AKP de Erdogan vence legislativas na Turquia com maioria absoluta

"É um dia de vitória", disse o primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu, que conseguiu 316 dos 550 lugares no Parlamento.

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Presidente Recep Tayyip Erdogan sublinhou a importância da estabilidade para a Turquia REUTERS/Murad Sezer

A jogada era de alto risco, mas a estratégia de confronto com que o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) partiu para as eleições intercalares deste domingo na Turquia acabou por surtir o efeito desejado pelo movimento conservador islâmico fundado pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan. A votação deste domingo, cinco meses depois de umas eleições “inconclusivas”, rendeu ao AKP 50%, que lhe garantem uma nova maioria na Assembleia Nacional e o direito a formar Governo.

Foi, na designação da agência estatal Anadolu, um “grande triunfo” do partido que governou a Turquia ininterruptamente desde 2002 – e que desafiou as previsões das sondagens que antecipavam a necessidade de o AKP regressar à mesa das negociações para tentar novos acordos de governo. Em vez disso, a distribuição dos votos no Parlamento poderá ser suficiente não só para sustentar um Governo de maioria absoluta, como ainda para fazer aprovar a realização de um referendo à revisão da Constituição, no sentido de consolidar os poderes executivos do Presidente.

“Hoje conquistamos uma grande vitória, que não é só do nosso partido, é também da nossa democracia e do nosso povo”, declarou o primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu, perante os apoiantes eufóricos do AKP que se concentraram à porta da sua casa, na cidade de Konya, na Anatólia. “Agora vamos poder governar durante os próximos quatro anos, até voltar para vos prestar contas em 2019”, prometeu. O partido do poder, que em Junho só assegurara 258 lugares, ultrapassou em muito os 276 assentos que garantem a maioria: algumas projecções colocavam o número final de deputados em 325 (num total de 550). “Excedemos em muito as nossas melhores expectativas”, confessava um dos dirigentes do partido citado pela Reuters.

O Partido Republicano do Povo (CHP) manteve-se como a principal força de oposição de centro-esquerda, com 25% dos votos e 134 lugares. Os seus dirigentes não esconderam a desilusão com a sua prestação eleitoral – e principalmente o seu receito de que a nova maioria do AKP seja uma carta branca para mudanças constitucionais que alteram a natureza do regime, enfraquecendo o papel do Parlamento e concentrando o poder nas mãos do Presidente. “Este resultado é um desastre”, desabafou um dos dirigentes do CHP à Reuters. Enquanto isso, Yigit Bulut, um dos principais conselheiros de Recep Erdogan, dizia ao canal NTV que chegara “o momento de discutir o sistema presidencial”.

Com mais três milhões de votos do que em Junho, a nova maioria do partido de Erdogan construiu-se à custa do Partido de Acção Nacionalista (MHP), de extrema-direita, que caiu dos 16% para 12% e ainda do Partido Democrático do Povo (HDP), a formação pró-curda liderada por Selahattin Demirtas, que o AKP transformou no seu inimigo político número um (vários analistas e dirigentes políticos responsabilizaram os 13% da formação secular pró-curda pela diminuição da bancada governista). Forçado a jogar à defesa depois de um atentado em Ancara que matou mais de cem pessoas, a 10 de Outubro, o partido de Demirtas esteve em risco de perder a sua representação parlamentar, mas manteve um pé na assembleia. E foram os seus 10,5% que impediram que o AKP tivesse uma super-maioria.

Do Sudeste do país, uma região maioritariamente curda, vieram sinais imediatos de insatisfação e desconfiança após o anúncio dos resultados. Cenas de confronto entre a polícia e manifestantes foram reportadas na cidade de Diyarbakir, em frente ao quartel-general do HDP. A violência estalou quando as projecções preliminares mostraram uma forte vantagem do AKP naquele bastião curdo: segundo as agências, a polícia recorreu a canhões de água e gás lacrimogéneo para desmobilizar a juventude do partido, que atirou pedras e ergueu uma barricada numa das principais artérias da cidade, repetindo palavras de ordem de “vingança”.

Aliás, o mapa com a distribuição dos votos pelo país mostrava como a eleição aprofundou uma divisão do país entre centro (mais de 60 províncias nas mãos do AKP) e margens, com o centro-esquerda a dominar em Istambul e nas seis províncias da costa oeste e o HDP ainda no controlo das dez províncias da região Sudeste. A eleição também solidificou a polarização política do eleitorado, composto por conservadores com simpatia pela corrente islâmica do AKP e os secularistas que denunciam a via autoritária do partido no poder.

Para a maioria dos observadores estrangeiros, a reviravolta face aos últimos resultados de 7 de Junho explica-se com o sucesso da campanha de segurança do Governo de Ancara, que assim conseguiu relegar para segundo plano o impasse legislativo no Congresso e as dificuldades do AKP para montar um novo executivo no prazo estabelecido por Erdogan. Sob pressão, o Governo soube “aproveitar” o efeito de choque de um atentado suicida reivindicado por militantes do autoproclamado Estado Islâmico, em Julho, para deitar ao lixo a trégua com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e abrir uma frente de combate conjunto às forças extremistas e terroristas.

À violência dos jihadistas, e pretensões dos separatistas, o Exército respondeu com uma campanha de repressão. Ancara subiu depois a parada, numa ofensiva autoritária contra os meios de comunicação social: uma conjugação de factores para alimentar na opinião pública turca a ideia de que a insegurança e instabilidade radicavam na incerteza política em função dos resultados inconclusivos das legislativas de Junho.

Na campanha, o AKP reforçou a sua mensagem populista, prometendo mão de ferro para proteger a população da ameaça terrorista e salvaguardar as conquistas sociais e económicas da última década de crescimento do país. “Nestes últimos meses perdemos terreno contra os terroristas, perdemos dinheiro na economia e corremos o risco de perder a melhoria de vida alcançada. Mas os eleitores decidiram pela estabilidade que assegura que nada disso será perdido”, explicava à Reuters um dos dirigentes do AKP.