Netflix chega a Portugal quando cada vez mais pessoas têm TV e Net em pacote

O serviço que permite ver séries e filmes online arranca esta semana. É o primeiro do género no mercado português.

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A estreia do Netflix em Portugal acompanha os lançamentos também em Itália e Espanha Reuters

Esta quarta-feira estreia-se um novo modelo de conteúdos televisivos em Portugal. O Netflix – um serviço de filmes e séries online por assinatura, independente dos operadores de televisão – vai abrir as portas no mercado português, onde cada vez mais pessoas já têm pacotes que combinam televisão paga e Internet. Este é também um mercado muito diferente dos EUA, onde a empresa nasceu, cresceu e ainda faz a maior parte do seu negócio.

Segundo dados da Autoridade Nacional de Comunicações, que regula o sector, 77% dos agregados familiares em Portugal tinham no final do primeiro semestre um pacote de serviços. São 3,1 milhões de clientes, mais 13% do que na mesma altura de 2014. A grande maioria destes pacotes inclui televisão paga. O Netflix vai ser, assim, tanto um concorrente, como um argumento de vendas para os operadores de telecomunicações.

O serviço funciona através de uma assinatura fixa mensal, que permite ver todo o catálogo disponível, tanto em televisões, como computadores, tablets e telemóveis, através do site ou de aplicações. “O Netflix não vive sem banda larga. O que acontece é que os serviços de Internet em Portugal vivem de ofertas combinadas. Em muitos casos, o serviço de Internet é muito próximo [em termos de custos] de um pacote que já inclui televisão”, observa Pedro Almeida, professor da Universidade de Aveiro e investigador em televisão interactiva.

Ao contrário do que acontece no sector da música, onde empresas como o Spotify estão a mudar profundamente o modelo de negócio, a história do Netflix não é a de uma empresa recente a transformar um negócio antigo. Por um lado, o Netflix (que não está muito longe de fazer 20 anos) disputa tempo de atenção e dinheiro dos clientes, ao concorrer com algumas ofertas televisivas, como é o caso dos canais dedicados a séries e dos serviços de videoclube. Por outro, é mais uma razão para os consumidores quererem ligações de Internet cada vez mais rápidas. É um fenómeno semelhante ao que acontece com aplicações de mensagens e chamadas, como o Skype e o WhatsApp, que se sobrepõem a alguns serviços dos operadores, mas são também argumentos para vender Internet móvel.

“Este será um serviço complementar à televisão normal”, antecipa Pedro Almeida. “Não tem conteúdos de televisão linear, como as notícias e o desporto. E, obviamente, Portugal não é um mercado com um poder de compra elevado.”

O Netflix e os operadores de televisão por assinatura até têm algo em comum (e não é apenas o facto de transmitirem séries e filmes): todos tiveram de mudar com a evolução da Internet e de se adaptar a uma era em que o televisor – para algumas gerações – é apenas o maior de vários pequenos ecrãs: em computadores, tablets e telemóveis, os ritmos de consumo são outros e os conteúdos são vistos a pedido e não a horas certas.

A empresa americana nasceu em 1997. Era então um serviço de encomendas online de DVD. Só dez anos volvidos – e dois anos após o aparecimento do YouTube – viria a transformar-se numa plataforma de transmissão de vídeos pela Internet (o negócio dos DVD ainda existe, mas é uma minúscula parcela nas contas da companhia).

Por seu lado, nos últimos anos, os operadores de comunicações também redesenharam as suas ofertas televisivas: fizeram crescer o número e a especialização dos canais; acrescentaram funcionalidades que vão da gravação de conteúdos à possibilidade de recuar e avançar na programação; e começaram também a vender aos clientes a possibilidade de ver televisão noutros aparelhos.

A Internet pode estar a estreitar o espaço para a televisão clássica, mas os conteúdos televisivos não estão necessariamente a perder audiência. “Ao contrário do que se possa pensar, não há uma redução do consumo dos conteúdos televisivos, pelo contrário. O que se tem verificado nas gerações mais novas é uma alteração dos locais e dos dispositivos em que consomem”, explica Pedro Almeida. “Nas faixas etárias dos 40 e 50 anos, a televisão é linear e vista nos dispositivos convencionais. Nos mais novos, os telemóveis e tablets já estão a ultrapassar a televisão”.

Neste novo terreno de jogo, também empresas como a Apple ou o Google estão a pôr o pé, comercializando aparelhos que permitem ver no televisor conteúdos transmitidos através da Internet. Já há alguns anos que os vídeos do YouTube podem ser vistos em muitas televisões. Nos EUA, há várias ofertas semelhantes ao Netflix e o chamado fenómeno do cut the cord (cortar o cabo) tem sido um tema quente no sector: alguns dos consumidores mais jovens, que passam muito tempo na Internet e têm menos rendimento disponível, abdicam dos serviços de televisão paga. Os dados dos grandes operadores de televisão mostram, no entanto, que as perdas de clientes são pequenas.

Internacionalização
Na Europa, o serviço começou a ser disponibilizado em 2012 e expandiu-se significativamente no ano passado. Entre os operadores de televisão europeus há quem veja o Netflix como um aliado: no mês passado, a Vodafone passou a oferecer em vários países assinaturas deste serviço, por períodos de seis meses a um ano. Esta semana anunciou um acordo com o Netflix para Portugal, para que os conteúdos desta plataforma fiquem a partir desta quarta-feira disponíveis para os clientes Vodafone TV.

Também em Portugal, a NOS lançou o NPlay, que veio antecipar o lançamento da plataforma americana. Está restrito aos clientes da operadora e dá a possibilidade de uma mensalidade fixa para se ter acesso a um catálogo de filmes e séries. “Continuamos a assistir ao crescente consumo de TV de forma não linear. Neste momento são já quase 80% dos consumidores portugueses a verem conteúdos em streaming várias vezes por semana”, observa a NOS, em resposta a questões do PÚBLICO. Esta foi a única das três grandes operadoras a aceitar responder a perguntas para este artigo, embora apenas por email.

A estreia do Netflix em Portugal acompanha os lançamentos também em Itália e Espanha. A empresa completa assim a cobertura da Europa ocidental e prepara-se para seguir para alguns países da Ásia. A aposta na internacionalização acontece quando a adesão de novos utilizadores nos EUA, onde o Netflix tem dois terços da facturação, está a dar sinais de abrandamento, ao passo que acelera no resto do mundo.

O Netflix não divulga números por país. Mas, fora dos EUA, conquistou 2,74 milhões de novo utilizadores entre Julho e Setembro, acima do que tinha estimado. A empresa diz que 2016 será o ano em que as operações fora do mercado doméstico vão finalmente a dar lucro. Só este ano, as perdas internacionais somam 225 milhões.

Notícia actualizada às 8h50 de 21/10/2015, com informação sobre acordo entre Vodafone e Netflix