A sociedade espera que quem tem dinheiro saia de casa ao primeiro estalo

Violência doméstica nos grupos socioeconómicos mais favorecidos tem algumas diferenças mas também semelhanças, segundo os especialistas. O agressor mais culto terá mais recursos para ameaçar e intimidar, por exemplo.

No caso da violência doméstica, o Estado atribui as indemnizações no prazo de um mês
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No caso da violência doméstica, o Estado atribui as indemnizações no prazo de um mês Nelson Garrido

Dizer que a violência doméstica é transversal é já um lugar-comum, avisa a socióloga Isabel Dias. O mito de que isso é coisa de famílias desfavorecidas caiu com a investigação académica e com a mediatização de casos como o de Bárbara Guimarães, apresentadora de televisão, e Manuel Maria Carrilho, professor catedrático, com carreira política, que deverá chegar à barra dos tribunais em 2016.

O ex-ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho deverá começar a ser julgado em Fevereiro por violência doméstcia contra a agora sua ex-mulher. Às suspeitas de maus tratos físicos e psicológicos somam-se outros alegados crimes, como ofensas à integridade física e ameaças agravadas. "Se me deixas vai haver muito sangue, mato-te a ti, mato os nossos filhos e depois mato-me a mim", terá dito um dia o antigo embaixador de Portugal na Unesco à apresentadora, segundo a acusação do Ministério Público.

De acordo com o Ministério Público, Bárbara Guimarães era frequentemente insultada: "És uma alcoólica", "não vales nada", "estás acabada”. O julgamento – que por questões de privacidade dos envolvidos poderá vir a decorrer à porta fechada – devia ter começado em Outubro, mas foi adiado depois de Manuel Maria Carrilho ter levantado um incidente de suspeição contra a juíza a quem coube o caso, para a afastar do processo, por esta magistrada o haver condenado anteriormente por difamação. É que o arguido afirmara em várias entrevistas que Bárbara Guimarães fora violada pelo padrasto.

O estatuto social não consta das estatísticas criminais, mas importa a quem tenta compreender o fenómeno. “Temos de olhar para os processos de socialização próprias de cada classe social”, esclarece Isabel Dias, professora da Universidade do Porto. Parafraseando Ana Nunes de Almeida, do Instituto de Ciências Sociais e pró-Reitora da Universidade de Lisboa, “cada um bate como pode e foi ensinado”.

A violência doméstica pode assumir contornos mais sofisticados. “O agressor mais culto, mais dotado do ponto de vista intelectual, tem mais recursos mentais para intimidar, para ameaçar”, afirma a psicóloga forense Catarina Ribeiro. Pode, por exemplo, “pôr um calmante na comida da vítima, levá-la a acreditar que está maluca, que não sabe tomar conta dos filhos”. “Vai destruindo a sua identidade”, resume aquela professora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica do Porto. Vai incutindo na vítima a crença de que “ela não presta”. “Qualquer sucesso é um acaso. Qualquer problema é uma culpa” – a empregada não lavou as calças ou não passou a camisa a ferro, os filhos sujaram-se ou atrasaram-se, a culpa é dela.

Àquela perita em avaliação psicológica do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses parece importante perceber que isto não é "um evento", "é um processo – um processo consciente, construído, intencional”. “Numa primeira fase, o agressor trata de fragilizar a vítima. Quando ela já está fragilizada, ele vira a fragilidade contra ela: ‘És uma perturbada, estás doente, tens de te tratar’. Quando mais fragilizada está, menos hipótese tem de tomar uma atitude, de sair da relação violenta”.

“A violência tende a ser muito baseada no controlo, na tentativa de ir condicionando a vítima”, corrobora a psicóloga social Sofia Neves. Ocorre-lhe o exemplo de uma professora universitária, que estava a fazer a tese de doutoramento. Mal terminava de escrever um capítulo, o companheiro destruía o material com isso relacionado, o que dificultava o trabalho dela.

Não é que não haja violência física. É que este tipo de agressores pode saber mais sobre como bater sem deixar marcas e este tipo de vítimas pode saber melhor como escondê-las. Quando Isabel Dias fez o doutoramento sobre violência doméstica nas classes populares – operários, pescadores, agricultores – disseram-lhe: “As telhas encobrem tudo. Nós, os pobres, vamos para a rua, pedimos ajuda, falamos com os vizinhos. Os ricos não. Os ricos têm outras maneiras de resolver isso.”

