25 anos depois, as lições de Robert Mapplethorpe

The Perfect Moment, a exposição do fotógrafo americano que viria a tornar-se polémica no final da década de 1980, levantou questões que ainda hoje são relevantes. A quem cabe decidir o que é "obsceno"?

<i>The Wet Bed</i> (1987), de Sally Mann
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The Wet Bed (1987), de Sally Mann DR

Passaram 25 anos desde que The Perfect Moment agitou as águas nos Estados Unidos, levando até a batalhas legais e à intervenção de membros do Congresso. A exposição, que reunia apenas trabalhos de Robert Mapplethorpe, referência obrigatória da fotografia americana, começou a rodar no Verão de 1989, poucos meses depois da sua morte, mas foi no ano seguinte que, depois de instalada a polémica, chegou aos tribunais.

Em causa estava o conteúdo – para alguns considerado obsceno – desta retrospectiva. Mapplethorpe, que era sobretudo conhecido pelos seus retratos, fez questão de incluir na última exposição do seu trabalho em cuja preparação viria a participar as séries mais recentes, agrupadas no seu X Portfolio, que incluía imagens homoeróticas, de urofagia e sadomasoquismo. Uma em particular era muitas vezes classificada como “pornográfica” pelos que condenavam a aplicação de fundos públicos nesta retrospectiva – mostrava o próprio fotógrafo com um chicote no ânus.

A Cocoran Gallery of Art, em Washignton, deveria ter recebido The Perfect Moment, comissariada por Janet Kardon, do Instituto de Arte Contemporânea, mas acabaria por cancelá-la, cedendo à pressão de vários congressistas, de mecenas e de organizações conservadoras e religiosas, que definiam as fotografias como “material potencialmente obsceno”. Estava instalada a guerra.

No ano seguinte, foi a vez do Centro de Arte Contemporânea de Cincinnati, mas aí, o seu director, Dennis Barrie, resistiu aos ataques dos conservadores e acabou em tribunal acusado de obscenidade, sendo depois absolvido. A discussão, no entanto, estava para durar: A quem cabe decidir o que é obsceno ou ofensivo nas exposições em instituições públicas, apoiadas pelo dinheiro dos contribuintes? Se a arte se inclui na liberdade de expressão, com que direito, à luz da lei, se rejeita a aplicação de receitas de impostos no financiamento de uma retrospectiva dizendo apenas que ela é “obscena” e “pornográfica”? Quem determina o que é arte e o que pode ou não ser visto?

Estas questões permanecem fonte de reflexão, não só nos Estados Unidos. E é por acreditarem que há ainda muitas lições a tirar deste episódio que rodeou Robert Mapplethorpe, que até então tinha já mostrado muito do seu trabalho em galerias e museus públicos, que os responsáveis pelo Centro de Arte Contemporânea e a FotoFocus, a Bienal de Fotografia de Cincinnati, vão dar continuidade a uma série de debates sobre censura e financiamento público às artes a 19 de Novembro, no New Museum em Nova Iorque. No painel, que segundo o Art Newspaper incluirá curadores que trabalharam com Mapplethorpe, estão Paul Martineau, do Museu Getty, e Britt Salvesen, do Los Angeles County Museum. As duas instituições estão a preparar uma grande exposição do fotógrafo para o próximo ano.

Entretanto, o centro de Cincinnati mostra, até Março, uma exposição que olha para o legado da original. After the Moment: Reflections on Robert Mapplethorpe inclui obras que foram objecto de autocensura à época. Artistas como Sally Mann, autora de The Wet Bed (1987), decidiram não mostrar alguns dos seus trabalhos porque podiam ser relacionados com as fotografias em causa no julgamento que envolvia a retrospectiva do fotógrafo (duas das imagens de Mapplethorpe em causa tinham crianças por protagonistas, lembra o Art Newspaper).