De Gabo para Saramago

No dia em que José Saramago faria anos, lembramos um documento, que está nos arquivos pessoais de Gabriel García Márquez, em que o colombiano defende a literatura ibero-americana como una.

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O documento que está no arquivo do Harry Ransom Center Cortesia do Harry Ransom Center
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José Saramago e Gabriel García Márquez fotografados em 1999, em Santiago de Cuba, na comemoração do 40.º aniversário da Revolução Cubana. ADALBERTO ROQUE/AFP

José Saramago (1922-2010) faria hoje 93 anos. Para o celebrar, estão programadas várias actividades da iniciativa Dias do Desassossego, na Fundação José Saramago, em Lisboa, com entrada livre, incluindo a apresentação da Declaração dos Deveres Humanos, ideia criada e partilhada pelo escritor português no seu discurso de agradecimento do Prémio Nobel da Literatura, na cerimónia de 10 de Dezembro de 1998, em Estocolmo. 

O escritor, nascido na aldeia de Azinhaga, soube que lhe fora atribuído o Prémio Nobel, o único dado à língua portuguesa, a 8 de Outubro de 1998. Nesse dia, o autor de Ensaio sobre a Cegueira recebeu muitas congratulações. Uma delas foi de outro Prémio Nobel, o escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), conhecido por Gabo entre os amigos.

A mensagem de felicitações em espanhol e assinada por García Márquez à mão, foi arquivada pelo próprio autor. Não se sabe se foi lida pelo escritor ou pronunciada nalguma cerimónia oficial. A declaração, no entanto, encontra-se numa pasta chamada “Declarações e Respostas”, preservada dentro de uma caixa cinzenta de revestimento rijo, catalogada com o número 75.5, que pode ser encontrada nas quase cem caixas do arquivo de Gabriel García Márquez no Harry Ransom Center, da Universidade do Texas, que foi aberto no dia 21 de Outubro para consulta académica. O arquivo contém centenas de documentos datados de 1930 a 2014.

Nesta declaração, García Márquez não só felicita Saramago ao dizer que ele é um dos grandes escritores do século XX como também enaltece  a literatura ibero-americana, como um todo. “O seu Prémio Nobel é um dos mais justos. A alegria que isto causou nos países de língua espanhola, como se fora um triunfo nosso, confirma o que alguns de nós, escritores, temos vindo a dizer desde há muito tempo: a literatura ibero-americana é só uma. Por isso, propusemos tantas vezes que se tenha em conta tanto portugueses como brasileiros para o Prémio Cervantes”, escreve o Prémio Nobel da Literatura 1982.

“A proposta de García Márquez é certamente generosa”, diz ao PÚBLICO por email Carlos Reis, autor do livro Diálogos com José Saramago e professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Coimbra, depois de analisar o documento. No entanto, continua o académico, a declaração de Gabriel García Márquez envolve duas problemáticas. A primeira refere-se à distinção entre a língua portuguesa e espanhola, afinal o “Prémio Cervantes, tal como o Prémio Camões, é um prémio literário que celebra também uma língua” e “por muito próxima que esteja (e está) da nossa, é ainda outra”.  

A segunda refere-se ao termo “literatura ibero-americana”, que ,de acordo com Carlos Reis, “é precário e relativo”. Apesar de haver semelhanças entre escritores portugueses, colombianos, espanhóis e brasileiros, e muitos outros do tal espaço ibero-americano, “essa aproximação não cancela singularidades de várias ordens.” Este questionamento torna-se mais intenso, para Carlos Reis, à medida que alguns escritores africanos questionam esta unificação. “Seriam esses escritores africanos participantes de tal unidade (relativa) ibero-americana?”, indaga.

Escritor-irmão
Na sexta-feira, o espanhol Fernando Gómez Aguilera, biógrafo do escritor português de quem foi amigo e comissário de uma das exposições mais importantes sobre a obra e vida de Saramago, chegou a Lisboa, onde lhe foi mostrada a mensagem de Gabo para o Nobel português. “García Márquez e Saramago reconheciam-se, mutuamente, como membros de uma mesma família literária ibero-americana, cujo emblema representa o imaginário de Cervantes”, afirma ao PÚBLICO Fernando Gómez Aguilera, depois de ler a declaração. “Na sua nota, García Márquez celebra o Nobel Saramago como um escritor-irmão de sangue e vai mais além da língua, fala mesmo numa literatura ibérica. Não pode haver elogio maior.” 

