Ciclone não vergou mata do Buçaco, biodiversidade respira em várias frentes

Milene Matos, bióloga da Universidade de Aveiro, ganhou três prémios com Bio Somos Todos, projecto concentrado em 105 hectares de património natural e que coloca as mãos na terra. Estas acções ambientais também contribuem para a reinserção social.

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Adriano Miranda
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Em Janeiro de 2013, o ciclone Gong destruiu 40% de área da mata do Buçaco, na vila de Luso, concelho da Mealhada. Abriu clareiras, aumentou a propagação de espécies invasoras, derrubou árvores de grande porte. Ainda hoje o espaço, que recebe cerca de 200 mil visitantes por ano, ressente-se dessa destruição. Há, no entanto, trabalho a ser feito: sementes para recolher, semear e replantar, intervenções de restauro do sistema natural.

Esta é apenas uma parte do trabalho de Milene Matos, 33 anos, bióloga da Universidade de Aveiro, a frequentar o pós-doutoramento em Comunicação da Ciência na mesma faculdade, e que venceu a última edição do Prémio Terre de Femmes, relativo a 2014 e anunciado em 2015, da Fundação Yves Rocher, nas três “categorias” possíveis. Ganhou o prémio nacional, que lhe permitiu concorrer ao internacional, que também venceu, e ainda trouxe para casa o prémio do público. É a primeira vez que esta distinção, que reconhece e recompensa financeiramente mulheres que desenvolvem projectos ecológicos e sustentáveis, veio para Portugal.

Bio Somos Todos é o nome do projecto que olha em várias direcções em nome do bem-estar de 105 hectares de património natural do Buçaco. Milene Matos vai comprar árvores do mundo inteiro para sarar feridas que o ciclone Gong abriu. “A mata do Buçaco tem uma colecção arbórea com mais de 100 anos e com o ciclone perdemos exemplares únicos”, diz Milene, que está a tratar das encomendas. “São árvores históricas que geram um vínculo emocional com a mata”, sublinha. Plantando-as, mantém-se e respeita-se um legado histórico. A bióloga quer também criar um banco de sementes para conservar o património botânico, aconteça o que acontecer. Uma forma de preservar o património genético de “um oásis da biodiversidade”, como lhe chama.
Milene Matos mostra os viveiros que foram reactivados e que agora são a matéria-prima e o palco de várias oficinas. Ali, outrora ruínas, plantam-se sementes de espécies recolhidas na própria mata e que depois serão replantadas. Há também produtos hortícolas que servem de exemplo para estimular alunos das escolas a fazerem uma pequena horta no recinto escolar ou em casa. E ainda um cantinho de aromáticas, que ensina que todos podem semear e vender produtos tratados com as próprias mãos e que, além disso, vai alimentando a loja da mata do Buçaco com plantas de aromas intensos vendidos em sacos. 
“Trabalhamos com tudo o que está disponível na mata para os mais diversos públicos”, explica a bióloga de Aveiro. Bio Somos Todos caminha, portanto, de forma sustentada. “É um projecto que ajuda o ambiente e cria oportunidades às pessoas”.
Há ainda uma exposição itinerante bilingue, Amor Natura, Love Natura, com fotos e testemunhos de 40 pessoas, tantas quantas as semanas de gestação de uma vida, para partilhar atitudes positivas perante a natureza. No Facebook, perguntou-se aos envolvidos e seguidores das iniciativas da mata do Buçaco o que tinham aprendido nas acções em que participaram, e o que tinham mudado nas suas vidas. Os relatos foram compilados e as pessoas fotografadas na mata. A exposição estará disponível para percorrer o país a partir deste mês. “Se uma pessoa tiver mais vontade de ir à natureza, missão cumprida”, diz Milene Matos.
O projecto não começou agora, arrancou em 2011 com o serviço educativo da Fundação Mata do Buçaco para aproveitar um “enorme potencial” que não estava a ser explorado do ponto de vista pedagógico. As mudanças começaram.
O serviço educativo tem várias iniciativas adaptadas a diferentes públicos, dos mais novos aos mais velhos, de miúdos das escolas, jovens do 3.º ciclo e secundário, aos utentes de instituições de solidariedade social, a reclusos que trabalham diariamente na mata. 
Além da preservação da biodiversidade, a componente social não é descurada, ganha importância. Combate-se o isolamento dos mais velhos, abre-se uma porta à reinserção social de reclusos, comprometem-se crianças e jovens com as dádivas da natureza, envolve-se a comunidade para as questões ambientais. “Estes programas são muito eficientes na reinserção social e profissional. Os reclusos, por exemplo, são formados tecnicamente e são tratados na igualdade”, refere a bióloga, sustentando-se no que acontece na mata e num estudo realizado em duas prisões com inquéritos feitos a 92 reclusos.

