Crítica Livros

A luz da ficção quando incide no mundo

A arte de Alexandre Andrade consiste em colher o melhor da energia do naturalismo e da fantasia

A escrita de A. Andrade é o oposto da estridência e da volúpia na afirmação sem freio de certa visão do mundo. Só o imparável fluir das coisas e o inumerável movimento humano são captados
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A escrita de A. Andrade é o oposto da estridência e da volúpia na afirmação sem freio de certa visão do mundo. Só o imparável fluir das coisas e o inumerável movimento humano são captados

Um dos lugares-comuns na apreciação de um escritor consiste em associar algum aspecto extraliterário (muitas vezes profissional) da sua existência civil a peculiaridades de escrita. Remonta pelo menos a Sainte-Beuve a discutível tendência. Num estudo sobre Flaubert, postulava o mal-amado (e pior conhecido) crítico: “Filho e irmão de distintos médicos, o Sr. Gustave Flaubert usa a pena como outros, o bisturi.” Será, portanto, prevaricar em duplicado – por falácia e emulação – procurar na formação científica de Alexandre Andrade a origem exacta das qualidades da sua prosa. O facto de ser professor universitário de Física talvez deva ser a uma das nossas últimas preocupações, ao lermos Quartos Alugados, o seu mais recente livro (o quinto). Como método e profilaxia, será porventura boa prática; mas a verdade é que, apesar do exemplo histórico, alguma coisa perpassa, através desse prisma civil, para a autonomia da escrita. Decerto, o equilíbrio, a noção das proporções, o manejo seguro dos espaços e volumes de quem descreve um quarto “rectilíneo e mensurável em palmos” (p.54), ou outro com “trinta e cinco metros quadrados de área útil” (p.63). Sobretudo, porém, um primoroso saber óptico. E uma imaginação que se diria educada, em igual grau, pelas ciências exactas e pela grelha multímoda das artes. O conto In Absentia, por exemplo, destaca “o quadrado de luz, imediatamente extinto, da janela do outro lado da rua” (p.36), como Quarto Escuro desdenha um “quadrilátero de vidro fosco que dá para um pátio interior a que não chega a luz do dia” (p.49). Esta capacidade de exercer a escrita testando a geometria e o desenho livre do mundo conduz o autor a notar, num outro conto ainda (Quem Anda a Comer do Meu Prato?), um “rectângulo de mundo delimitado pela janela” (p.68). Porque este é um saber que abdica provisoriamente da sua cientificidade, digamos assim, que a põe em suspenso, substituindo-o por uma vigilância amante. Em vez de descrever com alguma dose de frieza e distanciamento, o autor está sempre a engendrar o encanto, a surpresa.

Os quartos do título garantem a coesão de um cenário que não se limita a essa condição eliminável. A situação de locatário provisório garante às personagens aquela inquietação e imprevisibilidade de movimentos de que elas precisam. Seres em trânsito entre situações, habitam no espaço do transitório. Com mais ou menos premência, esse estado fornece às figuras dos contos o condão da inquietude. Mesmo o eremita dúbio de “O Mesmo Poeta” padece dessa maleita da provisoriedade. Provisórios arrendatários, provisórios seres. O quarto detido a prazo é imagem dolorosamente real da própria vida e, portanto, modelo à escala de um panorama bem mais lato, que é o da vida.

Mesmo quem conheça o autor apenas do blogue que mantém há mais de 10 anos – umblogsobrekleist – reconhecerá a limpidez da frase, a argúcia do humor, tão sub-reptício quanto incisivo, o treino do olhar e da análise. Numa das suas encarnações, o blogue de Alexandre Andrade apresentava o seguinte índice temático: “República, laicidade, militância francófila, dúvida metódica, teatro, letras, pintura, cinema, xadrez, devaneios olissipográficos e fettucine al gorgonzola.” Quase todos esses itens, tão ironicamente elencados, se encontram, de uma forma ou de outra, desenvolvidos neste livro de contos. Se o conto Rua da Velha Lanterna Vermelha efabula uma inquietante cidade de Paris banhada pelo mar, onde situa a maior parte dos acontecimentos, tudo começa em Lisboa. É precisamente nesta cidade, a partir de uma sala de cinema – cuja envolvente topográfica é claramente indicada –, que o narrador elabora o plano de partir em direcção à imaginada capital francesa.

