Opinião

De que lado está o Provedor?

Os media, entre os quais obviamente incluo o PÚBLICO, ainda não encontraram uma metodologia e uma prática para contrariar estes esquemas de campanha caduca e obstrucionista.

1. A minha última crónica sob o título De que lado está o Público? deu azo a que diversos leitores me enviassem réplicas. Nesse texto, procurava inventariar algumas das discordâncias e críticas de leitores a propósito do posicionamento do PÚBLICO face à cobertura noticiosa e artigos de opinião sobre os diversos partidos e respectivos líderes em confronto nesta campanha.

De elogiar, o tom cordato de discussão dos leitores que me interpelam. Tudo somado, prevalece a conclusão expressa pelo leitor Rui Miguel Galrinho que, citando o meu texto, diz: “todas as conclusões estão sempre feridas pela lente de visão parcial, e não isenta, que cada leitor, cada ouvinte ou telespectador reclama”. Mas acrescenta: “também de cada direcção de jornal, cada editor e cada jornalista”. E acrescento eu: também, de cada provedor. Contudo, este leitor e o leitor José Carlos de Sousa estranham por eu não ter feito um reparo reprobatório sobre o subtítulo da 1ª página em que se escreve: “Passos Coelho EXIGE vinda da Troika”. De facto, relendo agora a carta publicada, reconheço que essa expressão “exige” nunca é utilizada na carta. E, efectivamente, nem o valor documental da publicação que relevei justifica o tom imperativo do subtítulo. Contundentemente, diz Rui Miguel Galrinho: “não se trata de ver a coisa pela lente direita ou pela lente esquerda; trata-se de turvar a lente”. Aqui, também a lente do provedor estava “torta”. E o que deveria preocupar o provedor “era a notícia enviesada que o jornal fez”. Dentro deste tema, o leitor Francisco Peixoto confidencia: ”o PÚBLICO tem vindo a desiludir-me ao longo destes últimos anos, pese embora a qualidade superior de alguns ensaístas”, mas a sua “tendência à Esquerda tem-se acentuado”. Por seu turno, o leitor António Gonçalves insurge-se pelos ataques pessoais, ofensivos e lesivos da honestidade que o PÚBLICO tem deixado passar nos textos dalguns dos seus cronistas (fixos ou de ocasião) contra o secretário-geral do PS, António Costa. (Aqui, comento eu, para este leitor, o PÚBLICO está à Direita). Ora, como o leitor sabe, eu tenho por princípio não me imiscuir nos artigos de opinião. Evidentemente, não posso concordar, de modo algum, com conteúdos insultuosos e julgo que, a não ser por lapso ou distracção, neste calor de campanha eleitoral, o PÚBLICO fará sempre código de honra desta norma: “a honra, a dignidade e a reputação de pessoas individuais e colectivas devem ser escrupulosamente respeitadas nas páginas do PÚBLICO.” (Extracto do Livro de Estilo).

Mas voltemos à prefiguração da lente. Efectivamente, a maior parte dos textos publicados na secção Espaço Público, neste período de campanha, são acentuadamente de defesa da perfilhação ideológica e partidária de cada autor. É verdade que alguns textos têm uma carga de pura e dura propaganda política. De tal modo, — como já outra vez defendi — deveriam ser taxados como publicidade.

2. Alguns leitores acusam o meu estilo relapso de transcrever queixas e respostas dos visados, mas sem comentar concretamente e, sobretudo, sem tomar posição mais incisiva a favor de quem tem razão. Assumo este estilo, obviamente muito próprio. Ao proporcionar nas páginas do jornal a publicitação de acusações ou queixas dos leitores sobre condutas do jornal ou de jornalistas visados, julgo, cumpro com a minha missão. A interpretação deste meu papel não me obriga a ser justicialista. Recuso naturalmente alimentar um clima polemista. Creio que divulgar a crítica, a acusação e sempre que possível a reacção dos visados, completa, de modo suficiente, o circuito da instância de reflexão crítica que cabe ao provedor promover.

Como provedor, quero acima de tudo estar ao lado de um jornalismo ao serviço da liberdade de opinião e expressão, estrutura base de uma democracia em vivência autêntica e não apenas em ideal programático. Por isso, tenho pena que, passados estes quarenta anos desta nossa democracia, esta campanha eleitoral esteja a decorrer com procedimentos desadequados para vitalizar a vida democrática do país. E a verdade é que os media, entre os quais obviamente incluo o PÚBLICO, ainda não encontraram uma metodologia e uma prática para contrariar estes esquemas de campanha caduca e obstrucionista. Não obstante a crise financeira que “castiga”, de modo severo, o sector dos media, é indesmentível que os media portugueses modernizaram-se em processos tecnológicos e informativos, colocando-se num perfil que, nestes aspectos, está ao melhor nível mundial. Aliás, na sua generalidade, abordaram este acto eleitoral com entrevistas, dossiers, reportagens, bastante informativos. Mas com a entrada propriamente dita da campanha, qual rolo compressor que atravessa em arruadas, jantares comícios e com gincanas de quem mente mais e melhor, os procedimentos da campanha sobrepõem-se ao esforço plural e de campo aberto do sistema mediático. Por norma, os métodos ressequidos de campanhas eleitorais viciadas por processos dos grandes aparelhos partidários que, de terra em terra, fazem, sobretudo, muito barulho e lançam muita confusão, cilindram o esclarecimento indispensável à discussão das propostas que trazem. Com uma propaganda feita de slogans, de promessas fátuas, explorando “apegos sentimentais e emocionais” só ampliam a indecisão e, sobretudo, a descrença e o afastamento crescente dos cidadãos. Um sistema de propaganda política que continua a potenciar o favorecimento dos ditos partidos do consignado “arco do poder” (expressão ou conceito, só por si, impeditivos do alargamento plural das propostas valorativas de um entendimento de democracia de conquista de poder em aberto e não fechado ou de lugares reservados), arredando da compita os outros partidos designados menores, quer aqueles com assento na AR, quer aqueles com assento no universo da cidadania portuguesa. É verdade que esta lógica de fazer valer, e ganhar, por todos os meios, os partidos do “arco do poder” não tem registo de patente exclusivamente português. Vigora numa Europa, cuja divisa actual dos supremos valores que defende é a divisa dos dinheiros e por isso protege os que garantem à partida o “seguro de vida” do sistema.

Num contexto de tanta fragmentação social na sequência deste choque frontal de valores e culturas em curso, a propalada necessidade de coesão nacional e europeia é apenas aparente. Mais uma mentira. Para uma maior sanidade democrática até seria melhor a composição de uma Assembleia da República sem maiorias. Esse condicionamento garantiria que a AR cumprisse o papel que, constitucionalmente, lhe está designado de “vigilante constante” da acção governativa. Com as maiorias, conquistadas pela proporção dos votos explicitados nas urnas, sem serem contados os dos outros partidos oponentes e os dos outros cidadãos que se vão abster, as maiorias garantem a cobertura plena de toda a acção dos governos. Formalmente é um veredicto considerado legítimo pelas regras vigentes, mas não deixa de ser um factor dissimulador do vigor da democracia representativa. Não obstante as queixas dos sintomas de enfermidade latente e decadente do sistema democrático, continuamos a preferir adiar a reflexão sobre a reinvenção de novos processos e procedimentos. E para isso seria decisivo que os media, sem subjugação a estes processos de campanha, invertessem a ordem das coisas. Como provedor, é deste lado que estou.

Provedor dos Leitores do PÚBLICO