Crítica

Adele escolheu: quer ser diva

O jogo aqui são as baladas de fôlego épico acompanhadas ao piano, quase sempre de indistinta banalidade. Ela quer mesmo o aplauso, a aprovação.

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REUTERS/Mario Anzuoni

Depois de ver o documentário de Asif Kapadia que mergulhava na intimidade de Amy Winehouse, Adele sentiu-se uma intrusa na vida daquela que foi a sua primeira inspiradora. O desconforto pelo acesso ao lado privado de Amy deixou-a desconfortável, certo, mas talvez não tenha sido apenas isso. Quando se ouve 25 e as pistas soul da Motown clássica, identificáveis no início da sua carreira, se esfumaram por completo na voz da cantora, parece que, mais do que afastar-se da influência de Winehouse, Adele quer ter a certeza de que não estará a tentar o destino – agora que tem os mesmos 27 anos que costumam ser sinónimo de maldição no mundo pop/rock.

Passaram-se quatro anos sobre a edição de 21 e Adele tornou-se um dos maiores fenómenos da pop actual, gerando vendas contabilizadas aos milhões (um anacronismo pensando no estado moribundo da música paga). Como que para garantir que continua a mesma moça de sempre, pontua as entrevistas com uma bem doseada distribuição de “fuckin’” e de relatos de boémia com a sua gente. O que acaba por soar a uma tentativa razoavelmente desesperada (mas compreensível) de se agarrar a uma normalidade que lhe deve ser cada mais esquiva.

25 aponta a essa normalidade de forma clara. Mas não apenas na sua confessa intenção lírica de manter as memórias dessa vida descomplicada em permanente activação. Também, infelizmente, no plano musical Adele dá mostras de precisar de sentir que agrada a terceiros e que não trai a adoração popular de que foi alvo nos últimos anos. 25 é, assim, um disco que se propõe vingar como colecção de momentos que poderiam compor o alinhamento de uma final de programas como The X Factor ou The Voice, todos plenos de sentimentalismo e perícia vocal – é surpreendente até que, aos 3m51s de When We Were Young, quando Adele eleva a voz aos píncaros numa brilhante execução, não se oiça o público em fundo exultar com o feito.

É desconsolador, por isso, descobrir que 25 amestra a cantora de 19 e 21, passando-lhe um atestado de diva na linha clássica de uma Barbra Streisand ou uma Whitney Houston. O seu jogo são aqui as baladas de fôlego épico acompanhadas ao piano, quase sempre de uma indistinta banalidade (salva-se When We Were Young), acompanhadas de um par de tentativas medianamente sucedidas de visitar o território de Jessie Ware (Water Under the Bridge) ou de Lily Allen - Send My Love (To Your New Lover)-, mas quase sempre tímidos e pouco assertivos esforços de variar o registo.

Em 25, Adele soa quase sempre a uma cantora preocupada em não defraudar as expectativas, agarrando-se ao poderio da sua voz mas formatada em excesso (até a soltura, ainda que pouco imaginativa, de Sweetest Devotion traz algum alívio), desafortunadamente incapaz de repetir noutras ocasiões o momento superior que é “Million Years Ago”, canção de tarimba folk em que Adele, por uma vez, não parece andar à procura do aplauso e da aprovação.