E no entanto, nem tudo é apenas aquilo que parece. A firme ancoragem destas páginas na tradição cultural – literária e outra – é liquidada e reconstruída com igual radicalidade. É como se alguém tivesse a seu cargo fazer implodir um edifício – precisaria dos conhecimentos necessários para a tarefa. Esta capacidade de arrasar e reerguer as próprias construções pode fazer-nos pensar em Donald Barthelme. É nessa direcção que vai Cristina Fernandes, no breve mas certeiro prefácio que escreveu para Quartos Alugados, ao lembrar o norte-americano, integrado num elenco de que fazem parte Eric Rohmer, Kleist e Perec. Mas já a colectânea As Não-Metamorfoses (Errata, 2004) era dedicada “à memória de Donald Barthelme”, além de prestar o seu tributo a “Donald Barthelme, John Barth, Georges Perec, Francis Ponge, Alain Robe-Grillet, Gertrude Stein, Maria Gabriela Llansol”. Barthelme surge, ainda, em epígrafe de um dosCinco Contos sobre Fracasso e Sucesso (Má Criação, 2005). Talvez sob o influxo dessa corrente, O Mesmo Poeta ficciona uma viagem de Ossip Mandelstam a Lisboa. A personagem de O. (inicial que tudo leva a crer não se dever ao acaso) aproveita uma espécie de vácuo na biografia conhecida do poeta russo para encaixar a sua versão muito peculiar do plausível. Apesar da exiguidade desta tipologia, o conto (curiosamente, dos menos extensos da recolha) constitui um sábio desdobramento da verdade, explorada até aos confins da sanidade mental. Sempre acrescentando angulações distintas, subtis mudanças. Por exemplo, o domínio da língua portuguesa, por parte de um aluno estrangeiro, passa de muito razoável a “todo esburacado” (p.195), consoante o narrador e a narrativa dos mesmos factos. (Em Quarto Escuro é impressionante o percurso que fora necessário até chegar à simples verdade de um nome. A singela operação de troca – “Rosa Maria, e não Maria Rosa” [p.53] – envolve um mar encapelado de dúvidas, segredos e obscuridades cruzado pelo conto com marcada bravura.) Estes desvios e contradições traduzem as curvaturas e as perspectivas distintas a que se submetem os acontecimentos efabulados. Os da narrativa central resumem-se a um decurso escasso, minimalista. Os da narrativa fantasma, a de O. Mandelstam, são, porventura, centrais – uma vez que todas as linhas do conto parecem correr para esse ponto fugidio. Não nos esqueçamos de que um dos cernes deste conto reponde por O. Os equívocos nas expectativas e realizações do amor, os seus diferendos e as suas seduções, que, no fundo, estão em permanente reformulação em Quartos Alugados, são algum do sal desta ficção. O que lhe garante a especificidade e a preserva de se corromper. Timbre soberbamente assinalado num conto como Voi che Sapete, em que “tangentes cheias de prudência” (p.129) e, acima de tudo, essa espécie de música do acaso que é partitura do amor, parecem uma actualização constante da memória mozartiana do título. O ardil, a intriga, a troca de casais, mais do que operáticos, merecem a analogia de uma contradança.

Se no seu romance de estreia, Benoni (Editorial Notícias, 1997), Alexandre Andrade apresentava a sua “bibliografia recomendada”, livros como o romance Aqui Vem o Sol (Quasi Edições, 2005) ou Cinco Contos sobre Fracasso e Sucesso, num dos seus textos, incluem mesmo banda sonora. Não se trata de artifícios dispersivos, nem de índices exaltados de erudição. Antes do sinal de uma honestidade intelectual que reconhece as suas dívidas de gratidão e que assume a linhagem a que pertence.

Até pela datação dos contos aqui reunidos (entre o ano de 2011 e 2012) se percebe que o lugar desta escrita é tudo menos o da ânsia de publicitação. Fruto ou não do acaso (somos tentados a crer que não se trata de um dado fortuito), essa dilação no tempo revela a inexistência de certa falsa emergência que parece um filme demasiadas vezes visto na nossa actualidade. Pelo contrário, a ponderação do artista detido reside em todos os gestos do seu acabamento estilístico. A escrita de A. Andrade é o oposto da estridência e da volúpia na afirmação sem freio de certa visão do mundo. Só o imparável fluir das coisas e o inumerável movimento humano são captados. Ainda que a firmeza do verosímil seja constantemente convidada a ceder, a quebrar, a palavra e a frase são toada que não abandona a busca de sentidos. Contrariamente ao que se poderia imaginar, observações como “cadência indolente dos trabalhos sazonais” (p.110) articulam-se superiormente com as tramas que os fiam. Por vezes emaranhadas, elas avançam e recuam em cenários nem sempre previsíveis, como é o caso de Tondela, mas também numa cidade como Coimbra, que a legenda gastou, e as práticas consuetudinárias tornaram intragável. E precisamente a arte de Alexandre Andrade consiste, entre outros aspectos, em laborar noutro comprimento de onda. Em vez de investir num de dois limites – naturalismo estrito ou fantasia extremada –, realizar o seu intento colhendo o melhor da razão e energia em ambos os mundos.