Miguel Manso
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Miguel Manso

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Partidos sem Jokers na manga colocam os Fantasmas na mesa

Na recta final da campanha, os partidos do "arco da governação" jogam as suas cartas mais baixas

O marketing político em Portugal (e não só) está cada vez mais monótono. A viver em democracia há 40 anos, os partidos que sempre venceram as eleições (e talvez por isso mesmo) mantêm as suas aborrecidas estratégias de apelo ao voto. Em nome da cruz no quadrado certo, o massacre teima em repetir-se a cada sufrágio, sempre pago pelos eleitores aos políticos por aqueles escolhidos (sim, é mesmo complicado). É mais um cenário de auto-flagelação previsto nos sistemas democráticos, e que tem momentos tão, mas tão previsíveis:

A Fase Querida I

As campanhas começam discretas, mornas e coloridas, com moderadas intervenções em nome do bem-estar de cada um dos cidadãos, e, preferencialmente, não fazendo referência ao passado tantas vezes recente dos seus actores. A ideia é sempre muito simples: "Acabámos de chegar, desta vez é mesmo a sério, e se acham que conhecem a minha cara de algum lado isso é pura coincidência ou erro de paralaxe. Sim senhor, estamos aqui todos em nome de um interesse comum, e todos queremos melhorar a vida de cada português". Quem ganha é Portugal. Nesta fase os políticos do "arco da governação" tendem a parecer muito patrióticos e queridos uns com os outros. Não estão de acordo, mas entendem as diferentes perspectivas e até as respeitam!

A Fase da Porrada Verbal

Nesta fase, e para que ninguém adormeça, as campanhas vão para a rua ("arruadas", essa pérola do nosso vocabulário) e para os debates na TV. O discurso é refinado, com propostas tão concretas quanto complexas, tentando dar-lhes credibilidade pelo testemunho dos mais reputados especialistas nas várias matérias. Tão fácil como vender pastas dentífricas: algum tempo de antena a um cromo alemão vestido de um branco imaculado que nos explica como as bactérias provocam as cáries. Regra geral, esta é fase mais aborrecida de toda a aborrecida campanha. Ninguém entende nada da argumentação utilizada em debates ou discursos inflamados, mas também ninguém adormece porque é sempre engraçado ver gente desta à porrada. Durante o ano também se podem ver nestes preparos na ARTV. Esta é a fase em que se usam neologismos, ou palavras de compreensão muito difícil. O rigor não é assim tão importante, porque nesta fase há tempo para desdizer sem pudor o que se tinha sido dito minutos antes. É uma etapa onde o importante é mesmo complicar e criar a dúvida onde ela nunca existiu, tentando deixar o eleitor a lutar com a sua consciência e a achar que, afinal, a culpa até pode ser toda sua.

A Fase das Sondagens e das "Tracking Polls" (estamos muito à frente)

Quando começam as sondagens, habitualmente encomendadas a empresas da especialidade por grupos de média (!), as campanhas têm sempre tendência a mudar. A incógnita do impacto das fases anteriores dá lugar à rectificação dos discursos e posicionamentos. Também conhecida por "Fase da Loucura", é um momento em que os candidatos habitualmente se libertam criativamente de tudo o que disseram até à data, e tentam ajustar os conteúdos aos números publicados mais recentemente, e com suposta validação científica. Se uma dada candidatura, no início da campanha, é dada como perdedora face a anos anteriores mas se os números das sondagens contrariam esta ideia e a colocam próximo da vitória, muda-se o guião e fala-se da vitória possível como se não existisse amanhã. É nestes momentos que vulgarmente surgem as mensagens mais criativas: maioria, estabilidade, maioria absoluta. Para o mais comum dos eleitores, esta é sempre a fase mais emocionante: catadupas de números aparecem nas manchetes e nas aberturas de noticiários, na esperança de provocar mudanças inesperadas. É o "shaker" de qualquer campanha, um novo formato de totobola paralelo não organizado pela Santa Casa da Misericórdia.

A Fase dos Fantasmas

Também amplamente conhecido como a "Fase Querida II", este é o período em que "os partidos do arco da governação" normalmente se põem de acordo. São queridos uns com os outros, unidos contra os Fantasmas que dispersam votos. Os Fantasmas normalmente são os partidos que pensam diferente dos que ganham eleições, são os que nunca as ganharam nem nunca virão a ganhar. Parecem ter um papel absolutamente desnecessário, e, segundo os "partidos do arco da governação", só servem para atrapalhar. Por isso se convencionou chamar-lhes radicais, na impossibilidade de os exterminar radicalmente por causa da Constituição. Na última semana de campanha prolifera o discurso contra os radicais que já lá estavam desde o início dessa mesma campanha. Votar em partidos radicais (CDU, BE, LIVRE, AGIR, PCTP-MRPP, PAN, MPT) é, para os partidos do "arco", tanto um exercício de cidadania (versão politicamente correcta) quanto um exercício de estupidez.

Todos esses Fantasmas radicais que só causam ruído, aparecem referidos nas campanhas do "arco" como ameaças sérias a todos os valores que o país deve preservar. Esta fase da campanha que quase esta semana termina, é por isso uma fase de desespero. E em desespero vale tudo, até retroceder 41 anos e tentar as estratégias do medo a forças demoníacas e ocultas. Mas, são as últimas cartas que "os partidos do arco da governação" podem jogar: sem Jokers na manga colocam os Fantasmas na mesa. Paradoxalmente, na última semana os partidos ditos "radicais" vão ter o maior tempo de antena de toda a campanha: as sondagens vão anunciar subidas na sua votação, e as declarações dos seus candidatos serão amplificadas. Só para que fique claro como são perigosos para o "sistema democrático do arco da governação" e para o nosso Portugal.