“O Syriza juntou tanta água ao vinho que já não é vinho nenhum”

Com o Syriza e a Nova Democracia empatados nas sondagens na Grécia, os indecisos podem ser a chave para o resultado de domingo.

Gregos assitem ao debate entre Tsipras e o seu rival da Nova Democracia, Evangelos Meimarakis
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Gregos assitem ao debate entre Tsipras e o seu rival da Nova Democracia, Evangelos Meimarakis Paul Hanna/Reuters

Natassa, 47 anos, vota sempre e nunca esteve indecisa. “Desta vez, pela primeira vez na minha vida, não sei o que vou votar.” Arquitecta de profissão, trabalha há um ano numa loja de tecidos no centro de Atenas. Maria, 37 anos, que trabalha com crianças, também passa pelo mesmo. “Sempre fiz troça dos indecisos e agora estou eu indecisa.” Natassa e Maria estão longe de ser casos raros: algumas sondagens dizem que a menos de uma semana das legislativas na Grécia, os indecisos são mais de 20%.

Muitos votaram no Syriza de Alexis Tsipras como uma alternativa a um novo acordo com os credores, e acabaram por ver o partido que elegeram assinar um terceiro empréstimo.

É o caso de Natassa. “Já votei várias vezes no Syriza, mas desta vez não sei.” Parte da razão para a sua indecisão é que “estas eleições são ridículas”. “O que quer que se vote, o resultado é o mesmo” – o memorando já foi assinado, o que está em causa é a sua aplicação. “Acho que todos os gregos deviam não votar, como no livro de Saramago”, diz Natassa. Mas como isso não vai acontecer, “acho que não consigo não votar”. Em quê, decidirá no domingo.

O que está em causa nestas eleições pode parecer pouco, mas o novo Governo terá de aprovar medidas antes de cada transferência, programada para ser feita antes de cada prazo de pagamento. Dificuldades no processo, avisou recentemente o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, podem querer dizer que a atitude de Bruxelas será diferente. Ou seja, a saída da Grécia do euro ficaria de novo em cima da mesa.

Os eleitores não parecem ver assim a questão, e há ainda uma certa saturação com eleições – duas legislativas em 2012, europeias em 2014, para além das duas legislativas de 2015 e um referendo pelo meio. Uma das piadas pré-eleitorais é que os gregos votam agora mais vezes do que têm sexo.

Na praça Syntagma, a Nova Democracia tem um grande quiosque. Lá está Costas Pachalides, 52 anos, a explicar o programa a quem passa. “Há mais indecisos do que o habitual, muita gente vem fazer perguntas”, diz. “São umas eleições muito estranhas, porque não temos muito para escolher”, defende. A principal diferença, para Costas, é que a Nova Democracia, se vencer, quer colaborar com o segundo mais votado, que seria o Syriza. “E o Syriza prefere governar com os partidos de esquerda”, como disse Tsipras no debate da noite anterior.

O mais alto

Estas legislativas são as primeiras desde 2009 com um frente a frente entre os principais candidatos à chefia do Governo. Na segunda-feira à noite, o antigo primeiro-ministro e o seu rival da Nova Democracia, Evangelos Meimarakis, enfrentaram-se num duelo, com as sondagens a darem o Syriza apenas ligeiramente à frente.

Numa taverna de Petralona, um bairro de classe média, um ecrã gigante ocupa todo o balcão. O dono está colado ao plasma, e os filhos vão alternando o servir à mesa com um cigarro a ver o debate. Do lado de fora, um homem dá distraidamente pequenos peixes fritos a dois gatos enquanto tenta ir ouvindo o que dizem Tsipras e Meimarakis. Mas nenhum quer dizer o que achou melhor ou em quem pensa votar.

Meimarakis pergunta qual é o propósito da eleição, convocada por Tsipras em meados de Agosto quando a sua coligação não teve votos suficientes para aprovar medidas do memorando e teve de contar com o apoio da oposição.

Tsipras, pelo seu lado, acusa o antecessor de pertencer a um partido do “velho regime” manchado por corrupção e prometeu mãos limpas.

Nas redes sociais, um dos momentos mais mencionados foi quando o candidato da Nova Democracia se queixou ao realizador de fazer Tsipras parecer tão alto quanto ele – o ecrã estava dividido com a imagem de ambos os candidatos em cada metade do ecrã. Meimarakis é mais alto.

Tudo isto passou ao lado de Maria, que está com a amiga Stevi, actriz de 44 anos, num café não muito longe da Acrópole. Nenhuma das duas viu o debate; apesar de ambas estarem indecisas, a escolha não é entre Tsipras e Meimarakis. “Não votaria na Nova Democracia porque seria pior em algumas coisas: já vimos o que fizeram aos imigrantes quando estiveram no poder, e a polícia também era pior”, diz Stevi. “Além disso, acreditam nas privatizações para solucionar os nossos problemas, querem vender tudo”, acrescenta Maria.

As duas vão concordando em quase tudo e discordando em pormenores, Maria abrindo os olhos grandes, Stevi esticando os braços longos. No fundo, estão ambas desiludidas com o Syriza, e muito. “Sabes o que se diz quando se junta um pouco de água ao vinho?” pergunta Stevi. “O Syriza juntou tanta água ao vinho que já não é vinho nenhum”, ou seja, já é difícil ver que esquerda há no que entre Janeiro e Agosto foi o primeiro governo de esquerda na Grécia.

Maria votou sempre no Syriza, mas desta vez está indecisa se há-de mudar para o partido criado por Panagiotis Lafazanis, fruto de uma cisão dos que no partido preferiam rejeitar o terceiro empréstimo e sair do euro. “Por um lado, preferia ter um Governo de esquerda, porque poderia fazer diferença na vida quotidiana, e assim votaria útil no Syriza”, diz Maria.

“Por outro lado, queria que Lafazanis entrasse no Parlamento, porque se não, a única voz contra o memorando que vamos ter vai ser a da Aurora Dourada”, o partido neonazi que surge em terceiro lugar nas sondagens com cerca de 7% e que muitos analistas temem que venha a ter mais. O partido de Lafazanis, a Unidade Popular, está com pouco mais de 3%, a linha mínima para ter representação parlamentar. “O problema”, conclui Maria, “é que enquanto ele defende um regresso a uma moeda nacional, não explica como é que isso aconteceria”.