Ricardo Araújo Pereira, Júlio Pomar e Gisela João lêem o livro que Angola teme

Mais de uma dezena de nomes conhecidos da cultura portuguesa vão estar no São Luiz, nesta segunda-feira, numa leitura pública de Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp.

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Enric Vives-Rubio
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Luaty Beirão e os 14 activistas começam a ser julgados nesta segunda-feira Nuno Ferreira Santos

No dia em que começam a ser julgados no principal tribunal de Luanda os 15 activistas angolanos detidos e acusados por prepararem "uma rebelião" contra o Presidente José Eduardo dos Santos, em Lisboa, no São Luiz Teatro Municipal, acontecerá uma leitura pública do livro de Gene Sharp, Da Ditadura à Democracia: uma abordagem conceptual para a libertação, sobre estratégias de luta contra ditaduras, que levou estes jovens à prisão.

Ricardo Araújo Pereira, Júlio Pomar e Gisela João são algumas das personalidades que nesta sessão lerão excertos do livro que, em Portugal, irá ser editado pela Tinta da China. E o evento que acontece no mesmo dia em mais de 15 cidades internacionais, entre as quais Nova Iorque, Los Angeles, Buenos Aires, Londres, Berlim, Paris, Macau, Hong Kong e Tóquio. 

O regime angolano quer ver guardado e esquecido Da Ditadura à Democracia. É o livro que está na base da acusação do Ministério Público, que defende que os 15 activistas foram apanhados “em flagrante delito” no passado dia 20 de Junho, enquanto preparavam uma “rebelião e um atentado contra o Presidente da República”.

“O evento assume como título a acusação feita aos jovens pelo regime angolano: Conspiração”, lê-se no comunicado da acção simbólica que levará ao palco do Jardim de Inverno do São Luiz a fadista Gisela João, o artista Júlio Pomar, o ensaísta e programador cultural António Pinto Ribeiro, o cientista Miguel Soares, os realizadores João Botelho e Inês Oliveira, os actores Cucha Carvalheiro, Manuel Wiborg, Vera Kolodzig, Filipe Vargas, Rita Brutt, Jorge Andrade, Joana Seixas, Pedro Lacerda e Inês Pereira, o poeta Fernando Luiz Sampaio e ainda o humorista Ricardo Araújo Pereira.

A partir das 18h, todos vão ler excertos desta obra do professor de Ciências Políticas da Universidade do Massachusetts, lançado em Banguecoque, na Tailândia, em 1993 pelo comité para a restauração da democracia na Birmânia, em associação com o jornal Khit Pyain e que enumera 198 formas pacíficas de luta pela democraciaAs leituras serão feitas a partir da tradução da Tinta da China, que editará o livro até ao final do ano e cujas receitas da venda reverterão para as famílias dos 15 angolanos detidos.

A acusação angolana defende que Da Ditadura à Democracia “inspirou as chamadas revoluções nos países da Europa de Leste, países nórdicos, africanos, como a Tunísia, o Burkina Faso, Egipto e Líbia, cujas consequências de tão nefastas deixaram os países atingidos completamente na desgraça, destruídos pelo vandalismo e pelas guerras que se seguiram”.

Mais do que um gesto de solidariedade, esta acção no São Luiz é “um gesto de repúdio pela atitude repressiva do regime angolano, apelando à liberdade de expressão e pensamento”. “No mundo livre não há leituras proibidas e a ideia de conspiração tornou-se obsoleta. Chama-se liberdade de expressão e pensamento. Deve ser exercida e celebrada todos os dias, em nosso nome e em nome de todos os que lutam ainda por ela”, lê-se na nota da organização, também responsável petição “Pela Intervenção do Governo Português na Libertação de Luaty Beirão". 

Internacionalmente, a acção será assegurada pelos artistas Fatimah White (Nova Iorque), Beau Baco (Nova Jérsia), Chris Danowski (Phoenix), Hani Moustafa (Chicago), Andrea Spaziani (Toronto), Anthony Baggette (Berlim), Ray Granlund (Londres), Honi Ryan (Veneza), Abi Tariq (Paris), Amy Konigbauer (Montpelier), Laura Gonzalez (Glasgow), Nicola Carter (Nottingham), Analia Sirabonian (Buenos Aires), Alejandro Fargosonini (Tóquio), Marta Ferreira (Macau) e José Drummond (Hong Kong).

Os “15 de Luanda”, que começam a ser julgados esta segunda-feira, podendo incorrer numa pena de prisão de até três anos, são Henrique Luaty Beirão, Domingos da Cruz, Afonso Matias “Mbanza Hamza”, José Gomes Hata, Hitler Jessia Chiconda “Samussuku”, Inocêncio Brito, Sedrick de Carvalho, Fernando Tomás Nicola, Nelson Dibango, Arante Kivuvu, Nuno Álvaro Dala, Benedito Jeremias, Osvaldo Caholo, Manuel Baptista Chivonde “Nito Alves” e Albano Evaristo Bingobingo. O mesmo processo abrange também Laurinda Gouveia e Rosa Conde, que aguardam julgamento em liberdade provisória, por não terem sido “apanhadas em flagrante delito”.