Crítica

A luz não faz bem a Lana del Rey

É uma pena que Lana del Rey não tenha escolhido manter-se entre as sombras. A luz não lhe faz bem.

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Lana del Rey : a luz não lhe faz nada bem DR

Lana Del Rey canta o eterno glamour californiano, construído tanto desse imaginário marcado pelo oceano bem próximo, pelo brilho dos sonhos de Hollywood, pela atracção que aquele pedaço de terra exerce desde há muito sobre os artistas (mais ou menos) malditos que a povoam, quanto pelo reverso desse mesmo sonho: o desespero e a decadência de quem não encontra ali a tal terra prometida e desaparece na paisagem com (mais ou menos) estrondo – Mullholand Drive, de David Lynch, La Confidential ou A Dália Negra, de James Ellroy, ilustram bem essa ambivalência.

Honeymoon é já o quarto álbum de Lana Del Rey e sucede ao óptimo Ultraviolence, produzido por Dan Auerbach, dos Black Keys (e o travo clássico da produção não enganava). Por esta altura, as discussões de há milénios sobre a sua autenticidade, o que quer que autenticidade signifique no universo da pop, já são conversa requentada sem interesse algum. Lana Del Rey é a cantora atormentada, assombrada por amores excessivos e abusivos, mulher fantasmagórica e construção, criada sobre a mitologia da música popular urbana, que se tornou incrivelmente convincente: nestas canções, acreditamos nela e é aí, não na biografia privada, que temos que acreditar (tudo o resto é matéria para cliques em rede social e especulação tablóide). Honeymoon, então.

Nele coexistem, na verdade, dois álbuns. Um deles é música de espectros arrancada a standards jazz de orquestrações opulentas, ritmo em câmara lenta e uma voz que se ergue sobre a instrumentação como se esta não estivesse lá – a voz, ora gélida, ora vaporosa, sobrevoa o som como se este tivesse chegado depois para cobrir aquilo que as palavras, e o tom com que são ditas, já sugeria. Esse, o disco de Honeymoon, de Music to watch boys to (com referências a Space oddity, de David Bowie, e neblina trip hop), ou de God knows I tried, com sintetizadores ambientais dobrados pela secção de cordas e a guitarra reverberante que parece fundação de toda a música, é um álbum a que não conseguimos escapar: Lana Del Rey afogando-se nos abismos sentimentais que são, desde o início, o seu rastilho criativo, Lana Del Rey como protagonista de canções de uma opulência à velha Capitol, a de Sinatra, e de uma intemporalidade irrepreensível, envoltas em neblina digital moderna.

O outro álbum, que se anuncia quando avançamos pelas 14 canções de Honeymoon, não consegue manter o feitiço. Se High by the beach, introduz, e bem, mecânicas hip hop nestes movimentos lânguidos, dopados, que são os de Lana Del Rey (“we won’t survive, we’re sinking”, canta com aquele dramatismo blasé que já é imagem de marca), se é difícil resistir à produção saturada e ao ambiente cinematográfico de Art deco, o mesmo não se pode dizer de Freak (“Come to California/ be a freak like me too”) ou Salvatore, em que o negrume se torna afectação e, principalmente, em que as sombras se desvanecem para ceder a uma ideia de canção vagamente alinhada com o estrépito pop da década de 1980.

Quando chegamos à despedida, que se anuncia com uma versão descarnada de Don’t let me misunderstood, de Nina Simone, órgão vintage a fervilhar e guitarra iluminando a interpretação sabiamente contida, temos por certo que vale a pena continuar a acompanhar com o atenção o intrigante caso de Lana Del Rey. Temos por certo, igualmente, que Honeymoon podia ser um grande álbum. É uma pena que Lana del Rey não tenha escolhido manter-se entre as sombras. A luz não lhe faz bem.