Uma peça para mostrar que está tudo errado

Para abertura de temporada do Teatro Maria Matos, a companhia Truta propõe Uma Mulher sem Importância, peça mal-amada de Oscar Wilde.

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Uma Mulher sem Importância, de Oscar Wilde dr
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A Truta tem doze anos. E durante os doze anos da Truta muitas foram as actrizes que passaram pelas suas produções de textos de Bertolt Brecht, Thomas Bernhard ou Anton Tchékhov.

Desse dado avulso que poderia ser apenas objecto de curiosidade, a companhia de teatro resolveu partir para a ideia de enfiar todas estas actrizes num mesmo espectáculo. Só depois veio a busca por um texto onde coubessem Joana Bárcia, Rita Durão, Lia Gama, Cláudia Gaiolas, Paula Diogo e Maria João Abreu.

A escolha recaiu então sobre Uma Mulher sem Importância, de Oscar Wilde, “uma peça divertida e que, ao mesmo tempo, encerra uma crítica mordaz”, diz ao PÚBLICO Joaquim Horta, encenador do espectáculo que, entre 10 e 19 de Setembro, abre a temporada do Teatro Maria Matos, em Lisboa.

O isco seria talvez demasiado irresistível ao tratar-se de uma peça tida como mal-amada e longe de ser a obra mais reconhecida ou reputada do escritor irlandês. “Isso é algo que nos atrai um pouco – trabalhar autores consagrados mas nunca aqueles textos mais emblemáticos”, reconhece Horta.

Construído enquanto retrato ácido da burguesia inglesa de fins do século XIX, o drama de Oscar Wilde parece ser apenas pretexto para que em fundo – e não tão fundo quanto isso – se vá satirizando uma desgastada divisão social dos papéis de género e se aponte caminho a uma convivência mais civilizada, aqui introduzida por uma jovem visitante norte-americana que encanta pelo modelo social mais justo que transporta consigo mas que, em si mesma, parodia o cliché de que é sempre nos “outros” que se encontram as virtudes (uma fatalidade e, claro, um descanso).

A falta de conforto da Truta na abordagem a “este tipo de teatro que tem uma série de formalismos e de maneirismos de época”, caracteriza Joaquim Horta, tornou-se também um dos atractivos para chegar ao texto de Wilde. Diante desse território estranho, as opções eram as de contornar ou apagar essas marcas do texto, ou emprestar-lhes um qualquer aroma a contemporaneidade.

“Embora aqui também haja questões universais”, acrescenta, “nos outros autores que fizemos antes o retrato de época não era tão rigoroso ou acentuado. É certo que o Oscar Wilde faz isso para trazer à tona a crítica e a ideia moral de como tudo isto está errado. Mas para mostrar que está errado pinta um quadro rigoroso.”

Escolhendo claramente a sugestão de contemporaneidade, a encenação de Joaquim Horta recorre ao guarda-roupa de José António Tenente para nos iniciar numa peça de época que, progressivamente, se despe dessas roupas para se acercar, sem alarde, do tempo do público. E com este estratagema, aquilo que primeiro não passa de uma divertida mas distante troca de ideias feitas sobre as qualidades femininas ganha uma ressonância mais próxima e questiona até que ponto estaremos, afinal, ao virar da esquina dos finais do século XIX.

A meio da peça, de resto, no pós-jantar em que todas as personagens se reúnem, cai uma cortina que divide o palco em dois, deixando homens de um lado e mulheres do outro. Sobrepondo algumas das falas, sobrepõem-se os discursos, mirram as diferenças, salta à vista este espelho baço que impede que se vejam e se oiçam. Uma Mulher sem Importância está cheia disso mesmo: daquilo (e de gente) que não se ouve e daquilo (e de gente) que não se vê.