Crónica

Paris, Bagdad, Damasco, Alepo, Saana, Paris

As explosões e os disparos e a carnificina de Paris apanharam-me no paraíso, na única noite que passei no paraíso, irromperam pelo jantar em cima do mar e puseram-lhe fim brusco. O paraíso (a ilha de Príncipe) tem pouca electricidade e ainda menos televisões ou Internet mas ali, naquele pedaço, estava um grupo de jornalistas portugueses, mais alguns europeus, um ex-general da Marinha britânica, e todos tinham smartphones na mão. O paraíso deixou de o ser, pelo menos para nós, naquela ilha na ilha onde o tempo corre tão devagar e Paris está tão longe.

De imediato os amigos que me rodeavam disseram "que horror" e eu pensei "filhos da puta". Demorei dez minutos até dizer qualquer coisa como "isto acontece todos os dias, só não acontece em Paris todos os dias" e uma amiga responder "eu sei". Depois, outra amiga disse-me aquilo que desde que voltei do paraíso outros amigos repetiram. Que, pela primeira vez sentiram que podiam ter estado entre as vítimas, eles ou os seus amigos, que tinham feito o mesmo, jantado, bebido um copo numa esplanada, ido a um concerto, podia ter havido bola, não houve.

Ainda no paraíso, pensei muitas vezes "filhos da puta". Na minha cabeça estavam os meus amigos que podiam estar ali mas antes ainda os refugiados que têm chegado à Europa. Porque acredito que este ataque é antes de ser outras coisas uma forma de continuar a persegui-los depois de eles terem arriscado a vida e a vida dos filhos para fugir de bombas que chegam assim ou do céu e caem nas suas cabeças com eles a dormir na cama, depois de terem aconchegado a roupa aos filhos, como os meus amigos fazem com os deles em Lisboa, Madrid ou Paris. Fugiram? Agora vejam lá se não têm de fugir outra vez. Ainda na noite de sexta-feira houve um incêndio no campo de refugiados de Calais, a Selva que os refugiados que tentam chegar ao Reino Unido abriram a golpes de força humana para terem onde se abrigar quando não estão numa corrida pela vida que pode acabar com eles atropelados, esmagados ou electrocutados.

Eu percebo que para os meus amigos daqui ouvir Bagdad, Alepo, Damasco ou Saana não seja igual a ouvir Paris. Mas para mim é, sabem? Demorei-me por lá, escolhi o meu café favorito, o meu restaurante predilecto, a praça a que sempre quererei voltar (e voltei quando pude), o banco de rua ou de jardim, a vista, tudo o que escolhi em Roma, Madrid, Paris ou Lisboa. Fiz amigos e há anos que penso neles a cada explosão ou bombardeamento. 

Durante anos escrevi quase todos os dias sobre atentados no Iraque até já ninguém querer saber, até já só ser notícia se fosse "o maior de todos", até uma vez em que um só atentado matou 700 ou 800 yazidis e isso já nem chegou a ser notícia porque naquele domingo em que os camiões explodiram ninguém soube quantos tinham morrido. Algumas dessas explosões aconteceram na minha rua preferida de Bagdad, a Karrada, muitas explosões mesmo houve na minha Karrada, até no meu restaurante favorito, no mercado dos pássaros, na rua das livrarias, em sextas-feiras consecutivas onde gente como nós tinha saído para jantar, beber um copo, conversar com os amigos, descontrair um pouco de uma vida bem mais stressante do que a nossa, a vida marcada por explosões e ataques e mortes diárias de gente que pode sempre ser família e às vezes, demasiadas vezes, é. 

Eu sei que Paris é diferente para vocês, mas para mim é o mesmo que ouvir Saana, Alepo, Damasco, Bagdad. Desculpem se não parece fazer sentido, mas eu tenho lá amigos, jantei lá muitas vezes fora, bebi copos, fui a jogos de futebol, a espectáculos de teatro ou de dança, comi peixe à beira do Eufrates e do Tigre, fumei cigarros à noite na rua à conversa com amigos, enquanto trocávamos canções, gente da minha idade que só quer o mesmo que eu quero, gente que podia ter estado em Paris na sexta-feira passada se a vida lhes tivesse sorrido de outra maneira. 

Eu estava no paraíso, calhou, podia ter estado em Paris ou em Bagdad, eu ou os meus amigos.

(Agora vou ler o texto que uma amiga passou o dia de ontem a escrever. Demorou "porque todas as vítimas são iguais e têm o mesmo valor" e sobre algumas era mais difícil encontrar informação.)