Não faltaram blues à vida de Jackson C. Frank

Em vida poucos lhe prestaram atenção. Mas o interesse em Jackson C. Frank, um dos grandes da folk, continua a crescer. Um novo livro e uma antologia lembram-nos da grandeza de um génio caído em desgraça.

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Jackson C. Frank actuando em Inglaterra, nos anos 1960

Jackson C. Frank morreu sozinho a 3 de Março de 1999. Tinha 56 anos. A pneumonia e um ataque cardíaco arrancaram-no do mundo. Morre-se sempre de alguma coisa. Jackson não morreu no incêndio que lhe matou a infância, não morreu nas ruas, onde chegou a viver; morreu de pneumonia e ataque cardíaco, sozinho, o estado em que passou boa parte da vida.

“Muitos dos seus 56 anos de vida foram passados num estado constante de enorme dor e enorme confusão, por isso, quando o fim chegou, o seu espírito provavelmente saiu do seu corpo e respirou de alívio”, escreve Jim Abbott em Jackson C. Frank: The Clear, Hard Light of Genius, livro editado recentemente. “Acabara uma vida com incríveis picos de criatividade e incríveis pontos baixos – viver como sem-abrigo, doença mental, momentos de crueldade que nenhum ser humano devia ter que sofrer.”

The Clear, Hard Light of Genius é uma biografia – a primeira grande investigação sobre a sua vida e obra – mas também um livro de memórias sobre um das maiores (e mais esquecidas no seu tempo) personagens da folk dos anos 60. Abbott cuidou de Jackson nos últimos anos da vida do músico, nascido em Buffalo, no estado de Nova Iorque.

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Jackson e Elvis Presley em Graceland, em 1957

Jackson C. Frank, de 1965, o único álbum do músico, ganhou lugar nas listas de melhores discos folk de sempre. O estatuto só chegou, porém, muito depois, já nos anos finais de Jackson. Viveria praticamente sem reconhecimento público, num labirinto construído pelas suas inseguranças e problemas mentais.

Uma aventura
O interesse nele está a crescer. Agora, além do livro de Abbott, a Ba Da Bing também lançou uma antologia da música de Jackson C. Frank, a mais completa de sempre (The Complete Recordings).

Mas há mais: “Há dois filmes de ficção já escritos sobre ele que ainda não foram ao grande ecrã. E existem três grupos diferentes de pessoas a tentar fazer documentários”, revela Jim Abbott em conversa telefónica com o Ípsilon. No dia anterior, Abbott passara o “dia inteiro” a ser entrevistado por documentaristas.

É o maior especialista em Jackson C. Frank. As histórias das suas vidas cruzam-se. Só ouviu a sua música em meados dos anos 1980. Mas a relação com Jackson foi muito além das canções: foi uma aventura.

Começou quando comprou um disco usado numa loja de Woodstock, EUA: Year of the Cat, de Al Stewart. O vinil tinha uma dedicatória escrita à mão: “Regards to Jackson. The Blues Run The Game. Al”. O disco, autografado pelo seu autor, tinha sido vendido por Jackson C. Frank, que vivia em Woodstock nessa altura e precisava de dinheiro para comer.

Abbott quis saber quem era Jackson, o “vagabundo” que vendera aquele disco. “Foi a primeira vez que vi o nome dele em alguma coisa”, conta ao Ípsilon. Mais tarde, ouviria uma versão de Blues Run The Game (a obra-prima mais conhecida de Jackson). Ouvir o original tornou-se uma obsessão para o coleccionador. “Perguntava a pessoas se já tinham ouvido falar de Jackson C. Frank porque não havia forma de conseguir alguma coisa dele neste país. Não era conhecido aqui [nos Estados Unidos], apesar de ser daqui.” Só algum tempo depois, através de uma biografia de Paul Simon, produtor de Jackson C. Frank, Abbott conseguiu saber que o cantautor tinha tido uma breve carreira em Inglaterra.

Em mais uma coincidência cósmica, Abbott conheceu Mark Anderson, que trabalhava numa rádio universitária. Fez-lhe a pergunta que tantas vezes fizera, se já ouvira falar de Jackson C. Frank. Anderson disse que sim. Mais: tinha acabado de receber uma carta do próprio a pedir ajuda – estava em Nova Iorque, era sem-abrigo. Anderson tinha filhos e um casamento e perguntou a Abbott se podia ser ele a ajudar Jackson.

Tocado, viajou até Nova Iorque para ajudar aquele desconhecido. Até à morte de Jackson, Abbott seria seu protector. Concluiu que este teria esquizofrenia paranóide, doença fértil em delírios e alucinações auditivas. Constatou que a vida de Jackson era, como escreve quase no final do livro, uma “tragédia em vários actos”.

