Pode uma cidade ser revelada através de um arquitecto?

Um percurso por uma cidade pensada por João Luís Carrilho da Graça, um fazedor de olisipografias construídas a partir de uma perspectiva culta e comovente sobre história, topografia e futuro.

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Carrilho da Graça fotografado à entrada da exposição,com uma maqueta de grandes dimensões que representa a topografia da cidade na escala 1:10.000. Daniel Rocha
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O arquitecto Carrilho da Graça Daniel Rocha
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Carrilho da Graça: Lisboa Daniel Rocha
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Carrilho da Graça: Lisboa Daniel Rocha
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Carrilho da Graça: Lisboa Daniel Rocha

Carrilho da Graça: Lisboa é uma exposição montada sobre um conjunto de 12 projectos para a cidade de Lisboa do arquitecto João Luís Carrilho da Graça, apresentados através de 16 maquetas, e desenhados entre o final dos anos de 1980 e 2015.

O mais antigo, a Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, foi projectado quando o arquitecto tinha 35 anos. A selecção foi feita a partir de 52 projectos possíveis, para a região de Lisboa, uma produção singularmente consistente que toca desde a pequena escala, focada em desenhos de interiores, apartamentos, casas ou galerias de arte, como a Módulo (com Carlos Miguel Dias, 1987-88), por exemplo, até à abordagem urbanística, que a encomenda do Programa Valis, Estudo e Plano Estratégico de Preservação do Património Arquitectónico e Urbanístico de Lisboa representa, e que lhe permitiria desenvolver uma ideia para a colina de Santana (com João Gomes da Silva, 1991).

A mostra inaugurou-se esta terça-feira, na Garagem Sul – Exposições de Arquitectura, no Centro Cultural de Belém, com a curadoria de Susana Rato, arquitecta e colaboradora do atelier Carrilho da Graça, e de Marta Sequeira, docente e investigadora da Universidade de Évora. Privilegiaram-se maioritariamente projectos de grande escala, por serem certamente os que expõem melhor as peculiaridades territoriais da cidade. A Escola Superior de Música (1998-2008), o Terminal de Cruzeiros (2010), a nova sede do BPI (2015) estão entre os projectos expostos.

Em Carrilho da Graça: Lisboa, apesar do grande espectro temporal que a mostra abrange, a cronologia é provavelmente o factor menos relevante. O aspecto antológico – como salientaram as curadoras na abertura – também não é o mais determinante. Decisiva é todavia a ideia de cidade que estas propostas, realizadas ou não, permitiram consolidar ao seu autor, ao longo de quase três décadas de trabalho. Consequentemente, sobre a matéria da exposição, há uma questão que se torna quase óbvia: pode uma cidade ser revelada através da perspectiva pessoal de um arquitecto? Porque em Carrilho da Graça: Lisboa, não é Lisboa que se vê, mas a cidade e o seu arquitecto, isto é, uma realidade paralela construída a partir do imaginário de um autor. O próprio Carrilho da Graça insiste na ideia de que pretende comunicar “o valor da cidade” através da exibição das suas propostas, colocando o foco em Lisboa. Um paralelo que eventualmente se pode conseguir entre alguns artistas plásticos, ou entre escritores e poetas, e o seu lugar de eleição.

Lisboa emerge aqui portanto como o centro da atenção de João Luís Carrilho da Graça. Uma cidade que se molda através da arquitectura e, simultaneamente, molda o arquitecto que pacientemente se lhe vai dedicando. Interessa, a este propósito, revisitar uma entrevista que Carrilho da Graça deu ao JA – Jornal Arquitectos em 2008, onde fala sobre a escolha dos lugares para os quais projecta, e que Marta Sequeira recupera no seu artigo do catálogo, intitulado O Território como Invariável. Nessa entrevista dada a Ricardo Carvalho e a José Adrião, confirma claramente que há intencionalidade na opção por lugares que possam estabelecer uma relação forte com os seus edifícios. A predisposição por topografias acidentadas, linhas de festo e cumeadas, promontórios, vales, são portanto visíveis nos seus projectos lisboetas. Carrilho da Graça evoca conceitos e matérias elementares da geografia, que elenca como tópicos no texto Metamorfose, escrito em 2002, também para o JA, a pedido de Manuel Graça Dias e agora de novo editado no catálogo. Por também convocar todo esse passado, tratando Lisboa numa perspectiva autoral e com grande intimidade, é uma exposição belíssima, uma narrativa da sedução que uma cidade pode produzir sobre um autor, arquitecto ou não.

O processo de transformação do território como resultado da acção da arquitectura pressente-se em toda a exposição. Carrilho da Graça explica que a sua relação com Lisboa decorre do facto de “não ser o mundo da sua infância”. Esta convicção dá-se em contraponto a Portalegre, onde nasceu em 1952, e de onde saiu, para estudar arquitectura no convento de São Francisco da Cidade, então Escola Superior de Belas Artes, aos 17 anos: “É difícil mudar algo na cidade natal, onde tudo parece perfeito e está cristalizado nas memórias de infância”. Aos jornalistas, no encontro com a imprensa, realizado esta terça-feira, confirma: “Gosto imenso de cá morar. Todos quantos visitam Lisboa pela primeira vez sentem o fascínio”. É uma evidência que as maquetas, expostas sobre mesas “de trabalho” e em forma casual – como se a montagem não tivesse obedecido a um plano previamente definido e “desenhado” – reflectem.

À entrada da exposição, uma maqueta de grandes dimensões representa a topografia da cidade na escala 1:10.000. Sucedem-se mais 15, com escalas variadas, entre conjuntos urbanos e edifícios isolados. A representação é um simulacro da realidade, naturalmente, uma realidade “selectiva” que reforça a perspectiva do arquitecto. Carrilho da Graça explica melhor: “Uma maqueta não tem que expressar a realidade de uma forma menos poética, mas aquilo que queremos mostrar”.

As maquetas são o centro da exposição, provavelmente o que os visitantes guardarão melhor da sua visita. São como objectos espalhados pela Garagem Sul, que direccionam os percursos pela sala. A sua abstracção é contrabalançada pelos três vídeos em negativo sobre Lisboa de Tiago Casanova, projectados nas paredes laterais e que reproduzem aspectos da cidade.

Na parede oposta expõem-se diversos documentos (plantas, fotos, frases) reformulados como uma cartografia reinventada a partir dos projectos e dos tais conceitos geográficos de Metamorfose, numa tentativa de construir uma nova cartografia. Carrilho da Graça é um olisipógrafo da novíssima geração, que trabalha sobre Lisboa com a dedicação de um poeta.

Os seus projectos estão carregados da geografia da cidade, da sua história e da sua literatura. No catálogo, Diogo Seixas Lopes propõe como repto A preto-e-branco, contextualizado o percurso do arquitecto desde o período da sua formação académica até à “última paragem” que Lisboa aqui interpreta, na opinião do crítico de arquitectura: “Subindo e descendo os caminhos tortuosos de Lisboa, os projectos e obras que ao longo dos anos Carrilho da Graça tem concebido contribuem para dar coerência a (uma) visão de sofisticação e forma urbana”.

É um texto “intrigante” que nos obriga a reposicionar Carrilho da Graça na cultura contemporânea (não só a portuguesa) e a sua busca incessante (e autêntica) pela beleza. Há portanto já algum tempo que não se via em Lisboa, e sobre Lisboa, uma exposição de arquitectura tão verdadeira quanto esta. Crítica de arquitectura


 

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