Buika sem medos nem filtros

Ao sexto disco, Buika continua a criar música por impulso. E leva a ideia de liberdade muito a sério. Vivir Sin Miedo chega esta sexta-feira.

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A par do disco, que está agora a lançar, Buika envolve-se em múltiplas actividades. Está a escrever um conto, a preparar mais músicas, vai participar numa ópera sobre Julia Pastrana (1834-1860) DR

Buika responde não raramente “não sei” a perguntas que a inquietam. Mas sabe. E tem depois uma resposta clara, certeira, que ela não é de evasivas. O seu pensamento e a sua fala movem-se como a sua música, de forma instintiva, rápida, quase felina. O que lhe vem à mente tem de traduzi-lo depressa, e daí nascem músicas, poemas, fotografias, livros, discos. O mais recente, Vivir Sin Miedo, chega esta sexta-feira às lojas e dá seguimento ao eclectismo de La Noche Más Larga (2013), mas com maior acerto vocal e tonalidades sonoras multicolores, do flamenco ao hip-hop, do reggae à soul, da pop aos ritmos afro-latinos.

O vulcão vocal dos primeiros tempos não se extinguiu, moldou-se a novas formas. Buika (2005), Mi Niña Lola (2006) e Niña de Fuego (2008), os seus primeiros discos, formam a trilogia flamenca, emocionalmente insuperável, dos tempos em que trabalhou com Javier Limón. El Último Trago (200) e En Mi Piel (2011) asseguraram uma fogosa transição, enquanto La Noche Más Larga (2013), o seu trabalho mais desequilibrado, e Vivir Sin Miedo retratam-na hoje.

Nascida em 1972, em Palma de Maiorca, filha de imigrantes da Guiné-Equatorial (que foram para Espanha para escapar à ditadura de Nguema, hoje continuada por Obiang), Buika trocou há cinco anos Espanha por Miami, onde agora vive. Isso influenciou-a?

“Não sei. A minha música é muito mutante, está em constante movimento. Mas creio que o que influencia mais a minha música é viver viajando por todo o mundo, mais do que viver em Miami, onde aliás passo muito pouco tempo. É verdade que Miami tem uma comunidade muito grande de músicos, porém, daqueles com quem trabalho, um está na Suécia, outro em Inglaterra, outro em Sevilha, outro em Madrid… Tenho uma banda muito multicultural.” Mas algo mudou, desde que vive em Miami. “Agora vivo num 23.º andar, vejo todas as migrações de pássaros, os entardeceres e os amanheceres, o curso das tormentas, vejo muitas coisas no céu. E isso mudou muito a minha percepção de trabalhar, porque agora trabalho no silêncio mais absoluto, algo que nunca havia feito.” O título do disco, Vivir sin Miedo, “Não sei. É uma utopia. Normalmente escolho um dos títulos das canções de cada disco. Não sou muito boa a escolher títulos.”

Se há uma coisa que ela realça como distintiva neste seu novo trabalho á a autoria das canções: “Este disco é o meu primeiro disco em que todas são escritas por mim.” Algumas compostas só por ela, letra e música (Vivir sem miedo, Yo iré, Waves), outras em parceria, com Jason Mraz (Carry your own weight), Abraham Moughrabi (Mucho dinero, Good men, Cidade do amor) e Glen Scott (The key (misery) e Sister). Jason Mraz aparece no disco, não porque ela o conhecesse já, mas porque uma das canções que Buika escreveu, Carry you own weight, parecia incompleta depois de gravada, ela tinha a sensação de que “lhe faltava algo”. Ausentou-se por uns dias e, quando voltou, o produtor do disco, o guitarrista Martin Terefe, já tinha mostrado a canção a Jason Mraz (são amigos) e este tinha-a gravado. Buika gostou do resultado e assim ficou.

Outra das canções tem nome em português, Cidade do amor, embora seja cantada em inglês e espanhol. Porquê a contradição? Ela justifica: “Em português o nome soava-me tão belo, mais poético. E era muito parecido com o som da própria canção. Na verdade, nunca tive medo de idiomas, de misturar as coisas. Pareceu-me muito bonito.”

Se o flamenco surge mais diluído neste disco, ele está muito presente nalguns temas e na presença dos Irmãos Porrina (Ramón, Piraña e Sabu) e de Potito (que partilha os vocais com ela em Waves). “Sempre haverá um pouco dessa cor na minha música. Os Porrina, sempre trabalhei e trabalharei com eles. Ramón é um dos mestres da percussão e dos arranjos, conhece bem a minha garganta e sabe como fazê-la funcionar.”

“Sou um soldado”
No disco há uma única balada, Sister, a fechar. Buika diz: “Este era para ser um disco de movimento, mais de acção do que de esperança. E a mim interessava-me que tivesse este ritmo quente.” Mas porquê agora? “Porque era o melhor momento. Porque concluídas as ideias, chegámos a um som muito concreto e era preciso gravá-lo. Eu não acredito no direito à liberdade. Ou há liberdade ou não há. Porque direito à liberdade temo-lo todos, a não ser que tenhamos cometido algum crime, ou matado alguém. É uma coisa total e absolutamente natural. Então porquê agora? Porque posso. Durante a minha carreira sempre me dirigi para onde os sentidos me levavam, homenageei a canção mexicana, a canção brasileira, cantei em português, em inglês, em francês, em hebreu, em arménio, em muitos idiomas. E neste disco quis fazer uma homenagem ao inglês como idioma, porque é um idioma universal muito bonito, que nos une a todos.”

A par do disco, que está agora a lançar, Buika envolve-se em múltiplas actividades. Está a escrever um conto, a preparar mais músicas, vai participar numa ópera sobre Julia Pastrana (1834-1860), uma mexicana de origem indígena nascida que sofria de hipertricose e ficou conhecida como “mulher-macaco”. “Nunca paro.” Como consegue isso? “Não tenho namorado”, responde com uma gargalhada. Mas tem um filho, e já com 16 anos. “Que gosta muito de produção musical, hip-hop... Ajuda-me muito.”

A par do disco, tem também um novo livro nas lojas, lançado há já vários meses: A Los Que Amaron A Mujeres Difíciles Y Acabaron Por Soltarse (Edaf, Madrid), com fotografias, reflexões, poemas, histórias. Aborda um mundo interior atormentado, de amores, paixões, desencantos e medos. Porquê tal título? Evita o “não sei” e diz num fôlego: “Sou um soldado, não tomo decisões. Deixo-me simplesmente levar e escrevo o que me passa pela mente. Não uso filtros nem censuras. E por isso faço as coisas.”