Nobel da Medicina recompensa três investigadores por trabalhos sobre parasitas

Os dois medicamentos descobertos pelos laureados – um vindo do solo japonês e o outro da medicina tradicional chinesa – “revolucionaram o tratamento de algumas das mais devastadoras doenças parasitárias”, segundo o comité do Nobel.

Urban Lendahl, secretário do comité do Nobel, a anunciar o prémio
Urban Lendahl, secretário do comité do Nobel, a anunciar o prémio Jonathan Nackstrand/AFP
Fotografias dos laureados: William Campbell, Satoshi Omura e Tu Youyou
Fotografias dos laureados: William Campbell, Satoshi Omura e Tu Youyou Jonathan Nackstrand/AFP
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O prémio Nobel da Medicina de 2015 foi atribuído esta segunda-feira aos investigadores William Campbell e Satoshi Omura "pelas suas descobertas acerca de um tratamento inédito contra as infecções causadas por parasitas nemátodos"; e à cientista Tu Youyou, "pelas suas descobertas acerca de um tratamento inédito contra a malária", anunciou o comité do Nobel no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia).

William Campbell nasceu na Irlanda em 1930 e é investigador emérito na Universidade Drew (EUA); Satoshi Omura (nascido em 1933 no Japão), é cidadão japonês e professor emérito na Universidade de Kitasato (Japão). Ambos partilham metade do prémio. A outra metade recompensa a chinesa Tu Youyou (nascida em 1930), da Academia de Medicina Chinesa Tradicional da China. O montante total do prémio é de oito milhões de coroas suecas (mais de 856.000 euros).

Eis alguns números que mostram até que ponto as doenças parasitárias constituem um gravíssimo problema de saúde pública. Por exemplo, estima-se que os chamados parasitas – ou vermes – nemátodos afectam um terço da população mundial, sobretudo na África Subsariana, no Sul da Ásia e nas Américas Central e do Sul. Uma dessas doenças, particularmente incapacitante, é a oncocercose, também chamada “cegueira dos rios”, que provoca uma inflamação crónica da córnea e conduz a perda total da visão. Outra é a filaríase linfática, mais conhecida como elefantíase, que atinge mais de 100 milhões de pessoas e causa inchaços monstruosos e crónicos em diversas partes do corpo.

Também a malária é uma doença parasitária, desta vez causada por parasitas unicelulares que são transmitidos aos seres humanos por mosquitos infectados. Os parasitas invadem os glóbulos vermelhos do sangue, causando febre e, nos casos mais graves, lesões cerebrais e morte. Mais de 3400 milhões de pessoas no mundo estão em risco de contrair a doença, que vitima 450.000 pessoas por ano, sobretudo crianças.

Campbell e Omura descobriram uma nova substância, a avermectina – um derivado da qual, a ivermectina, permitiu reduzir drasticamente a incidência da cegueira dos rios e da elefantíase. “O tratamento tem tido tanto êxito que estas doenças estão à beira da erradicação, o que seria um feito maior da humanidade”, diz o comité do Nobel em comunicado.

Pelo seu lado, Tu Youyou descobriu um outro medicamento, a artemisinina. “Hoje em dia, a multiterapia à base de artemisinina tem reduzido profundamente a incidência e a mortalidade da malária, salvando milhões de vidas no mundo.” lê-se noutro documento emitido pelo comité do Nobel.

“Estas duas descobertas deram à humanidade poderosas novas ferramentas para combater estas doenças incapacitantes, que afectam centenas de milhões de pessoas no mundo todos os anos”, lê-se no mesmo documento.

A história das duas descobertas envolve bactérias que vivem enterradas no solo e plantas cujas propriedades terapêuticas estavam também elas “enterradas” em misteriosos e antigos compêndios de medicina tradicional chinesa. E põe assim em evidência o potencial dos compostos presentes na natureza para combater as doenças humanas.

As pesquisas que conduziram ao desenvolvimento da ivermectina partiram de Satoshi Omura, microbiólogo de formação, cuja especialidade era isolar bactérias a partir de amostras de solo. Omura desenvolveu métodos totalmente inéditos para cultivar e estudar bactérias do género Streptomyces, que se sabia produzirem diversas substâncias com qualidades antibacterianas. E isolou uma série de novas estirpes, seleccionando 50 das mais promissoras em termos terapêuticos. 

Reza a lenda que Omura, grande adepto de golfe, terá descoberto essas novas estirpes no seu clube de golfe. Numa curta conversa telefónica esta-segunda feira com Adam Smith, da Fundação Nobel – e depois de ter “humildemente” (mas com alegria) aceitado o galardão e quase ter dito que não o merecia – Omura explicou, entre risos, que não foi no relvado do campo de golfe que descobriu aquelas bactérias, mas numa área de floresta que ladeava o terreno.

Seja como for, Campbell adquiriu as culturas bacterianas de Omura e decidiu estudar mais a fundo a sua eficácia. Foi assim que mostrou que uma dessas culturas continha um componente “cuja eficácia contra parasitas dos animais domésticos e de criação era notável”, explica ainda o comunicado Nobel. A seguir, esse composto – a avermectina, que foi entretanto modificada e rebaptizada invermectina – foi testado em seres humanos, mostrando-se capaz de matar as larvas de uma série de parasitas nemátodos.

Basta uma dose anual de ivermectina oral para proteger as pessoas da cegueira dos rios. E desde 1987 que o medicamento, comercializado pelos laboratórios Merck, é distribuído gratuitamente pelo fabricante no mundo inteiro.

Compêndios antigos

Entretanto, nos anos 1960, a malária costumava ser tratada com quinino, mas o sucesso desse medicamento estava em queda. Foi perante esta situação, relata o comunicado, que Tu Youyou decidiu virar-se para as plantas medicinais utilizadas na medicina tradicional chinesa. Fez um levantamento das ervas medicinais utilizadas para tratar animais infectados pelo parasita da malária e descobriu um composto que parecia interessante: um extracto de Artemisia annua, uma planta autóctone das regiões temperadas da Ásia.

Só que a eficácia desse extracto não era clara. Isso levou a cientista a consultar antigos tratados de literatura médica chinesa. E foi aí que descobriu diversas pistas que lhe permitiram extrair o componente activo daquela planta medicinal, que mais tarde seria baptizado artemisinina. O composto deve a sua alta eficácia contra o parasita da malária, tanto nos animais infectados como nos seres humanos, por matar os parasitas numa fase precoce do seu desenvolvimento, salienta o comunicado. Em combinação com outras terapias anti-malária, é hoje utilizado no mundo inteiro.

“O impacto global [destas] descobertas e o benefício resultante para a humanidade são incomensuráveis”, conclui o comité do Nobel.

Notícia alterada no dia 06/10/2015 às 20h00