De fogo em fogo
O primeiro acto da tragédia: 31 de Março de 1954. Nesse dia, Jackson, então com 11 anos, e outras crianças estavam na escola a aprender música. Um incêndio matou dez crianças no local, cinco morreriam nos dias seguintes.

Jackson sobreviveu, mas as marcas físicas e emocionais ficaram para toda a vida. Esteve vários meses no hospital com queimaduras graves. Lá aprendeu a tocar guitarra. No período de recuperação conheceu Elvis Presley, que lhe enviou uma carta e uma fotografia autografada (anos depois, vendê-las-ia para ter dinheiro para comer). Ainda tocou rock’n’roll, mas rapidamente rumaria à folk.

Tudo muda quando a indemnização pelos danos causados pelo incêndio lhe chega às mãos: 110.500 dólares (meio milhão de dólares ao câmbio actual). A mente de Jackson mudou. Tornou-se um hedonista. O dinheiro durou poucos anos.

Tinha dificuldades em manter relações amorosas. Uma das suas companheiras quis deixá-lo, anunciando que iria para a Europa. Para tentar salvar a relação, Jackson foi com ela, rumo a Inglaterra. Nessa viagem de barco de cinco dias, terão nascido várias canções do seu único álbum.

Jackson garantiria que Blues Run The Game” uma perfeição dedilhada, com toda a tristeza e sonhos do mundo lá dentro, foi a primeira canção que fez (até então dedicava-se a fazer versões). “Acho que ninguém conseguiria ter tanta sorte logo à primeira”, comenta Jim Abbott. “Mas todas as pessoas com quem falei disseram que, se ele estava a compor canções antes, eles nunca as tinham ouvido. Incluindo gente em Buffalo, mesmo a namorada dele. Aparecer com um álbum inteiro assim de uma vez é incrível, mas aparentemente aconteceu.”

Blues Run The Game foi alvo de um sem-número de versões, dos Simon & Garfunkel a Nick Drake. Era a canção bandeira de Jackson, mesmo muitos anos depois de os seus problemas lhe sabotarem a carreira. “Ele sabia que era importante para as pessoas. Na primeira vez que o encontrei ele disse-me: ‘Aposto que queres ouvir-me a tocar Blues Run The Game. E eu queria. E ele tocou-a para mim”, conta Abbott. A voz maltratada pela vida de rua em Nova Iorque acrescentava negrume a uma canção a que o tempo deu mais sentido: não faltaram blues à vida de Jackson.

Jackson C. Frank terá vendido apenas entre três mil e cinco mil cópias em Inglaterra, estima Jim Abbott. O mundo folk mudara e a figura do cantautor perdera relevância. Em 1967, regressaria aos EUA, deixando a sua mítica residência no bar Les Cousins, no boémio Soho londrino. Regressaria a Inglaterra em 1968 para dar concertos, mas a experiência correu mal.

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Com Jim Abbott, o autor de Jackson C. Frank: The Clear, Hard Light of Genius

Em 1969, interrompeu as gravações de um segundo disco para regressar, de novo, aos EUA. Nos anos 70, ainda fez algumas sessões de gravação para aquilo que poderia ser um segundo álbum, mas, depois de gravar, deixava as fitas com os produtores. “Ele perdia-se e nunca mais voltava [para buscar as gravações]. Ele estava fora de si nos anos 70 e 80, especialmente nos anos 70. Entrava e saía de hospitais, a mente dele não estava sempre onde devia estar, gravar era a última coisa importante para ele – preocupava-se antes em saber quando é que seria a próxima refeição.”

A vida de Jackson foi uma sequência de acontecimentos trágicos: o fim do casamento; a morte do filho recém-nascido; uma ida para Nova Iorque numa busca infrutífera por Paul Simon, acabando a viver lá como sem-abrigo; a perda de um olho num tiroteio (mais um azar: estava no local errado à hora errada). Durante vários anos, a família chegou a pensar que tinha morrido.

Como guardião legal, agente não oficial e amigo, Jim Abbott fez com que os últimos anos de Jackson fossem melhores. Voltou a ter uma guitarra, mas a voz já não era a mesma (ainda assim, fez algumas gravações caseiras, presentes em The Complete Recordings). Antes de morrer, em 1999, ainda viu a sua música ser editada em CD e a imprensa a interessar-se pela sua história de génio esquecido e caído em desgraça.

Abbott ajudou a Sanctuary a lançar a primeira antologia da obra de Jackson em 2003. Mas continuou a procurar gravações, incluídas agora em The Complete Recordings. Diz que fechou o capítulo “Jackson C. Frank” da sua vida. Mas deixa uma porta entreaberta: “Tenho quase a certeza que há mais música dele algures. Mas, se há, não sei onde está.”