"David Bowie é alguém que nos protege"

Depoimentos de Rita Redshoes, Rui Vieira Nery, Filipe Faísca, Zé Pedro, David Fonseca, João Paulo Feliciano e Paulo Nozolino.

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Figurino e botas de Ziggy Stardust (1972-73), na exposição de David Bowie no Victoria & Albert . FOTO Masayoshi Sukita © Sukita The David Bowie Archive

David Bowie “múltiplo”, David Bowie “transversal” e, claro, podemos mesmo começar pelo cliché David Bowie “camaleão”. Foi por esta transversalidade, pela dificuldade em classificá-lo e pela maneira como conseguiu dizer várias coisas a vários artistas, que começámos a conversa com vários criadores portugueses.

Rui Vieira Nery: “A arte total em que música e imagem se integram”

“Teve um impacto múltiplo. Do ponto de vista estritamente musical, reinventou-se como músico várias vezes, mudando de linguagem ou propondo a si próprio novos desafios musicais em quase todas as linguagens do pop e do rock”, diz o musicólogo Rui Vieira Nery.

Integrou a imagem na própria música, inciando um caminho que hoje é difícil separar da cultura pop/rock. “Foi talvez o primeiro músico moderno a ligar muito a mensagem musical à construção de uma imagem que é parte integrante da obra dele. Um pouco o que mais tarde sucederia com a Madonna e com músicos mais contemporâneos como a Lady Gaga. Há uma espécie de arte total em que a música e a imagem se integram de uma forma muito eficaz.”

Rui Vieira Nery pensa que quase tudo o que aconteceu nos últimos 30 anos na música popular urbana anglo-americana teve a marca directa ou indirecta de David Bowie. “E quando nós conseguíamos classificar David Bowie ele surpreendia-nos. Se pensarmos na personagem do Ziggy Stardust, mais exuberante, e depois num álbum como Let’s Dance, há uma coerência de personalidade, mas há uma procura muito renovadora.”  

Filipe Faísca: "Alguém que nos protege"

O designer de moda Filipe Faísca diz que de David Bowie “fica tudo”, se pensar no que ele lhe ensinou. “Primeiro é um sentido de pertença.” Mostrou-lhe que a sua intuição, a sua sensibilidade “fazem parte deste tempo e que podia continuar a criar de uma certa maneira”. Mostrou-lhe que não estava sozinho em termos de criação. “Há uma relação de amor com estas personagens, não é um guru, mas acaba por ser alguém que nos protege de uma certa maneira.”

Depois, há a sua relação com o género. "Há uma coisa muito importante que tem que ver com a relação entre feminino/masculino, quando um homem percebe esse balanço e convive bem com o seu lado feminino, aceita o seu lado feminino. Isso também acho fundamental."

Zé Pedro, Xutos & Pontapés: “Musicalmente muito à frente”

É à palavra "camaleão" que o guitarrista e fundador dos Xutos & Pontapés recorre para primeiro falar do registo de músicas que deixou — “uma história impressionante”. “Foi sempre uma pessoa muito atenta, muito moderna. Musicalmente muito à frente daquilo que os seus contemporâneos estavam a fazer.”

Era “um músico visualmente superatraente”, diz, lembrando não só os espectáculos, mas os vários livros de fotografia em que David Bowie era tema. “É impressionante como ele criava as imagens e vestia as suas próprias imagens. Era uma pessoa arty em todos os contornos da palavra, fazia música, fazia cinema, estava envolvido em montes de manifestações artísticas. Defendia a arte como ninguém, porque tinha a possibilidade e a inteligência para o fazer.”

David Fonseca, músico: "Muito livre na sua criação"

Quase no fim da conversa, o músico David Fonseca fala da estranha coincidência de ter passado a noite a ouvir o último disco de David Bowie, Blackstar. “Até hoje continuo a acompanhá-lo de uma forma fulgurosa. Não consigo dizer uma altura com que me identifique mais, porque é um daqueles artistas de que conheço a carreira inteira. Isto é uma coisa que muitos músicos dirão. Sou um grande fã do Hours, um dos discos mais recentes.”

Foi na adolescência que começou a ouvi-lo, através do Bowie mais massificado dos anos 1980, de Let’s dance, Blue jean, Loving the alien ou This is not America. “Mas depois, obviamente, como quem se interessa por música, com uma figura tão incrível como David Bowie, acabei por acompanhar a carreira toda dele.”

