Charles Platiau/Reuters
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Paris, a (cidade) luz que não se apaga

Hoje, Paris já não é só Paris. Por simbolizar um mundo mutilado pela intolerância e ignorância, a sua luz não se reduz a si própria

A luz é símbolo de conhecimento e de nitidez de espírito. Desperta-nos do inexaurível obscurantismo da ignorância e incita-nos ao espírito crítico. À tolerância. À justiça. E à liberdade – de ação, de pensamento ou, até, de religião. Porque nos impele a olhar o homem e o mundo de outros ângulos, a luz é o motor do progresso e da modernidade. Ilumina uma nova perspetiva sobre o valor da vida humana e da dignidade que lhe é intrínseca. Indubitavelmente.

Hoje, mais de uma semana após o impetuoso baque que assolou a Europa, estas luzes continuam acesas. Hoje, Paris é a (cidade) luz que não se apaga. E não há atentado que a apague. Porque esta é a luz que tem na sua génese os valores incontornáveis da "liberté, egalité, fraternité". Aliás, antagónica e paradoxalmente, esta luz da humanidade ganha um novo ímpeto. Por isso, hoje, Paris já não é só Paris. Hoje, Paris é Paris e o símbolo de um mundo unido em torno desta luz que emana: a luz do respeito pelo homem; a luz que ilumina e guia a humanidade, apontando as diretrizes de ação e de experiência convivencial que a dignifiquem.

Ousaram atentar contra a Europa. Ousaram atentar contra a matriz ocidental, berço da liberdade, da democracia e dos Direitos Humanos. E ousaram atentar contra a própria liberdade. Foi por isto que falharam. A ousadia de atentar contra a liberdade, independentemente da sua plural manifestação (quer se esteja a deliciar a noite parisiense ou a sentir os acordes que vibram pelo Le Bataclan), fere-se, à nascença, de uma tremenda e crónica debilidade. É que a liberdade é a maior força viva que existe. A conquista da possibilidade para agir consoante as nossas próprias vontades ou projetos, sem medos, é a maior arma de que dispomos para obturar a ameaça terrorista. É pela manifestação convicta e inequívoca deste pilar das sociedades modernas que mostramos, iniludivelmente, que a luz dos nossos valores comuns não se apaga. Nunca.

Todavia, a dimensão do desafio reclama outras perspetivas de resposta. O terrorismo (e, muito especialmente, o ISIS) não se dirime sem uma união coesa e sólida entre todos os que assumem e erguem bem alto a bandeira da liberdade, da democracia e dos Direitos Humanos. Exige-se, portanto, a superação necessária de quaisquer barreiras ideológicas ou políticas. Europa, Estados Unidos da América e Rússia devem ser capazes de encontrar um ponto de consenso uno que permita conceber uma estratégia que neutralize a atividade jihadista, nos seus vários domínios – desde o financiamento ao recrutamento; desde os atentados reais contra a vida humana à dimensão virtual. A união de todos os que comungam dos valores da vida humana é inexoravelmente fundamental para que possamos suplantar o obscurantismo em que estes grupos se traduzem. Este é o primeiro passo para um desafio global que reclama uma resposta com a mesma abrangência.

Hoje, Paris já não é só Paris. Por simbolizar um mundo mutilado pela intolerância e ignorância, a sua luz não se reduz a si própria. Não podemos, enquanto cidadãos do mundo, cingi-la à capital francesa. O mundo não se reduz à Europa. Na solidariedade e paz da luz de Paris, também ecoam as vozes e a memória de todos os que, recentemente, pereceram às mãos do terrorismo, no Iraque, no Líbano ou no Mali. Não os podemos olvidar. Porque é isto que se pede à humanidade – que não esqueça os seus semelhantes, independentemente da sua origem ou credo. A luz de Paris invita-nos a lembrá-los.

Porque hoje, Paris já não é só Paris. Paris é, também, Bagdade. Beirute. Bamako. E Paris é – e será – a (cidade) luz que não se apaga.