O novo começar de Mariza

Já passou meia década desde que Mariza gravou um disco de originais. Segundo a fadista, mudou tudo. Podem tirar as teimas este sábado, no “mini-micro-concerto” de apresentação do disco.

Foto
O disco Mundo pode parecer um resumo do que foi a carreira de Mariza nos últimos anos dr

Foram cinco anos sem discos e dois e meio de ausência dos palcos, mas eis que finalmente chegou Mundo, o sexto álbum de originais de Mariza, editado esta sexta-feira.

 Quem quiser ter um cheirinho do disco pode dar este sábado um pulinho aos Armazéns do Chiado, em Lisboa, às 18 horas, onde dará com um palco montado para um espectáculo aberto ao público. Mas não esperem, para já, um concerto tradicional – trata-se apenas de uma amostra do que vai ser a próxima digressão, que, de seguida, vai estender-se aos Estados Unidos da América e ao Canadá. No fim há uma sessão de autógrafos. No fim do concerto, não da digressão.

Mundo pode parecer um resumo do que foi a carreira de Mariza nos últimos anos – isto é, nos últimos anos antes do hiato. O lado “world music”, que marcava fortemente Terra (de 2008), está presente em temas como a morna Padoce de céu azul; o fado tradicional, que a celebrizou (e dava nome ao álbum de 2010, Fado Tradicional) surge em Sombra ou Maldição. Pelo meio há canções, como Alma ou Paixão, canções no sentido clássico do termo, sem sombra de fado. Uma ou outra chega mesmo a raiar a balada.

Alguns verão esta combinação como indecisão, outros dirão que Mariza alcançou o estatuto para fazer o que lhe dá na real gana, enquanto terceiros ponderarão se os desvios ao fado presentes em Mundo serão uma reacção ao conservadorismo de Fado Tradicional. “Não, este disco não é uma reacção ao Fado Tradicional”, dizia-nos há dias a fadista, rindo-se, em conversa com o PÚBLICO. Nos cinco anos que ficou sem gravar (metade dos quais sem pisar palcos, recorde-se) tentou “perceber como poderia conciliar a estrada e ser mãe”. E com esta simples frase está dada a explicação para tão longa ausência do mercado discográfico de uma artista que, quando parou, estava no topo do jogo.

Fado Tradicional, continua, “surgiu na altura certa, porque [Mariza] era embaixadora [da candidatura do] fado [a] Património Imaterial da Humanidade [segundo a Unesco] e fazia todo o sentido nesse contexto”. O álbum, diz hoje a fadista, olhando para trás, constituía “uma espécie de agradecimento a toda a gente que [a] ensinou, um agradecimento a esse universo”.

Por sua vez, Mariza considera que Terra, o disco em que levou mais longe a sua experimentação com linguagens alheias ao fado, “era a continuação do Transparente”, o terceiro disco que lançou, em 2005. Hoje damos Mariza como uma estrela adquirida, mas  convém recordar que na altura tinha apenas quatro anos de carreira – ou quatro anos de carreira em disco, para sermos exactos.

O seu disco de estreia, Fado Em Mim, lançado em 2001, abalou o mundo do fado – e não só: Mariza tornou-se, do dia para a noite, uma estrela maior que o mundo da guitarra portuguesa. Em pouco tempo o seu alcance tornou-se global, razão pela qual a sua longa ausência pode ser vista como uma opção incomum, nos dias que correm: não há muita gente disposta a abdicar do trono. Mais: pode argumentar-se que foi a sua internacionalização que abriu espaço ao êxito de outras fadistas. É possível que Ana Moura não conquistasse os Estados Unidos se não fosse o êxito de Mariza. Por aqui se percebe a importância deste regresso.

Essa importância é notória na palavra – curiosa, diga-se – que Mariza usa para definir esta nova etapa: “O Mundo é um começar”, afirma. Não um recomeçar, um começar. Como se houvesse uma nova Mariza. A razão para tal prende-se com a maternidade: “Para mim, ser mãe mudou tudo”, diz, recorrendo de um exemplo pouco convencional para fazer ver o seu argumento: “No tango existe um antes e um depois do Piazolla. Para mim existe um antes e depois do Martim [o filho].”

