O novo ano vai precisar da energia das Savages

Depois de um primeiro disco, e de concertos inesquecíveis, em que devolveram vigor e drama ao rock, as inglesas estão preparadas para introduzir mais uma dose imparável de adrenalina, com muito amor, em 2016.

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DUSTIN COHEN

É difícil pensar em alguém como ela no panorama rock actual, abordando o palco com uma intensidade primitiva, embora a sua movimentação pareça delineada de forma quase militar.

Ao telefone, Jehnny Beth, a cantora das Savages, é bem mais relaxada. “Só um ser sobre-humano conseguiria viver 24 horas sobre 24 horas imerso no tipo de adrenalina que se desencadeia em palco”, ri-se ela, quando a provocamos com a analogia.

“Dou-me em palco, sou eu em estado bruto, mas tenho noção de que ali é tudo maior do que a vida. Existe uma energia, uma corrente, que é das coisas mais inacreditáveis que se podem sentir.” É isso. Ao vivo, as inglesas são especiais. E expressivas. “Cresci a ouvir cantores como Jacques Brel, dramáticos no modo como comunicam com o corpo, as mãos, a face. Acho que isso ficou.”

Não é só a disponibilidade para o grito, a exposição sem simulacros. É fazê-lo com intencionalidade. O som é catártico e contundente, sem ser primário. O baixo de Ayse Hassan e a bateria de Fay Milton pulsam com dinamismo. A guitarra de Gemma Thompson é incisiva. E a voz e a presença de Jehnny são carismáticas, desafiantes, sensuais, olhos nos olhos com o público.

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Há quatro anos, tinham horizontes diferentes. Jehnny era a exilada em Londres; Gemma, a roqueira; Asye, a baixista de origem turca, dedicava-se a obras de caridade; Fay, a baterista, estava próxima da música de dança DUSTIN COHEN

Com elas o vigor voltou ao centro de acção do rock. Existe qualquer coisa de negro nas Savages, uma violência surda, uma experiência dos limites, transcendendo inúmeras influências (Stooges, Sonic Youth, Birthday Party, Suicide, P.I.L., Can, Swans) para tudo desembocar numa música rock frontal e física.

Coisa rara no rock actual: não existem apenas para entreter. Acreditam mesmo que têm coisas para dizer. “Gostamos de pensar nas implicações do que fazemos, seja a nível pessoal ou na relação com o que nos rodeia. A música tem essa capacidade de originar sentimento de pertença, de juntar pessoas à sua volta, de as fazer perceber que não estão sós, e isso é uma força incrível.”

O álbum de estreia, Silence Yourself (2013), e os concertos mundo fora que se lhe seguiram granjearam-lhes um culto que talvez não fosse de esperar. Afinal a sua música não conforta, provoca; não envolve, golpeia. Mas a verdade é que o novo álbum, Adore Life, que chega às lojas no dia 22, é um dos registos mais esperados dos primeiros meses do ano, ao lado dos discos de David Bowie ou de PJ Harvey, curiosamente duas das referências mais salientes da cantora.

Urgência
Depois do sucesso, as Savages poderiam regressar com uma sonoridade mais domesticada, mas não. A sua reacção perante a difícil prova do segundo álbum foi tornar o som mais estrondoso, mais grandioso, mais dissonante e também mais contrastante. Há canções virulentas (T.i.w.y.g., The answer), mas também há temas de balanceamento rítmico com bateria e baixo em destaque (Evil, Surrender) ou momentos introspectivos (Adore, Mechanics).

O que há também é esse paradoxo: letras que falam de amor, em todas as suas dimensões, da complexidade romântica ao nível mais universalista, mas povoadas por um som agressivo.

“Fizemos o que quisemos”, afirma ela, quando lhe perguntamos se não se sentiram pressionadas. “Essas situações existem sempre, mas é preciso não as confundir com imposições. Tudo o que se ouve neste álbum resulta de opções muito conscientes da nossa parte, não existiu ninguém a limitar-nos quanto ao que fazer. Essa aparente contradição entre um som virulento com emoções poéticas sobre a vida e o amor agrada-nos, porque em vez de simplificar adiciona ainda mais camadas de leitura ao que fazemos.”

O primeiro álbum foi gravado quase como se fosse um concerto em estúdio, com as quatro a tocarem em simultâneo como se estivessem em palco. A aproximação ao novo disco, explica Jehnny, foi diferente. “Tivemos tempo para pensar, para gravar os diferentes instrumentos de forma separada e até para errar, o que é fundamental em processos criativos. Foi interessante ver crescer as canções, experimentar e procurar alguns tipos de som muito particulares que se fossem adaptando ao que desejávamos.”  

Inicialmente o grupo fechou-se num pequeno estúdio, mas depois de algum tempo sentiu que as canções estavam a sair invariavelmente num registo mais tranquilo. Então as Savages tiveram de ir apanhar ar. Mais exactamente para Nova Iorque.

