era só que as estrelas estavam diferentes quando a 11 de Janeiro de 2016 acordámos sem ele cá em baixo. Imagino que visto do espaço, lá do asteróide 342843 a que a NASA chamou David Bowie, o planeta azul também devia estar mais glam-glitter do que nunca, brilhante de purpurina, de tanta gente a cantar e dançar Heroes, Rebel Rebel, Ziggy Stardust ou Young Americans. Vi isso acontecer online como nunca, toda aquela multidão planetária a agradecer à mesma pessoa, pintando a cara como ela, dizendo a letra de cor. A gravação do astronauta Chris Hadfield a fazer um cover de Space Oddity numa estação espacial alcançou quase 30 milhões de partilhas. Despertando da sua sesta, Miguel Esteves Cardoso voltou a escrever as pepitas de quando era um astronauta musical e percorria os álbuns das décadas. O Facebook virou o contrário de um velório de circunstância, porque tudo aquilo era mesmo a nossa história, espécie de rewind pessoal via David Bowie, fio eléctrico tocando no ponto maior do que a vida. Ele ocupou os sites dos jornais e voltou a haver jornais, e na manhã seguinte capas lindas. Your face, your race, the way that you talk, I kiss you, you’re beautiful, I want you to walk (como diz a letra da monumental Five Years, que ouvi vezes sem conta tipo desde os 14 anos, e tenho estado a ouvir em loop desde que ele morreu). Bowie sempre deu capas lindas, entre todas as coisas foi um/a pin-up sensacional. Quando em 2003 fiz uma reportagem em Londres a propósito do lançamento de um álbum dele, um amigo da adolescência de Bowie disse que ele já era um/a pin-up aos 17 anos. Só faltava as capas descobrirem, e não demorou mesmo nada. Bowie explodiu há tanto tempo que é espantoso pensar como dessa única vez em que o vi, actuando numa pequena sala atulhada de fãs, a 8 de Setembro de 2003, ele tinha apenas 56 anos. Dominando o palco como um/a stripper, despiu a casaca. Trazia outra por baixo, despiu, vestiu, despiu, até ficar de T-shirt justa, braços nus, enquanto dizia, sorrindo: You see…  I never get old. Era o título da canção que aí vinha, mas não apenas. Era verdade.

4. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, o álbum apocalíptico que abre com Five Years, está de certeza entre os que mais ouvi na vida, porque o ouvia tipo todos os dias no tempo em que se morria de overdose de heroína no meu liceu. Eu lia a biografia do Bowie, queria ir para Berlim ou para Marte, ter um olho de cada cor, viver em todas as épocas, e que ninguém mandasse em mim. Continuo a querer mais ou menos isso, também porque Bowie continuou a existir cá em baixo, e agora estará talvez sentado no ombro da minha constelação favorita, cruzando aquelas fantásticas pernas de pin up, sem deixar de ser asteróide e tudo o resto. Nunca pensei que ele deixasse uma coisa para ser outra, gosto da ideia de que foi expandindo a identidade através de espaços-tempos, como a versão pop extraterrestre do Orlando de Virginia Woolf, nem apenas homem, nem apenas mulher, nem apenas humano, nem apenas mortal.

5. Talvez Bowie seja de facto o homem que caiu na Terra, talvez esteja a voltar agora para provar que há vida em Marte, talvez tenha sido o índio que Caetano Veloso anunciou que viria. Em qualquer dos casos, ninguém na cultura popular roubou tanto para nos dar liberdade, e nada é tão poderoso quanto isso, sermos quem nem sabíamos. Dessa vez no Riverside Studio, em Hammersmith, Londres, 2003, havia uma parte com perguntas em directo de todo o mundo, e alguém de Oslo perguntou se quando Bowie estudara budismo quisera ser um mestre. Ele respondeu, claro, mas que o mestre dele reagira dizendo, deves estar a brincar. Concluo que era um bom mestre, porque viu como o caminho de David Bowie não seria apontar o caminho aos outros, mas ser tantos outros quanto possível.

6. Então, se Bowie roubou tudo, parece-me bem roubarmos aos deuses para o luto, mastigá-lo, fumá-lo, bebê-lo, como alguns xamãs acham que as divindades fazem, comer os grandes mortos de modo a que se tornem eternos. E, no caso de David Bowie, isso quer dizer também antídoto eterno contra os polícias de costumes que sujeitam e confinam, controleiros de como falamos, com quem dormimos ou de que forma usamos o corpo, essa carcaça do esplêndido milagre, porque cosmologicamente improvável, que é estar vivo.