David Fonseca diz que acabamos sempre no lugar-comum do camaleão, mas Bowie conseguiu, de facto, ser muitas coisas diferentes ao longo da carreira. “Teve mutações muito estranhas e até bastante duras para o público mais massificado. É muito raro uma pessoa viver uma carreira tão longa e ter sempre público independentemente do que faça, seja mais complexo, seja mais simples.”

Em David Bowie tudo faz parte. “Há uma componente visual muito forte. Em muitos sentidos foi pioneiro, logo nos anos 70." Uma história que pudemos acompanhar na retrospectiva sobre a sua carreira que o museu londrino Victoria & Albert lhe dedicou em 2013. “Grande parte da exposição tinha que ver com a forma como se apresentava, a roupa que usava, tudo aquilo era uma linguagem que não era apenas a música, mas que fazia parte dessa ideia criativa.”

O músico diz que não vai chegar ao exagero de dizer que toda a gente que faz música foi influenciada pelo britânico, “mas grande parte das pessoas que está no ramo ou se interessa por música tem uma admiração grande por David Bowie”. E podemos terminar por onde David Fonseca começou, pela razão por que Bowie diz tanto a tantos artistas: “Porque parecia muito livre na sua criação.”

João Paulo Feliciano, músico e artista plástico: "Agora é a parte da minha vida em que Bowie não está"

João Paulo Feliciano, músico e artista plástico, não sabe quando começou a ouvir a música de David Bowie. “Desde que eu cá estou ele sempre cá esteve. Agora é a parte da minha vida em que eu estou cá e ele não está.” Como todos os grandes artistas, David Bowie transcendeu o centro da sua acção. “Ele era um artista que utilizava a música como o seu principal veículo, mas aquilo que lhe interessava era uma coisa muito mais profunda e transcendente. É muito óbvio que pensava o seu trabalho artístico como um todo, que transcendia os sons, os acordes, as letras, a coisa mais objectivamente musical.”

Era um universo poético, de metáforas, que passava muito no caso dele por usar o seu corpo como suporte: “David Bowie era um performer, porque o músico não existe sem ser a pessoa com o seu corpo, mas embebia-o de uma dimensão que transcendia a pura ‘função’ de dar corpo à música.”

Paulo Nozolino: “We can be heroes, just for one day

“Embora não seja um fã incondicional de Bowie, tinha por ele um respeito brutal.” O músico britânico tem acompanhado a vida do fotógrafo Paulo Nozolino dos tempos de Londres, nos anos 70, até agora, tendo assistido a vários concertos. “O que me afecta é que ele escreveu grandes canções. Passei a manhã a ouvir o Heroes. Foi sempre uma canção que me levantou os espíritos, quando me sentia mal ouvia o Heroes muito alto e qualquer coisa acontecia. Mas também gostava muito de canções como Warszawa, do Low, mais pesada, que também faz parte da Trilogia de Berlim. O Bowie foi um companheiro nos altos e nos baixos. Quando se ouvia um Bowie, ia-se inevitavelmente dançar.”

Mas o que marca Paulo Nozolino é a criatividade de David Bowie, o músico estar sempre um passo à frente. “Nunca se saber o que vai fazer. Há muito poucos artistas que conseguem ter essa capacidade de renovação permanente, de ser um camaleão, de estar sempre a mudar.”

O Blackstar ainda não o ouviu todo, mas com The Next Day percebeu que qualquer coisa se estava a passar na vida pessoal de David Bowie. “Pareceu-me quase um álbum de despedida, mas ainda havia uma esperança, enquanto neste se sente que realmente é um álbum de despedida. Blackstar é uma canção brutal que dura nove minutos.”

É um dia triste, diz Nozolino, porque era um talento e morre novo: “We can be heroes, just for one day.

Rita Redshoes, música: "Uma enorme referência na ousadia"

O nome artístico de Rita Redshoes é uma homenagem à canção Let’s Dance, de Bowie, e ao filme O Feiticeiro de Oz. “Era pequeníssima quando foi lançada, mas a questão das personagens e o facto de Bowie não se acomodar são para mim o fio condutor daquilo que também procuro na minha música. David Bowie será sempre uma enorme referência nessa ousadia e nessa tentativa de não termos medo de nos transformar.”

Rita Redshoes acha que “o sentido puro da arte” tem exactamente a ver com essa atitude de “nunca descansar”. “Transformar-se noutras pessoas, pôr-se noutras perspectivas. Isso é uma sensação que passou sempre ao longo da carreira dele, não só para músicos, obviamente, mas para outros artistas, como artistas plásticos, cineastas, etc. Acho que é o artista que melhor conseguiu isso na sua vida e na sua carreira.”