Laboratório de aprendizagens
A educação ambiental está sempre presente neste serviço educativo, que, por ano, recebe cerca de mil pessoas. Todos podem tentar perceber como respira e vive esse pedaço de terra abençoado pela natureza e que Milene Matos conhece de olhos fechados. Há sempre actividades que permitem entender o que se passa naquele espaço verde. A erva-da-fortuna, planta invasora, cresce em algumas zonas da mata e é arrancada para dar espaço a plantas naturais que sejam benéficas para a flora e fauna que ali habitam, como carvalhos e vincas, raposas, javalis e lagartos de água, além de 16 espécies de morcegos, entre outros.
Meter as mãos na terra ajuda a perceber a importância de determinados gestos e a verificar, in loco, as consequências desses trabalhos. “Não só participam na conservação da biodiversidade, como vêem os resultados e sentem-se mais competentes”. “Tudo é explicado e o grau de dificuldade adapta-se aos diversos públicos”, acrescenta.
Milene Matos dedicou dois dias a 30 páginas, com textos e fotos, na descrição de um projecto que conquistou um prémio internacional que permite mostrar e confirmar que a mata do Buçaco é mais do que um parque verde. É também um laboratório de aprendizagens num cenário natural a perder de vista. A investigadora do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro resume os objectivos do Bio Somos Todos numa frase: “Usar o património natural, histórico e cultural inigualável da Mata Nacional do Buçaco como veículo para a construção de um serviço educativo com funções pedagógicas, mas também sociais e de promoção e protecção da biodiversidade”. Um projecto com as mãos na terra e olhos abertos em várias direcções.
A bióloga de Aveiro ganhou, no total, 20 mil euros: cinco mil do projecto nacional, mais cinco mil do prémio do público e 10 mil na distinção internacional. Decidiu usar o prémio de forma pouco habitual. A investigadora acredita que o pode multiplicar de maneira a que tenha impacto na comunidade através de oportunidades educativas. Receber para dar é a sua filosofia. 
Inicialmente, pensou comprar um computador, um projector, material para o serviço educativo. Desistiu da ideia. Mais dia, menos dia, esses materiais ficariam obsoletos, pensou. Mudou de planos. Abriu uma bolsa de estudo para pagar as propinas, durante dois anos, a um aluno de mestrado da Universidade de Aveiro, de qualquer área científica, que apresente um projecto relevante e útil do ponto de vista ambiental, económico e social. Um projecto com impacto na sociedade. 
O dinheiro do prémio também servirá para atribuir bolsas a crianças do 1.º e 2.º ciclos que apresentem projectos ligados à natureza nas suas escolas, nas suas ruas, em suas casas. O dinheiro do prémio será também investido no banco de sementes e na compra de árvores de todo o mundo.

Inscrições abertas, prémio duplicado
O Prémio Terre de Femmes 2015, da Fundação Yves Rocher, tem as candidaturas abertas até 9 de Outubro para mulheres de oito países — Portugal, França, Ucrânia, Alemanha, Suíça, Rússia, Marrocos e Polónia. Podem concorrer candidatas com idade superior a 18 anos, que tenham um projecto em prol do ambiente e que seja desenvolvido de forma independente ou através de uma estrutura sem fins lucrativos. 

A edição portuguesa do prémio, que vai para a sétima edição, vai duplicar pela primeira vez o valor atribuído à primeira classificada, de cinco para 10 mil euros, contemplando ainda uma menção honrosa no valor de 3.000 euros. A eco-cidadã residente no nosso país que vencer o prémio nacional ficará imediatamente habilitada a concorrer ao prémio internacional, também no valor de 10 mil euros, bem como ao prémio do público com votação online. O júri nacional é composto por especialistas da área, nomeadamente representantes da Liga para a Protecção da Natureza, da Quercus, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e ainda da Inspecção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território. Até ao momento, a Yver Rocher já atribuiu o prémio a 350 mulheres de vários países, investindo mais de 1,5 milhões de euros em projectos que não abrem mão do bem-estar da natureza.