“Há cerca de um ano demos uma série de concertos intimistas em Nova Iorque que acabaram por servir de teste às canções. Estávamos a precisar de adrenalina, do confronto com as pessoas, e esses concertos foram decisivos em algumas opções.” Ou seja, as canções foram pensadas para serem expostas em palco? “Não diria tanto, mas essa preocupação estava lá. Queríamos ter um disco que respirasse essa urgência.”

Ao longo da conversa, palavras como intensidade e urgência são muitas vezes utilizadas. Mas ela faz questão de desfazer eventuais equívocos: “A vulnerabilidade, a forma como nos expomos perante os outros, pode ser das coisas mais veementes do mundo. Intensidade pode ser mostrarmo-nos aos outros, não apenas no sentido da relação entre duas pessoas, mas no sentido mais lato, de partilhar e mostrar afecto pelos outros.” 

Dir-se-ia que no primeiro álbum as Savages expunham uma sonoridade e uma atitude de confrontação, como se quisessem apontar o dedo ao que estava errado. Agora procuram algumas respostas para um mundo em transição que não as parece encontrar. “Na escrita das canções concentrei-me em histórias de pessoas que tiveram a coragem de mudar, que recusaram a morte lenta, optando pela vida, que em vez de passarem o tempo a dizer não foram capazes de dizer sim”, afirma Jehnny. “Estamos a viver tempos muito estranhos, com muita gente desiludida e perdida, sem horizonte. Não temos as respostas certas. Ninguém as tem. Mas acreditamos que contra as vias únicas que por vezes nos tentam impor existem alternativas, que é possível ter uma vida decente sem abdicarmos da liberdade.”

Em The answer chegam mesmo a cantar: “Love is the answer”. Cada pessoa terá a sua própria interpretação do que ouve, não temos nenhuma receita para oferecer, mas para mim, sim, por vezes o amor pode ser uma das respostas possíveis contra o ódio, o medo, a descrença. Eu sei, é fácil dizer isto. Parecem só palavras. Mas alguém acredita que o individualismo é a solução? Respeitar os outros, ser honesto e sempre que possível generoso: parece-me que o caminho é mais por aí.”

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Depois do sucesso, as Savages poderiam regressar com uma sonoridade mais domesticada, mas não. Tornaram o som mais estrondoso, mais grandioso, mais dissonante e também mais contrastante. Enric Vives-Rubio

A canção central do disco parece ser Adore (com Jehnny a perguntar de início “Is it human to adore life?”, para terminar de forma triunfal a gritar “I adore life!”), inspirada num livro que a poetisa americana Minnie Bruce Pratt escreveu depois de perder a custódia dos dois filhos por ter trocado o marido por uma mulher. Durante dez anos, Minnie não viu os filhos, e o livro reflecte a culpa que adveio dessa razão. “O que me interessou foi o facto de ela ter conseguido encontrar a sua voz como poetisa depois de toda aquela agressão e violência emocional. O álbum acaba por reflectir muito como ao longo da vida morremos várias vezes – simbolicamente – para ressuscitarmos de seguida.”

Música contra o ódio
Quando falámos com Jehnny, as Savages tinham dado há poucos dias um concerto em Paris, na ressaca dos atentados terroristas ocorridos na capital francesa em Novembro. Para ela, francesa, de seu verdadeiro nome Camille Berthomier, vivendo em Londres há quase dez anos (mudou-se para ali para dar novo fôlego ao seu anterior projecto, John & Jehn, e à editora que mantém activa, a Pop Noire), foi uma circunstância muito emocional. 

“Foi estranho e intenso ao mesmo tempo. Para muitas pessoas era o primeiro concerto depois dos atentados, ou a primeira vez que saiam para um espaço público, e para nós era também especial”, diz. Não apenas por ser francesa. No ano passado, os Eagles Of Death Metal haviam-na convidado para cantar no seu álbum. Existia também esse vínculo. “Foi uma noite peculiar”, diz, acrescentando que “agora é preciso não desistir” e combater o ódio com música. “Não creio que a maior parte das pessoas em Paris tenha conseguido regressar às suas rotinas, mas estou certa de que acontecerá. O medo não pode paralisar.”

A conclusão desse concerto – e de quase todos – deu-se com Fuckers, o longo single de dez minutos editado entre os dois álbuns, com elas a lançarem uma última mensagem aos parisienses, “Don’t let the fuckers get you down, don’t let them take away this song”, num tema em crescendo, cerimonial e dissonante. “Gosto de alguma neurose na música”, diz Jehnny, e temas como Fuckers contêm essa dimensão, física e directa. “É a nossa prenda para quem se sente oprimido por burocratas ou gente negativa e em determinados momentos sente necessidade de dizer basta!”, lança ela, rindo-se. “Há alguns momentos da vida em que temos de dar um murro na mesa, espero que Fuckers funcione como estímulo para isso.”

