O cinema foi o baby sitter de Sara Driver

O indie já não é o que era. Porque antes era punk. Figura fortemente associada ao underground novaiorquino do final dos anos 70 e parte dos anos 80, Sara Driver merece ser descoberta.

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A obra de Sara Driver é curta: apenas duas longas-metragens, Sleepwalk, de 1986, e When the Pigs Fly, de 1993 DR
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Driver é também uma presença fundamental na obra de Jim Jarmusch, com quem viveu e colaborou durante anos, e que foi um nome fulcral na invenção e reinvenção de uma cena independente LUIS GUERRA/ RAMEY PHOTO

Sara Driver, nascida em 1955, é uma figura fortemente associada à cena do cinema independente novaiorquino que emergiu entre o final dos anos 70 e boa parte dos anos 80. A sua obra é curta: apenas duas longas-metragens, Sleepwalk, de 1986, e When the Pigs Fly, de 1993, encontrando-se agora em pleno trabalho num filme sobre o artista plástico Jean-Michel Basquiat, figura lendária da "contracultura" novaiorquina dessas décadas. Estes filmes, incluindo excertos do work in progress sobre Basquiat e várias curtas-metragens realizadas ao longo dos anos (nomeadamente You Are Not I, o notável seu primeiro filme, de 1981, baseado em Paul Bowles), vão ser mostrados nesta edição do LEFFEST, numa secção apropriadamente chamada "Descobrir: Sara Driver", estando prevista a presença da realizadora no festival, também para desempenhar o papel de jurada da secção competitiva.

A "independência" dos anos 80 era algo bem diferente daquilo que em que se veio a tornar. Paralelamente à sua obra individual, Driver é também uma presença fundamental na obra de Jim Jarmusch, com quem viveu e colaborou durante anos, e que foi um nome fulcral na invenção e reinvenção dessa cena independente. Filmava-se sem dinheiro, gastava-se o que se podia, com a película que se encontrava, dinheiro e película que às vezes não tinham origens muito ortodoxas (é ler o que Jarmusch conta sobre como conseguiu fazer Stranger than Paradise, filme onde Sara também este profundamente envolvida), mas a concentração no filme, no objecto em si, como trabalho de amor ou de compulsão, era total. Isto dava origem a filmes profundamente singulares, underground na feitura e perfeitamente satisfeitos se a visibilidade que tivessem fosse, também, underground.

A indústria da independência
Na conversa telefónica com Sara Driver começamos por aqui: esta independência, radical, parece bem distinta daquilo que hoje, no panorama americano, passa por "independente". A "independência" tornou-se uma pequena indústria, uma mini-hollywood. "Havia pouco dinheiro", diz Sara, "mas agora ainda há menos para projectos que não tenham uma expectativa de rentabilidade". É o que explica também a escassez da sua obra, o facto de o seu último filme de longa-metragem ter sido estrado há 22 anos: "O digital talvez seja mais fácil de trabalhar, porque não levanta os problemas que a película levantava, mas em compensação a pós-produção é incomparavelmente mais cara". E durante décadas "os produtores entendiam o seu trabalho como um jogo, eram jogadores, e o risco permanente era essencial à actividade". Como Otto Grokenberger, o bizarro alemão que apostou em Jarmusch quando a fama dele pouco ultrapassava as fronteiras do underground. "Esse tipo de produtores desapareceu, pelo menos nos Estados Unidos", pormenor que se agrava, no entender de Sara, pelo facto de ser mulher. Apesar dos sucessos crescentes de realizadoras, incluindo o tão célebre Óscar para Kathryn Bigelow, a cineasta é perfeitamente convicta quando garante que "continua a ser muito mais difícil encontrar financiamento para um filme dirigido por uma mulher do que para um dirigido por um homem".

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Sleepwalk (1986) DR

Mas não foi só isso que mudou, e o Festival de Sundance, essa grande máquina de promoção da "independência", que tem "um lado bom e um lado mau", contribuiu para uma certa formatação, "para filmes que são feitos tendo em conta as modas, os gostos estabelecidos". O que impressiona na independência novaiorquina, nos primeiros filmes de Jarmusch e Driver, era a atitude "rock and roll", ou liminarmente "punk", herdada também da fervilhante e multifacetada actividade artística que a cidade gozou nos anos 60 e 70. "Se por uma 'atitude punk' entendermos que a vontade e a energia se sobrepôem às questões técnicas e ao que vem de uma educação, e que toda a gente pode fazer filmes assim como toda a gente pode formar uma banda rock, sim, eram tempos em que a nossa atitude era essa, fazíamos um cinema 'punk'". Ainda há - "... esperança?", e Sara ri-se, aproveitando a pausa do interlocutor quando lhe ia perguntar se "ainda há" alguém em quem reconheça essa atitude nos dias de hoje. O nome que lhe vem à cabeça é o dos irmãos Safdie, os realizadores de Go Get Some Rosemary: "Impressiona-me o trabalho deles e a maneira como o fazem, acho que têm algo dessa atitude 'punk'". Também se impressiona com a "cinefilia" de Wes Anderson, mesmo que Anderson seja o caso de um realizador que já deu o salto, para os grandes orçamentos, para os Óscares, etc. "Sim, mas gosto da energia cinéfila dele, sou muito sensível a isso.... sabe, o cinema foi o meu baby sitter, nem me lembro de ver televisão em criança, sou tenho recordações do cinema". É por isso que actualmente lhe interessaria trabalhar em filmes para crianças, "porque os filmes para crianças, hoje, e à parte [o japonês] Miyazaki, parecem todos videjogos". Uma das ideias que tem é pôr de uma série "sobre contos de fadas de todo o mundo".

Continua cinéfila? "Oh, sim, absolutamente, em Nova Iorque ainda é possível, há sempre coisas para ver, no Film Forum, no Lincoln Center, noutros sítios". Recentemente reviu "a maravilhosa Trilogia de Apu" de Satyajit Ray e os filmes de Hou Hsiao-Hsien, "é um realizador maravilhoso, não é?".