A maternidade trouxe-lhe “toda uma nova gama de emoções e de amor, que não conhecia. E toda uma nova forma de cantar” que, segundo a fadista, pode ser notada nos temas mais lentos, mais próximos da balada, que se encontram em Mundo. “As canções mais paradas são mais emotivas, mais íntimas”, diz, e essa emotividade, essa intimidade foi algo que procurou.

Com a maternidade, as prioridades de Mariza enquanto artista mudaram: “Senti necessidade de estar mais próxima das pessoas, de que o concerto fosse mais intimista”, conta. Mas um artista é um artista e algum dia Mariza precisaria de voltar a cantar coisas novas. A meio do seu semi-exílio , recorda, sentiu “necessidade de gravar” e, mais especificamente, sentiu necessidade de “que [as pessoas] conhecessem o [seu] mundo, conhecessem quem [ela é] hoje”. A fadista crê que o objectivo foi alcançado, exemplificando com a reacção de um amigo ao ouvir a sua voz em Mundo: “Disse-me ‘Nem pareces tu.’ Eu gostei da reacção”.

Há dois anos, conta, “toda a gente me perguntava quando gravava”. Foi mais ou menos nessa altura que, “no fim de um concerto na Alemanha”, Mariza teve “vontade de voltar a estúdio”. Não houve muitas dúvidas acerca do que fazer: “Desde o princípio tinha na cabeça o nome do [produtor] Javier Limón, porque temos muito em comum”. Mariza e Limón, recorde-se, já haviam trabalhado juntos em 2008 – foi Limón quem produziu o disco Terra.

Mariza conta que, durante o seu interregno, os seus amigos músicos, os compositores, “iam fazendo coisas que [lhe] mostravam. O Javier trouxe o Sombra, o Mário Pacheco trouxe-me o Rio de Mágoa”. De modo que quanto a ter temas para um novo disco podia estar descansada. “E quando souberam que eu ia gravar trouxeram ainda mais coisas. O Miguel Gameiro, todos os meus amigos compositores trouxeram canções”.

Não havia, portanto, falta de material para escolher. E também não houve necessidade “de dar grandes indicações” aos compositores, acerca do que escrever e como escrever. “Como somos todos amigos, eles conhecem-me bem, sabiam o que eu tinha vivido e o que eu queria”, explica. Segundo Mariza, “neste disco todas as músicas foram feitas a pensar em [si]. E as outras [foi ela] que [foi] pesquisar”. O seu agrado com Mundo é tal, que o descreve como “um vestido feito à medida”.

Um exemplo dessa pesquisa é Padoce de céu azul, “uma morna antiga, que o Tito Paris já cantou” e que “há muito” que Mariza “sonhava gravá-la”. Sendo tão recorrentes as abordagens de Mariza à música africana poderia dar-se a hipótese de ela ponderar um dia fazer um disco dedicado apenas ao continente africano. Mas ela afasta humildemente essa ideia: “Não me imagino a fazer um disco só de música africana. Para o poder fazer é preciso um grande conhecimento, e eu não tenho esse conhecimento. São muitos ritmos, muitos dialectos, instrumentos diferentes, é preciso saber muito”.

Por outro lado, é nos fados que Mundo se eleva a um nível extraordinário. Não se notam os anos de ausência dos discos, antes pelo contrário: pode argumentar-se que nunca a voz de Mariza soou tão bem, em fado, em particular em termos de colocação e controlo. Ela não fica aborrecida se as pessoas preferirem os fados aos restantes temas: “A partir do momento em que o disco vai para a rua, deixa de ser meu. Não posso dizer às pessoas o que devem gostar”.

Para Mariza apelidar Mundo de “um começar” é porque não vê a sua ausência de meia década dos discos como um hiato, antes quase que um renascimento pessoal. No entanto, e admitindo que há diferenças para os discos anteriores, em particular nos temas mais lentos, pode defender-se que Mundo é um resumo e uma continuação de todas as pistas que ela deixou para trás. Talvez este não seja um começar – talvez a forma mais apropriada de descrever Mundo seja chamar-lhe um novo começar. O que poderá ser aferido hoje, no “mini-micro concerto”, como Mariza lhe chama, em que as pessoas poderão esperar “os mesmos músicos de sempre” a tocar canções novas.