Abandono agrícola e desertificação põem em risco tradição ancestral de Caminha

A Festa de São Silvestre no alto da Serra d' Arga, em Caminha, que se realiza no último dia do ano, está em risco de desaparecer face à desertificação, e ao abandono da actividade agrícola.

Classificação inclui envolvente da Igreja Matriz e a Torre do Relógio
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Classificação inclui envolvente da Igreja Matriz e a Torre do Relógio Hugo Delgado Fernandes

"Cada vez levantam mais dificuldades aos pequenos agricultores, e esta tradição está a ser vítima do abandono dos terrenos, e da criação de animais. Enquanto cá andarmos a tradição vai ser realizada, depois vai ter tendência a desaparecer porque os mais novos já não querem saber disto", afirmou mesta terça-feira à Lusa Sandra Gonçalves, que ajuda na organização do ritual.

A jovem de 36 anos, que reside na aldeia de Arga de Cima, apontou como exemplo a sua família que "já chegou a criar vacas e que agora só tem ovelhas".

A festa em honra de São Silvestre realiza-se no último dia do ano, e consiste na bênção do gado e dos rebanhos por Santo Antão, São Silvestre e Santo António.

A tradição, realizada no alto da Serra d' Arga, no concelho de Caminha, que "chegou a juntar os habitantes das aldeias de Arga de Baixo, Arga de Cima, Arga de São João e de vários outros concelhos vizinhos, actualmente tem pouca gente a participar".

"A tradição mantem-se viva praticamente por vontade dos habitantes de Arga de Cima", explicou, garantindo tratar-se de um ritual "muito antigo" de que ouviu falar, "ainda pequena nas histórias contadas pela avó e, pelos pais".

"Antigamente eram muito animais. O gado vinha em muita quantidade de gado, de várias aldeias vizinhas. O recinto onde se faz a tradição ainda é grande mas formavam-se filas de gado para serem abençoados", frisou, acrescentando que, este ano, a tradição irá cumprir-se "com quatro vacas".

"Levam-se as vacas até alto da Serra d' Arga e dão-se três, seis ou nove voltas com elas, num caminho junto à capela de Santo do Alto. Têm que ser sempre voltas em número ímpar. Depois paramos o gado ao pé da capela, e colocamos os santos em cima do gado, para os proteger", explicou Sandra Gonçalves.

De acordo com o pároco das três aldeias, agrupadas na União de Freguesias das Argas, Paulo Emanuel Dias, o ritual "começa ao romper do dia, com os pastores a dirigirem-se à pequena capela de Santo do Alto, em Arga de Cima, para pedirem a bênção para os rebanhos, assim como para o gado".

"Depois de rezarem a Santo Antão, São Silvestre e Santo António, pedem a bênção para cada rês", explicou, adiantando que "após os animais terem sido abençoadas, os pastores, ou então os agricultores, fazem a romaria em torno da capela", sendo que no final o gado recolhe aos currais.

Cerca das 10h30 inicia-se a celebração de Acção de Graças, pelos benefícios recebidos nesse ano, seguindo-se a procissão com o andor de São Silvestre.

"As imagens de Santo António, Santo Antão, e São Sebastião são levadas, ao colo, pelas habitantes da aldeia até à Igreja de Santo Antão. Aí é celebrada a eucaristia festiva, com sermão alusivo a São Silvestre", disse o pároco local.