Campanha alerta para abuso de antibióticos nas crianças

Mais de metade das crianças portugueses tomam antibióticos durante o primeiro ano de vida. Problema de saúde pública é motivo de alerta em nova campanha.

Cartaz da campanha que arrancou nesta quinta-feira nas farmácias
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Cartaz da campanha que arrancou nesta quinta-feira nas farmácias DR

Ainda antes de completarem o primeiro ano de vida, mais de 50% das crianças portuguesas já tomaram um antibiótico pelo menos uma vez – apesar de 90% das infecções nesta idade serem de origem viral e, por isso, não necessitarem deste tipo de medicamentos. A realidade torna-se mais grave numa altura em que o abuso dos antibióticos está a contribuir para que as bactérias sejam cada vez mais resistentes. Para inverter este cenário, nesta quinta-feira foi lançada uma campanha de sensibilização nas farmácias nacionais que quer deixar uma mensagem clara: “antibióticos em crianças: use, mas não abuse”.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica considera que esta campanha, promovida pela Cooprofar Farmácia - Cooperativa dos Proprietários de Farmácia, chega numa altura especialmente importante: no Inverno surgem mais problemas respiratórios e tende a aumentar o consumo desnecessário de antibióticos. “Há uma utilização abusiva dos antibióticos e isso passa-se mais ao nível das crianças do que do adulto. Nas crianças, cerca de 90% das infecções são de origem viral e no adulto esta relação é inferior, já que há mais infecções bacterianas”, explicou ao PÚBLICO Libério Ribeiro.

Questionado sobre as razões que estão na base do abuso, uma vez que os antibióticos são medicamentos cuja venda depende de receita médica, o especialista defendeu que há várias causas, que envolvem desde os farmacêuticos aos médicos e aos pais. A campanha, que terá cartazes em farmácias de todo o país, visa precisamente alertar pais, educadores e profissionais de educação para a importância de tomar este medicamento correctamente, assim como os próprios profissionais de saúde.

Libério Ribeiro admite que, por vezes, ainda há farmácias a dispensarem os medicamentos a clientes que conhecem, mas também atribui o problema a algum desconhecimento dos pais que insistem em pedir estes tratamentos e à falta de tempo dos médicos. “O número de crianças nos serviços de urgência chega a triplicar no Inverno. Acredito que com um exame mais cuidado e com mais tempo para acompanhar o doente se poderiam evitar muitas das prescrições de antibiótico”, sublinha.

O pediatra e imunoalergologista lembra que há dados bastante negativos sobre o consumo de antibióticos em Portugal. Em concreto sobre as crianças, o presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica cita valores que fazem parte do estudo ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood), sobre a prevalência de asma e de doenças como a rinite na infância. O trabalho estimou que “em Portugal, 54% das crianças no primeiro ano de vida já tinham tomado antibióticos pelo menos uma vez”. O médico alertou que nenhum medicamento é inócuo e que o uso inadequado de antibióticos, sobretudo nestas idades, altera a flora intestinal das crianças e pode influenciar o desenvolvimento de patologias do foro alérgico.

Em dois anos, o Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infecções e de Resistência a Antimicrobianos da Direcção-Geral da Saúde (DGS) conseguiu reduzir em 8% o consumo deste tipo de medicamentos nos hospitais, mas ainda há vários problemas, sobretudo na prescrição feita fora do contexto hospitalar. Portugal continua entre os dez países da União Europeia que mais antibióticos consomem e praticamente 10% dos doentes que são internados ainda contraem uma infecção hospitalar. Mesmo assim, de 2012 para 2013 a DGS registou um dado positivo, com os médicos de família a receitarem menos 10% dos chamados antibióticos “bomba” e a optaram por medicamentos mais dirigidos às bactérias em causa.

Um dos problemas está na falta de informação da população em geral, com 69% dos portugueses a continuarem a acreditar que os antibióticos servem para matar vírus e 61% a considerarem que estão indicados no tratamento de gripes e constipações, indica o último Eurobarómetro sobre este tema, divulgado em 2013 pelo gabinete de estatísticas da União Europeia.