Em palco, hoje, as Savages formam um bloco. Mas há quatro anos, quando começaram, pareciam ser raparigas com horizontes muito diferentes. Jehnny era a exilada em Londres. Gemma, a mais roqueira. Asye, a baixista de origem turca que se dedicava a obras de caridade e a ouvir pós-punk. E Fay, a baterista, estava mais próxima da cultura da música de dança do que do rock. “Conhecemo-nos bem na actualidade, tocamos melhor e sabemos adaptar-nos às circunstâncias, crescemos imenso nos últimos anos”, reflecte Jehnny, assumindo que todas participam na maior parte das decisões. “Mesmo com as letras, apesar de ser eu a escrevê-las, existe o cuidado de falarmos entre nós para que todas se sintam envolvidas. Claro que são coisas que partem de mim, mas interessam-me a partir da sua dimensão universal.”

Essa coesão reflecte-se também na escolha do produtor. Ofertas nos dois últimos anos não lhes faltaram, mas optaram outra vez por Johnny Hostile, cúmplice de muitos anos de Jehnny. A única surpresa adveio do facto de as misturas terem sido entregues ao dinamarquês Trentemoller, figura das electrónicas de dança. 

Isso, a aura
O sucesso não lhes deu para grandes ambições, mas com a maior visibilidade surgiram também, inevitavelmente, as aversões. Há quem lhes impute serem uma mera réplica nostálgica de bandas pós-punk dos anos 1980 e até quem as tenha criticado por em determinada fase colocarem à porta dos concertos um dístico pedindo ao público que não fizesse uso dos telefones para tirar fotos. Mas elas têm noção do efeito que geram: “Não temos ilusões. Tomamos atitudes, somos directas, não agradamos a toda a gente. Mas parece-nos mais honesto dessa forma. Levamos a nossa actividade muito a sério, por respeito por quem nos segue. Por isso sim, no início reagimos ao facto de as pessoas parecerem estar mais interessadas em tirar fotos do que em criar um espaço de interacção, mas parece-me que hoje já não acontece. Pelo menos já não vejo telefones há algum tempo à nossa frente”, ri-se Jehnny, desvalorizando o assunto.

No início do percurso das Savages, era também obrigatório referir-se o facto de se inserirem num meio rock onde ainda predominam arquétipos masculinos, onde a mulher é quase sempre idealizada, raramente apreendida na sua complexidade. O tema não lhe é indiferente, mas na actualidade não a motiva grandemente. “O que é importante é ter consciência das mistificações e hoje vejo à volta cada vez mais mulheres na música capazes de refazerem o seu papel, sendo sujeitas da acção, e não apenas objecto imaginado.” Elas próprias confundem leituras uniformes, agarrando em guitarras para serem andróginas ou ultra-femininas, símbolos de emancipação ou de hipersexualização. Ou tudo isso em simultâneo.

O que não parece esmorecer é a relação com Portugal, onde já tocaram por diversas vezes. O novo álbum já pôde ser ouvido parcialmente, no ano passado, nos concertos do festival Super Bock Super Rock, em Julho, e do Lux, em Outubro, ambos em Lisboa. Mas o concerto que talvez mais memória deixou foi o primeiro, no Primavera Sound do Porto, em 2013. O álbum de estreia havia sido lançado poucos meses antes. Eram pouco conhecidas ainda. Mas o último dia do festival foi seu. Quem as viu nessa altura percebeu de imediato que estava perante algo de muito especial. Foi um desses momentos em que ficou nítido que tinham tudo para se transformar num caso de culto. E elas, pelos vistos, também o pressentiram naquela altura.

“Foi um concerto muito importante. O tipo de resposta que obtivemos foi verdadeiramente marcante para nós. Como é evidente, já tínhamos sentido o entusiasmo do público noutras ocasiões, mas foi numa altura de crescendo também para nós enquanto banda, e sentimos imenso o calor da assistência.”

Em Outubro do ano passado vieram a Lisboa filmar o vídeo para a canção The answer, tentando reproduzir essa temperatura. A câmara incide sobre elas, mas também e muito sobre a multidão à sua volta, como se fossem uma só entidade, corpos, esgares e emoções à flor da pele necessitando-se mutuamente, enquanto Jehnny grita “If you don’t love me, you don’t love anybody”.

Vestem sempre de negro, cabelos curtos, um visual luminoso que parece brilhar ainda mais em palco, com o ritmo cardíaco acelerado da bateria e do baixo, talhado pela guitarra, a impor-se perante a atitude, o poderio cénico e a energia impossível de explicar e duplicar de Jehnny. Deve ser isso, a aura. Quatro raparigas que se portam como se o instante seguinte não fosse acontecer, como se não tivessem nada a perder, explosivas, habitadas pela urgência de existir, com Jehnny a lançar palavras – às vezes nem é o que diz, é a forma performativa como o diz – de maneira predadora, ao ritmo da pulsação trepidante do som.

Não existem grandes dúvidas de que elas gostam da interacção com o público. É o seu elemento. É a partir dessa troca que a música das Savages adquire maior ressonância. E Jehnny resume: “Ao longo destes anos essa troca mudou-me como pessoa, a sério. Não sei muito bem como dizê-lo, mas tornou-me numa pessoa melhor, essa disponibilidade para interagir, receber e retribuir amor.”