Espanha

Bem-vindos à Dinamarca

Os espanhóis votaram com entusiasmo. Enterraram o sistema bipartidário, bode expiatório de todos os males nacionais, e adoptaram um multipartidarismo dominado por quatro forças. No dia seguinte acordaram algo perplexos: ter-se-á Espanha tornado ingovernável? O filósofo Féliz de Azúa fala em “ressaca” e explica: “Na segunda-feira, rádios e diários confirmaram-na. Todos perderam. Os grandes derreteram-se e os pequenos não chegaram onde queriam.”

Prevê o “caos” institucional. De facto, todos os cenários de coligação ou de pactos governamentais são declarados praticamente impossíveis. Os partidos têm “linhas vermelhas” de que não podem abdicar. A resposta fácil é declarar desde já a inevitabilidade de novas eleições na Primavera.

Os espanhóis não têm uma cultura de pactos. Disse Felipe González que Espanha caminhava para um modelo italiano mas com o problema de não ter italianos para o gerir. Curiosamente, o que os espanhóis querem é aquilo que os italianos rejeitam. Demoraram 20 anos a suprimir o “pentapartito”, sistema que dominou as décadas finais da era democrata-cristã. Mesmo quando Berlusconi e a esquerda forçaram a bipolarização, o “pentapartito” sobreviveu dentro das grandes coligações. Só este ano foi aprovada a nova lei eleitoral que impõe o bipartidarismo e garante maiorias absolutas. Em Itália, multipartidarismo é sinónimo de maus costumes. Em Espanha, diz-se o inverso.

Quando um sistema morre, o que lhe sucede traz outras regras e pede uma nova cultura política, o que pode demorar anos a aprender. Politólogos e filósofos tentam explicá-lo. Há os entusiastas, como Víctor Lapuente Giné: “A mudança tectónica de uma política fundamentalmente bipartidária para uma multipartidária é em geral uma bênção. Sobretudo em tempos de crise, os governos débeis produzem resultados mais robustos. São mais reformistas, menos corruptos e mais progressistas.” O filósofo Daniel Innerarity avisou partidos e eleitores sobre o preço a pagar: “Os partidos estão condenados a fazer acordos sob pena de irrelevância. Ser fiel aos princípios é uma conduta admirável, mas defendê-los sem flexibilidade é condenar-se ao marasmo.”

Os espanhóis vão ter de rever a série televisiva Borgen, sobre a arte dinamarquesa do pacto e das coligações. O politólogo Pablo Simón publicou na terça-feira (dia em que escrevo), um “Guia essencial para o pacto”. Os políticos tendem a pensar nos termos das anteriores regras do jogo. Só têm a ganhar em aprender as novas depressa. Um jornalista do El País titulou: “Bem-vindos a Itália.” Simón conclui assim o seu guia: “O multipartidarismo é isto. Bem-vindos à Dinamarca.” Fica a dúvida: serão os espanhóis capazes de se tornar dinamarqueses?