A equatoriana Gabriela Polit, professora de Literatura Latino-Americana no departamento de Português e Espanhol da Universidade do Texas em Austin, e uma das primeiras pessoas a estudar os arquivos de Gabo, acredita que García Márquez estava sintonizado com os acontecimentos históricos e políticos daquela década. “A Guerra Fria tinha acabado e olhava-se para outras partes do mundo, como a América Latina. Espanha tentava expandir-se para outros mercados. O mundo ganhava uma nova configuração. Não estou a dizer que García Márquez estivesse a pensar nestas coisas, mas isto estava no ar. Além disso, Saramago não era só mais um autor ‘europeu’. Era alguém próximo que até viveu em Espanha”, explica a académica.

 O brasileiro Odil José de Oliveira Filho, especialista na obra de Saramago e autor do livro Carnaval no Convento: intertextualidade e paródia em José Saramago, lembra ao PÚBLICO, numa conversa telefónica, que havia uma “sintonia artística” entre Gabriel García Márquez e Saramago, que se desenvolveu a vários níveis. 

É certo que havia várias semelhanças entre os dois escritores. Ambos tinham sido jornalistas, ambos deixaram a terra natal para irem viver num outro país, por questões políticas. E tanto Saramago quanto García Márquez atingiram o cume das suas carreiras literárias ao receberem o Nobel da Literatura. No entanto, foi a tal “sintonia artística”, na opinião deste autor brasileiro, que poderá ter levado García Márquez a escrever de uma forma tão afável sobre essa idealização da unidade da literatura ibero-americana.

Saramago “soube colher lições do romance latino-americano”, ao misturar política com estética literária, e ao aplicar noções do realismo mágico de García Márquez no contexto literário português. Outra razão para se falar de união ibero-americana terá sido o contexto político dos anos 1960 e 70. Portugal, Espanha, Brasil, Argentina, Chile e outros países enfrentavam ditaduras, o que facilitou a identificação cultural entre os escritores daquele período. “A primeira reacção aos regimes ditatoriais tinha sido recorrer a uma expressão literária extremamente engajada, até que os escritores latino-americanos percebessem a necessidade de revolucionar também a forma artística das suas obras”, explica o brasileiro.

Apesar de reconhecer que o tema da literatura ibero-americana é pouco discutido, este especialista em Saramago diz que esse “iberismo” está claro no livro A Jangada de Pedra, publicado em 1986, ano da entrada de Portugal na então denominada Comunidade Económica Europeia (CEE). 

Nesse livro, “Saramago cria uma alegoria em que imagina a separação geográfica da Península Ibérica do restante continente europeu. Portugal e Espanha transformam-se numa jangada de pedra que vai descendo, no Oceano Atlântico, em direcção ao Sul, até um lugar que está entre a África e a América. Aí está expressa a consciência de Saramago sobre o iberismo. Em A Jangada de Pedra, Saramago expressa claramente sua posição política contra a adesão de Portugal à União Europeia. A alegoria faz jus a uma Península Ibérica à deriva da Europa que tem laços africanos e latino-americanos muito mais profundos.” 

García Márquez termina a sua declaração associando Saramago ao filósofo Galileu Galilei (1564-1642), que foi julgado pela Inquisição. No último parágrafo escreve: “A nota pitoresca é que Saramago foi condenado pelo mesmo Papa que reivindicou Galileu após quatro séculos. Quem sabe se daqui a quatro séculos um Papa nascido na Lua ou em Saturno reivindicará também Saramago. Se Deus quiser!”

O autor de Carnaval no Convento acredita que o gracejo de Gabo diz respeito ao espírito retrógrado e lento das religiões para incorporarem as inovações conseguidas pelo pensamento humano, algo que Saramago sempre criticou. Assim, García Márquez, de uma forma analógica e bem-humorada, compara os livros de Saramago às descobertas de Galileu.

Para Carlos Reis, esta anedota de García Márquez refere-se à “noção de que os escritores são as vozes de uma lucidez às vezes provocatória, mas que com frequência antecipa a história”. Neste sentido, o professor português diz que Saramago começa já a ter razão. Basta lembrarmos, diz Carlos Reis, o que disse Saramago em alguns dos seus “discursos premonitórios”, por exemplo quando, há algumas décadas, exprimiu reservas acerca da integração de Portugal na comunidade europeia e das euforias que ela suscitou.