Crítica

007 em crise de identidade

Uma das razões para a crescente indistinção da série de James Bond tem a ver com o facto de ter gerado um sem-número de imitações que revela mais, e melhor, o “espírito Bond”.

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Uma das razões para a crescente indistinção da série de James Bond tem a ver com o facto de ela ter gerado um sem-número de réplicas e imitações. Nesse mar de clones, Bond tornou-se só um nome, uma figura mais ou menos arquetípica (que até tem, na insolência carrancuda de Daniel Craig, um estimável intérprete) mas com dificuldade em vincar, quando se chega aos filmes tomados em si mesmos, algum tipo de identidade essencial. No último (e feliz) episódio da Missão Impossível, por exemplo, que até tem várias coincidências com Spectre em termos de argumento e de escolha de cenários, tem-se a sensação de que se revela mais, e melhor, o “espírito Bond” do que em qualquer filme da série desde há muito tempo – para além de um bem melhor entendimento da “acção”: é comparar a perseguição de automóvel pelas ruazinhas de Roma em Spectre, construída em montagem de grandes planos dos condutores, e a perseguição de automóvel pelas ruazinhas de Tânger no filme com Tom Cruise, construída numa relação com o espaço e com o movimento.

O argumento de Spectre até dava razões para o filme avançar pelo lado da “crise de identidade”. Cheio de zeitgeist – os jovens tecnocratas cheios de certezas que querem substituir os agentes no terreno por um sistema de vigilância globalizadas com drones e etc, mais a influência do capitalismo mafioso e subterrâneo sobre os centros do poder político – o argumento de Spectre levanta a possibilidade de uma personagem em luta com os “tempos modernos”, a obstinação dos métodos tradicionais contra o mundo tecnológico e descentrado que existe hoje. Mas fora algumas sugestões, que também passam muito pela “gravitas” enfadada de Craig, tudo isso se dilui.

Não se nega, como já se notara no soturno Skyfall, que a chegada de Sam Mendes à realização da série trouxe alguma elegância e alguma sofisticação, um certo sentido “coreográfico” visível por exemplo em certas cenas de diálogo, ou na procura de uma energia tensa na encenação dos encontros de Bond e das “Bond girls” (aqui o caso dos momentos com Craig e Monica Bellucci, numa fugaz aparição em modo de diva trágica, ou do primeiro encontro entre o herói e a personagem de Léa Seydoux). Durante a primeira parte do filme esta elegância, e algum sentido de irrisão, sustentam-no com relativa graça. Mas a segunda parte é uma desgraça, com a entrada em cena do vilão de Christoph Walz (no seu número habitual que já enjoa, parece actor dum só registo e sempre dos mesmos truques), que representa a verdadeira “entrada na matéria”, com toda a bagagem levemente psicanalítica sobre a “biografia” de Bond que já tinha um peso desmedido em Skyfall.

A partir daí tudo se torna bastante banal, sem surpresas, sequências de estardalhaço pirotécnico umas a seguir às outras, progressão narrativa em jeito de jogo de computador, de um “nível” a outro. Pesem o carisma e a fotogenia de quase todos os envolvidos, é um espectáculo pobre e bocejante, nada ajudado pela ganga de cariz “psicológico” que lhe subjaz (e que deve muito, como já se notava em Skyfall, à tentativa de aproximar James Bond do universo e da “metafísica” dos super-heróis). Como toda a gente, também gostávamos de gostar de mais um 007, quanto mais não seja em memória da diversão que nos proporcionou na infância. Pena que mais uma vez não seja possível.

Só uma nota final: em tempo de “sanitização” dos heróis em geral, é curioso ver que se Bond deixou de pedir o clássico martini não o trocou por um sumo de frutos silvestres mas por algo mais forte. Agora pede sempre um vodka martini, talvez para compensar o abandono do tabagismo.