Quem pertence a grupos socioeconómicos mais favorecidos tem mais acesso a psicólogos ou psiquiatras. “Tendem a evitar o Serviço Nacional de Saúde, a procurar clínicas ou hospitais privados”, observa Sofia Neves, professora do Instituto Universitário da Maia. Ficam mais protegidas do olhar de estranhos. E é menos provável que o médico, enfermeiro ou auxiliar informe a polícia. Não têm obrigação legal de denunciar crimes públicos, como os funcionários públicos.  

A tal professora universitária nunca viria a público dizer que era vítima de violência doméstica, sublinha Sofia Neves, especializada em questões de igualdade, fundadora e dirigente da Associação Plano I. Para ela, isso era impensável. O marido dizia-lhe que ninguém iria acreditar nela. E ela achava que ele tinha razão, que ninguém acreditaria nela.  Sentia vergonha. Vergonha de ser vítima. Vergonha do escrutínio público. Com figuras públicas, como Bárbara Guimarães, a exposição é ainda maior. Salta para a imprensa. E contraria uma imagem pública de pessoa empoderada, autónoma, dona de si. 

 “Estas pessoas têm uma vida virada para o exterior”, salienta Catarina Ribeiro. “Passam férias com outros casais, jantam em casa uns dos outros, vão a festas uns dos outros. Aparentemente têm uma relação funcional.” E a reacção alheia pode ser de incompreensão. “A experiência de uma vítima com recursos não é tão validada como a de uma vítima sem recursos”, ressalta a especialista. “A expectativa é a de que saia de casa ao primeiro estalo. E há uma dinâmica de auto-culpabilização. ‘Eu não consigo sair disto. Eu tinha obrigação de sair disto.’”

 “Há uns anos, as autoridades achavam que as vítimas que voltavam com os agressores eram masoquistas ou pouco escolarizadas”, torna isabel Dias. As pouco escolarizadas, sem meios económicos, não tinham para onde ir, não tinham como pagar as contas, criar os filhos. “Os estereótipos continuam a alimentar uma certa incompreensão das vítimas que têm nível socioeconómico elevado”.

Como noutras classes sociais, explica aquela investigadora, estas vítimas de violência doméstica debatem-se com uma grande contradição: “são agredidas por pessoas que amam e em quem confiam; como não é suposto serem maltratadas pelas pessoas que amam, esperam que elas mudem. E os agressores sabem trabalhar esta dimensão afectiva. Pedem desculpa, prometem mudar.”

A violência pode assumir diversas formas, incluindo a financeira. “A vítima vive numa casa esplêndida, mas não tem acesso às contas da família, tem dinheiro racionado”, exemplifica Isabel Dias. “Isso é uma forma de controlo.” Pode começar logo no início da relação, disfarçado de grande paixão. “Não quero que trabalhes, quero que estejas só comigo.” A certa altura, a vítima sente-se presa.

 “Há pessoas que têm uma vida estruturada a partir de uma certa imagem social – a imagem de uma família de sucesso, sólida, tradicional – e não querem perder isso”, volta Catarina Ribeiro. Pode ter a ver com a religião ou a moral, mas também com o nível de vida – férias na neve, Natal no Brasil, crianças num colégio. “Há cadeiras que voam, mas vão ‘encontrando um equilíbrio’”, diz. Visto de fora, “pode parecer masoquismo, mas não é”, sublinha Isabel Dias. “É a teoria da escolha racional. A pessoa pesa muito os custos e os benefícios de permanecer na relação violenta ou abandoná-la.”

Nos grupos mais favorecidos, como nos mais desfavorecidos, os filhos podem ser factores decisivos – quer para ficar (“se abandonar esta relação, eles vão deixar de viver com pai e mãe, de ter este nível de vida, ter esta rede social”), quer para tomar medidas, procurar ajuda, denunciar, pôr termo à relação violenta. A professora universitária de que falou Sofia Neves só se separou quando o companheiro a ameaçou de morte à frente do filho de ambos, que era ainda pequeno e já reproduzia alguns dos comportamentos agressivos do pai. Quando ele fez aquilo, ela percebeu que os punha em risco.

Nas relações abusivas não é raro os filhos serem usados para fazer chantagem ou como armas de arremesso. Diz a experiência de Catarina Ribeiro que são estes grupos diferenciados que protagonizam os grandes conflitos em torno das responsabilidades parentais: “Têm mais recursos, mais dinheiro para pagar advogados, pedir assessoria técnica, manter o processo activo.” As sequelas, essas, poderão acompanhar as crianças o resto da vida.