Varoufakis foi a Coimbra e declarou o fim da soberania política na Europa

Antigo ministro das Finanças da Grécia encheu o auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e voltou a criticar a falta de democracia das instituições europeias.

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Sérgio Azenha
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Casaco escuro, calças de ganga e um cachecol vermelho. Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças grego e economista, entra no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra aplaudido pela assistência, que enche por completo a sala. É a primeira vez, dirá minutos mais tarde, que regressa à universidade “depois de um ano tumultuoso de negociações” no centro do poder. Esse centro está em Bruxelas, Frankfurt ou Berlim. Varoufakis foi a Coimbra a convite do Centro de Estudos Sociais (CES) para falar da democracia – ou da falta dela – na Zona Euro e da transferência da soberania dos Estados para aquelas cidades europeias.

Foi durante o debate que se seguiu à sua palestra, que deu alguns pormenores sobre a sua demissão a 6 de Julho, depois do refendo em que os gregos recusaram o terceiro programa de resgate proposto por Bruxelas. A provocação veio da assistência: Por que razão abandonou Alexis Tsipras?

Varoufakis manteve-se imperturbável: “Não abandonei ninguém”, garantiu, lembrando a “difícil” conversa que teve com o primeiro-ministro grego na noite do referendo, quando Alexis Tsipras lhe anunciou que apesar de ter recebido um não do povo grego iria assinar um documento com Bruxelas.

“Nunca poderia assinar um tal contrato”, justificou-se. “Sabia que tinha zero hipóteses de resultar. E sabem como é que sabia isso? Porque perguntei ao Sr. Schäuble [ministro das Finanças alemão] se ele assinaria e ele respondeu que não!”

E quando questionado sobre é preciso romper com as actuais instituições e com o sistema, Varoukakis lembrou que “em 2008 [quando deflagrou a crise económica e financeira mundial] o capitalismo colapsou” e foi substituído por uma “bankruptocracy”. Ou seja, um modelo em que a sociedade é dominada por “banqueiros falidos”. E. ironizou, “um verdadeiro capitalista, que quer investir, criar emprego, nos dias de hoje sofre quase tanto como os proletários”.

O antigo ministro das Finanças, que ia a Bruxelas sem gravata e durante várias semanas andou nas bocas do mundo por usar um cachecol de uma marca de luxo conhecida, lamenta os que, actualmente “têm a audácia de celebrar” a recuperação. “Qual recuperação”, questionou, quando a europa está a braços com a deflação, uma recessão em lume brando, jovens que não se revêem nas instituições.

Durante mais de uma hora, e perante uma plateia maioritariamente jovem, o antigo ministro de Alexis Tsipras  - de quem diz continuar a ser amigo -  contou a sua versão do que aconteceu ao longo do último ano na Grécia e nos países que estiveram sujeitos a um programa de ajustamento, à luz do passado das instituições europeias. “Ao criar um cartel e uma moeda única por cima, os povos europeus transferiram a soberania para Bruxelas, mas em Bruxelas há um buraco negro porque o Parlamento não pode ter iniciativas legislativas e está lá para legitimar decisões ilegítimas”, resumiu.

O modelo político tradicional provou-se que “não funciona”, lamentou Varoufakis. “A soberania política foi substituída pela soberania do consumidor”, defendeu. E recorreu ao poeta inglês do século XVIII William Cowper para destacar a importância de se recuperar essa soberania. “A soberania democrática tem tantos encantos que os europeus, enquanto consumidores, nunca a conhecerão”, disse o economista, substituindo a palavra “liberdade” da frase original pela expressão “soberania política” e os “escravos” pelos “europeus”.

A solução, defendeu, passa por criar “um novo modelo de política” que tenha uma dimensão pan-europeia e que resulte de um debate alargado, independentemente da cor política de cada um, sobre as instituições que devem ser criadas.

Da sua passagem pelas reuniões do Eurogrupo (que congrega os ministros das Finanças dos países da moeda única) reteve uma imagem: as decisões são tomadas com base na “ignorância” e não há disponibilidade para se discutir as regras. E conta como foi acusado de má-fé por enviar um e-mail aos outros ministros das Finanças com as propostas do governo grego que iam ser discutidas numa dessas reuniões. “Tive a audácia de falar sobre economia no Eurogrupo e fui acusado de ser um perigoso comunista”.

Todos os anos, o CES convida um cientista de renome internacional para dar a aula inaugural dos programas de doutoramento da Universidade de Coimbra em que está envolvido. Como existem 13 programas de doutoramento “procuramos convidar cientistas que abordem algumas das temáticas presentes de forma interdisciplinar”, explica ao PÚBLICO João Paulo Dias, director-executivo do CES.

A vontade de trazer o antigo ministro das Finanças grego a Coimbra é anterior à sua passagem pelo Governo, diz. “Mas dificuldades financeiras e de agendas não o permitiram”, justifica. A aula, garante, não foi remunerada. “Tal como efectuamos para outros convidados, as despesas seguem as regras estabelecidas, entre outras, o pagamento de viagens em classe económica”, concretiza o director-executivo do CES.

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